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O cachorro em volta do incêndio

Para os mestres

Você nunca vai ver um cara digitar tão rápido com uma mão só como digitava Xavier. Quando perdeu parte do braço direito na guilhotina da gráfica, só se usavam máquinas de escrever nas redações. Agora, com teclados, era moleza para ele.

Ensinou-me tudo o que eu sei sobre jornalismo. E dizia que a sua mão direita, ausente, ensinou-lhe tudo o que ele sabia. Aprendeu a não anotar nada enquanto entrevistava alguém. Anotava depois da entrevista ou a escrevia sem anotações mesmo. Se uma coisa era importante não precisava disso. Ficava na memória e pronto. Se não era, por que colocá-la no jornal? De qualquer modo, como não gostava de prender o telefone entre a cabeça e o ombro durante as conversas, não tinha opção. Segurava ou o fone ou a caneta. Estendeu daí o hábito para todas as suas matérias.

Certa vez, ao me ver ir para uma reportagem com o papel e caneta me chamou para um canto:

- Imagine se nós dois começássemos a conversar. Sobre garotas.

- Certo.

- Agora imagine que eu tiro um bloco do bolso e começo a anotar as coisas que você fala.

- Sim…

- Acho que isso não vai ser uma conversa íntima, certo?

As pessoas não confiam em gente com cadernetas e gravadores. O melhor jeito de conseguir informações importantes é sem essas ferramentas amadoras.

No primeiro dia em que eu pisei no jornal me disseram que eu iria ser seu assistente ou coisa assim. Levantar números e a grafia correta dos nomes enquanto ele ia atrás das coisas realmente importantes. Não importa se uma pessoa se vendeu por 10 ou 10 mil dinheiros. O que vale é o que há por trás disso. O valor é praticamente irrelevante diante da informação verdadeira de que alguém se vendeu por ele. E ele sabia como conseguir esse tipo de informação.

Eu, portanto, ficaria com a parte burocrática da coisa: quanto investe por ano determinado órgão público, se o nome de tal político é com um ou dois eles, a distância entre duas cidades.

No primeiro dia, subi as escadas e perguntei por ele. Apontaram-me um sujeito de paletó. A manga direita dobrada alinhadamente em direção ao ombro. Puxei uma cadeira e sentei ao seu lado. Ele pareceu não me ver. Digitava daquele jeito, sem recuos, como se o texto já saísse pronto de seus cinco dedos. De repente, parou:

- Você precisa me ver com os malabarismos nos semáforos. Sou muito melhor.

Fiquei pouco mais de um mês na sua cola, aprendendo a fazer as coisas mais pela observação do que pelo que me explicava. Às vezes me avisava de problemas com meu texto quando lhe preparava alguma notinha menor ou então dava dicas de como me dirigir às pessoas para fazê-las falar.

Eu já estava há algum tempo na equipe e já tinha eu mesmo conseguido algumas manchetes quando apareceu um almofadinha desses recém-saídos do curso de pós-graduação a fim de ensinar o Xavier a escrever:

- Xavier, esse seu texto está muito enrolado. Tem que ser mais direto. Diz o quê, quando, onde, como, quanto já no primeiro parágrafo e pronto.

- Você consegue escrever assim, garoto?

- Claro…

- Jamais duvidei. E tem orgulho disso?

Xavier acreditava numa história bem contada. Para ele, quem quer velocidade não compra jornal. Vai ver tevê ou escutar rádio. Quem gosta de palavras, quem gosta de ler, prefere as frases encadeadas de uma maneira que não deixe largar o jornal até que chegue o fim do texto.

Ele ficava meio amargurado ao ver que cada vez mais seus colegas deixavam de ser jornalistas para se transformarem em meros relatoristas. O escrivão mais reba de qualquer delegacia faria esse tipo de trabalho melhor e com mais precisão.

- Pense no cachorro, filho.

Eu gostava quando, às vezes, me chamava de filho. O cachorro era uma metáfora que ele usava para explicar o ponto de vista inusitado que toda matéria poderia ter. Num incêndio, por exemplo. Enquanto os relatoristas cuidariam de descobrir qual o tamanho de prejuízo, a duração do incêndio, a razão de ter começado, o melhor era procurar o cachorro. No cachorro que corre em volta das chamas pode haver toda a paixão e interesse humano necessários para uma boa história.

- As pessoas não querem saber até que altura iam as chamas. Não se interessam nem pelo número de vítimas. Isso tudo você pode contar no meio do texto. Mas o que elas querem saber mesmo é por que o cachorro corria em volta do incêndio. Será que ele tinha filhotes lá dentro? Era amigo de uma vítima? Qual o nome do bicho? Toda matéria tem um cachorro.

