Diretor de “Distrito 9″ abusa de ironia e didatismo para provar que a espécie humana faliu.

Fotos: divulgação
Eu não sou daquele tipo de pessoa que dá muita bola para a opinião de críticos, principalmente de cinema. Poderia citar uma dúzia de exemplos de filmes que os críticos amam e eu nunca tive paciência para ficar mais do que 20 minutos na frente da tela. E quando eu digo “dúzias” eu, obviamente , estou falando em centenas!
Dessa forma, meu critério para escolha de filmes para assistir acaba sendo a opinião de “alguns” amigos, a qualidade e capacidade do trailler de me “instigar” e um bocado de sorte. Tirando os filmes que eu “sei” que vou ver de qualquer jeito – leia-se qualquer coisa do Tim Burton, do Lars Von Triers e alguns outros amiguinhos! – sou bastante eclético em minhas escolhas.
De qualquer forma, os filmes que mais me agradam são aqueles que tem a capacidade de me fazerem ficar pensando neles depois que eu saio do cinema. Quanto mais tempo eles ficam “reverberando” dentro da minha cabeça, mais interessantes eu os acho e acabo por ter vontade de indicá-los para os amigos.
Isso posto, só quero deixar claro que acredito que minha relação com o cinema é extremamente pessoal e sei que muitas vezes vou contra os critérios “técnicos”, “estéticos” e “comerciais” para falar/escrever/conversar sobre cinema.
A História
Distrito 9 narra, de forma quase documental, da chegada de uma nave alienígena à Joanesburgo (Africa do Sul) e do processo de convivência entre eles e nós – os humanos. Impedidos de saírem do planeta, os “camarões” são colocados em uma região, que logo se transforma em uma favela, que dá nome ao filme.
Após 20 anos de convivência pouco pacífica, todo um sistema é criado em torno do Distrito 9. Desde traficantes de “comida de gato” até traficantes de armas alienígenas. Prostituição, humilhações, preconceito, ignorância, ganância, conflito de interesses… todos esses ingredientes fazem parte das relações exploradas pelo filme.
Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley – em interpretação bastante interessante) é encarregado então de tratar do desalojamento dos alienígenas e sua transferência para um novo local. Em um procedimento, quase que de rotina, para entregar as ordens de despejo, Wikus é “contaminado” por material alienígena.

O texto abaixo contém spoilers.
Com sua contaminação, algo extremamente interessante começa a acontecer: Wikus começa a transformar-se em um alienígena. O que para ele é um grande problema, para a empresa que ele trabalha é uma grande solução, visto que as armas aliens reconhecem quem as usa e não funcionam com os humanos. Todo o investimento feito para manter os aliens parece começar a dar, finalmente, alguma possibilidade de lucro.
Em sua jornada para recuperar sua humanidade Wikus vai descobrindo toda a óbvia e didática relação com o sistema em que estava envolvido, sem saber… ou talvez, mesmo sabendo do que acontecia, vai sentir na pele a força da opressão que antes exercia.
Mas é este o ponto?
Ok.. nesse momento você já deve estar se perguntando o que tem de novo neste filme, afinal esta trajetória não é nenhum um pouco nova. Muitos filme americanos trabalham com a jornada do herói que deve passar por uma “provação” para revelar sua verdadeira força. Mas, não creio que seja essa discussão levantada pelo diretor estreante e co-roteirista Neill Blomkamp.
O que me fez ficar um bom tempo pensando no filme foram duas passagens próximas do final: Em um dos momentos, Wikus está para ser morto pelos seus companheiros de trabalho e todos os alienígenas por perto ajudam a socorrê-lo. No segundo momento, um dos alienígenas que estava tentando ajudar Wikus, está na mira dos humanos e ele, com possibilidade de ajudá-lo, não o faz.
Já ficou claro? Não… sem problemas, seguimos falando.
Na cena final, temos a esposa de Wikus dando uma entrevista (é tudo como um documentário, lembra?) e falando sobre uma flor de metal deixada em sua porta. Ela não tem certeza se foi seu esposo ou não que deixou a flor. Logo em seguida, o diretor nos mostra um “camarão” com uma flor de metal nas mãos. Seu olhar, por mais que ele esteja completamente transformado em alien, não deixa dúvida. É ele. É Wikus! Talvez mais “humano” do que quando era um homem “mesmo”. O filme termina com essa imagem.
Uma metáfora didática!
Ao colocar os alienígenas no roteiro, o diretor e os roteiristas, nos indicam claramente um antagonista. Afinal, não é pequena a lista de filmes em que “o que vem de fora” é a ameaça. Mas, a inversão dos papéis entre bandidos e mocinhos nos deixa um pouco perdidos. Afinal, se os alienígenas não são os bandidos…. só sobramos nós, certo?
Voltamos então à premissa inicial deste texto: ironia e didatismo.
Em cada momento do filme, temos três linhas narrativas: imagética, documental e ainda a dos jornais dentro da história. Mas, ao invés delas trazerem a mesma informação, somos apresentados em alguns momentos com informações conflitantes, criando-se então as contradições. Através delas podemos claramente ver o mundo em que vivemos hoje, representado através de muita ironia. (A cena onde Wikus é apresentado como traidor pelos jornais porque fez sexo com os aliens é um bom exemplo disso!) Em outros momentos (como na cena final) o diretor quase que nos explica as posições tomadas pelos personagens.
No conjunto, não parece que seja somente falta de técnica. Talvez o diretor queira que nos pensemos em outras coisas que vão além da história. Comigo funcionou. Comparando o filme com o mundo que estamos vivendo. Com os casos que temos visto na TV ultimamente. Com a barbárie do caso Uniban… e cheguei à uma triste conclusão: a humanidade faliu! Só acho que vai ser difícil esperar por alienígenas para nos mostrar que podemos ser melhores. Mas, se não forem eles, quem o fará?
