Embora a história literária do Brasil seja pouco conhecida, acho que a maioria já ouviu falar de Pero Vaz de Caminha e da carta que ele redigiu a D.Manuel, conhecido como o venturoso. Contudo, pouco se comenta sobre o conteúdo dessa carta, que na verdade é uma relíquia literária.
Imagine, toda a história literária de um país ter como inicio uma simples missiva. Pero Vaz de Caminha recebeu da mão do amigo D.Manuel a incumbência de ser o cronista da viagem que tinha como destino as terras brasileiras.Tal viagem durou 54 dias e Pero Vaz procurou anotar tudo que se passou desde a saída de Lisboa até a chegada ao Brasil - no dia 22 de abril do mesmo ano.
Na sua crônica de 14 folhas em um papel de “florete”, detalhou essa viagem, muitas vezes com coisas pitorescas, outras com poesias, falando desse local, dessa terra de árvores e florestas, onde os homens andavam nus.
Nossos homens ficaram deslumbrados,
por ver terras que possuem tanta pureza
E ter gentes de belos corpos pardos,
de bons rostos e narizes, que lhes dão fineza
A carta de Pêro Vaz de Caminha, seguiu para Portugal no dia 02 de maio de 1500, e ficou escondida na Torre do Tombo por dois séculos e meio. Só foi descoberta em 1773 e publicada em 1817.
Esse documento, embora seja uma simples missiva, trata-se de uma Certidão de Nascimento do Brasil - uma certidão que trás uma narrativa rica em detalhes que enfatiza a beleza e a riqueza local. Nenhum outro país tem um documento feito a mão como este.
SENHOR, Posto que o Capitão-mór dessa vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova de achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora a achou. Não deixarei também de dar minha conta a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que para o em contar e falar, o saiba fazer pior que todos.
Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afrear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.
(…)
Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra eu vi. E, se algum pouco me alonguei, me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo dizer, me fez pôr assim pelo miúdo. Beijo as mãos de Vossa Alteza,
Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.
Gosto de imaginar o olhar de Caminha caso desembarcasse nessas terras nos dias atuais. Me demoro nessa busca singular, onde tento imaginar quais seriam suas palavras, suas definições, suas interpretações para esse mundo após todos esses anos.
Contudo, divido com vocês a minha imaginação e os convido ao inusitado - transcrever um documento literário a partir da impressão de vocês sobre a cidade onde vivem. Apoderem-se da ilusão do olhar estrangeiro que chega a uma nova terra e revele-as para olhares iguais aos de tantos que tiveram a enriquecedora experiência da troca.
Afinal, muito antes da moda dos e-mails e blogs havia o hábito da escrita através de folhas, envelopes e selos e foram muitas as vezes, que pessoas como eu e você usaram do argumento da narrativa para descrever paisagens, lugares, momentos através de uma simples missiva - formato este que deu início a literatura de um país que surpreende pelos mais diferentes aspectos.