Como eu contei, Xavier perdeu parte do braço na guilhotina da gráfica, próximo à rotativa. E foi a única vez em seus quase quarenta anos de jornalismo que ouviu a famosa expressão para parar tudo. Ele não devia estar ali. Foi chamar um colega para tomar um café. Tropeçou e a lâmina baixou. Foi uma coisa tola e sem graça, ele mesmo dizia.

Lembro do dia da aposentadoria dele. Ninguém deu muita bola. Despediu-se de alguns colegas mais antigos, dois ou três e de mim, que já completava cinco anos ali. Os outros eram novatos. Verdadeiros relatoristas compatíveis com as necessidades do mercado. Ou com as necessidades que o mercado achava que tinha.

Alguns anos antes de ele morrer, encontrei-o e fomos tomar café. E veio uma pergunta, do nada. Não era algo sobre o que eu pensasse normalmente. Apenas pipocou na minha cabeça.

- Então, Xavier… por que o cachorro corre em volta do incêndio?

- Sei lá. Deve ser um desses vira-latas malucos da rua… - e me deu um tapinha na cara. Tive a impressão que foi com a mão direita.

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Como você vai mudar o mundo usando um blog

O que você é fala tão alto
que não consigo ouvir o que você está dizendo.
Ralph Waldo Emerson

Os blogs teriam surgido para replicar aquilo que já havia na rede.

Isso não está de todo errado, afinal, segundo Jorn Barger, pioneiro dos blogs, eles nada mais são que web logs, logs de navegação na rede.

As raízes de um suporte de comunicação não podem ser negadas, mas não há razão para que as coisas continuassem assim limitadas.

Por isso, não demorou para que essas raizes ganhassem um tronco e se desse um segundo passo. (more…)

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Que as asas da liberdade jamais percam suas penas*

Muito tem se falado sobre o que os blogs devem publicar e como devem publicar.

Pouco tem se falado sobre o que os blogs podem publicar e como podem publicar.

Falar de Ética sem falar de liberdade é algo que me cansa. Aliás, deveria cansar qualquer um. Mas pelo visto há uma certa preferência sadomasoquista em se falar de um tema sem que ele seja amalgamado pelo outro.

Existe um livro do filósofo Fernando Savater chamado Ética Para Meu Filho. É um livro que todos deveriam - ou poderiam - ler. Por tratar de um tema tão complexo quanto Ética de maneira simples sem, no entanto, menosprezar o leitor. Não é um “Ética Para Leigos” ou coisa assim. Afinal, Ética é uma coisa tão inabarcável por definição que chega a ser contraditório fazer um manual para ela. Uma ética, uma verdadeira ética, não tem regras fechadas.

O fato é que uma palavra muito presente nesse livro é liberdade.

Para começar a explicar a seu filho do que se trata a Ética, Savater usa um exemplo marcante. Se você assistiu Tróia ou leu A Ilíada sabe que a certa altura Aquiles vai até os muros da cidade sitiada buscar sua vingança contra o nobre Heitor, que matou o homem que amava.

Uma formiga, quando um inimigo, um besouro por exemplo, invade o formigueiro, precisa enfrentá-lo. Não porque ela goste do formigueiro, não porque ela deteste o besouro. Não porque é nobre. Acima de tudo, não porque ela escolheu. Mas porque está na natureza dela.

Ela não tem escolha.

Heitor, ao ver o invencível Aquiles nos portões de sua cidade, tinha. Poderia ter fugido, ter ficado junto aos seus, se escondido. Mas escolheu o enfrentamento independente dos resultados. Mas aceitando qualquer um dos resultados possíveis.

A formiga e Heitor tiveram ações similares. Mas apenas a de Heitor teve um teor ético, isto é, apenas a dele pode ser julgada eticamente. Pois ele exerceu a liberdade de escolher. E, depois dela, efetivou a escolha propriamente dita. E, depois ainda, sofreu as conseqüências e, se tivesse permanecido vivo, teria assumido as responsabilidades por essas conseqüências.

Os humanos estão envoltos por um círculo cujos pontos principais são esses. Liberdade, escolhas, conseqüências, responsabilidades, que nos levam de volta à liberdade.

Note que nem uma coisa e nem outra vem primeiro: uma pessoa já nasce com todas essas coisas. Mas quem coloca a liberdade em primeiro lugar pode se tornar um libertino. Quem prioriza as responsabilidades (em geral a dos outros), pode se tornar um ditador ou um escravo. E extirpar qualquer um desses atributos é desumanizar ou matar. Como quem arranca um fígado ou um coração.

Assim, um blog - um blog sobretudo -, como manifestação mais - ou menos - individual e humana deve ser também uma manifestação dessa liberdade e dessa responsabilidade.

Dizer como um blog deve ser ou como não deve ser é retirar um de seus atributos éticos, um de seus atributos humanos, transformando o tal círculo em uma linha torta.

É menosprezar a capacidade de um editor de um blog escolher e defender o que julga certo ou errado, seja o modo como escreve, seja sobre o que escreve ou como escolhe remunerar o que escreve. É menosprezar também a capacidade de o leitor escolher o que deve ler, o que não deve ler. Estima a capacidade crítica de ambos em níveis igual a zero.

Acima de tudo, algo assim iguala as atitudes mais éticas às menos éticas. Tudo passa a ter o mesmo valor. Quando tudo é igualado por regras externas ao homem, limitando suas escolhas, ele - no caso, o editor de blogs - deixa de ser Heitor - o herói grego - e passa a ser a formiga.

Aquele inseto minúsculo.

Heitor deve ter esmagado algumas enquanto, corajosamente, caminhava em direção ao destino que escolheu.

* Creio que a frase do título é uma fala do filme Os Aventureiros do Bairro Proibido, de 1986.

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Conforto e facilidade? Pra quem?

O Park Shopping Barigüi, em Curitiba, novamente pisa na bola.

A primeira vez, pelo menos para mim, foi através da demonstração de como a empresa trata os clientes e seus filhos.

Agora, passa a cobrar o estacionamento.

Sem dúvida que é um direito da empresa cobrar por qualquer serviço que ofereça. Cabe ao consumidor decidir se quer adquirir ou não esse serviço ou produto.

Mas dizer que a cobrança de algo que antes era oferecido gratuitamente equivale a mais facilidade e conforto (incluindo o fato de que só se aceita uma bandeira de cartões de débito ou crédito) é propaganda enganosa.

Se não é propaganda enganosa é, no mínimo, um discursinho típico de coorporações (veja o documentário). Do tipo: “calma filhinhos (clientes), nós sabemos o que é melhor para vocês.”

Inclusive existe o inevitável item:

– O que acontece se houver dano ou perda do cartão?
O cliente deve informar imediatamente o ocorrido em um dos caixas e pagar a importância de R$ 15,00 + a tarifa de estacionamento desde a abertura do shopping até o horário do comunicado.

Presunção de valor e tentativa cobrança indevida no caso de perda de cartão de consumação já é um problema que as casas-noturnas costumam causar. A obrigação de controlar os valores consumidos pelo cliente é do estabelecimento, mas não sei se isso se aplica a estacionamentos. Mas deveria.

Além disso, é muito comum para quem visita o o tal shopping ouvir os alto-falantes: “Atenção proprietário do carro marca tal, cor tal, placa tal: favor comparecer ao estacionamento…”. E ouve-se isso tantas vezes que você começa a achar que os caras têm problemas mesmo nesse setor. Esses anúncios vencem fácil, em tempo de execução, a música ambiente.

Além disso, você até compreende o fato de os outros shoppings cobrarem estacionamento. Mais centrais, houve época em que as pessoas tiravam as vagas dos efetivos clientes para deixarem seus veículos e irem trabalhar ou exercerem outras atividades.

Mas, como se sabe, o Park(ing) Shopping Barigüi fica no Mossunguê, bairro residencial de Curitiba.

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O engate para reboque é o troféu do individualismo estúpido

Você sabe para que serve um pára-choque?

Se você, como eu, tem um QI igual ou superior ao de um repolho em coma, percebe, pelo nome do artefato (pára-choque), que ele tem algo a ver com reduzir a violência e efeitos de possíveis acidentes sobre a estrutura de um veículo e, principalmente, sobre seus ocupantes.

Porém, faz tempo que vejo carros e mais carros com os tais engates para reboques em seus pára-choques traseiros.

Pergunto-me quanto desses felizes proprietários de automóveis (todo carro é brocha) têm de fato reboques esperando em suas garagens e, portanto, alguma razão em usar tal dispositivo.

Sim, porque um engate para reboque serve para isso: para engatar um reboque, bidu.

Não sei se existe uma estatística sobre isso, mas aposto que mais de metade deles não tem. Estou sendo otimista.

Pois é isso. Alguns gênios do trânsito usam o engate para reboques para proteger o pára-choque de possíveis acidentes.

Péraí. Dexoversintindi.

O gênio do trânsito instala um negócio em seu carro para proteger algo - o pára-choque - que, por sua vez, foi projetado para proteger estruturas mais importantes do carro e, principalmente, proteger ele - o gênio do trânsito - e sua família. Mas, ao ser protegido, o pára-choque perde em muito a sua função. Bem, pelo menos uma coisa vai se salvar em um provável acidente.

E, depois disso, o gênio do trânsito se acha muito esperto.

Ainda bem que existe uma regulamentação para o uso do engate para reboques (em PDF).

De outra forma, haveria proprietários de veículos instalando engates na frente do carro.

Ora, se eu quiser puxar meu reboque de ré, eu puxo, iria se justificar o gênio do trânsito.

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