São Paulo ganhou o Estilingão. Sua pedrada tem por definição um alcance limitado. Afinal, não é aumentando as possibilidades de escoamento - escoamento se aplica a carros e a esgoto, entre outras coisas - que o problema será solucionado.
O slogan da Ipiranga diz burramente que todo brasileiro é apaixonado por carro. Não. Não estou cobrando inteligência da publicidade. Mas sinceramente me sinto ofendido, pois me considero um sujeito capaz de paixões muito mais interessantes e instigantes.
Definitivamente, não sou um apaixonado por carros. Tenho certeza de que não sou o único a pensar assim.
Só uso um como última possibilidade. Por exemplo, para levar alguém - que não pode se deslocar de outra forma - a um tratamento médico.
Ou à noite ou nos fins de semana, quando sei que meu carro não será mais um estorvo. Um estorvo a mais nas ruas para quem realmente precisa usar um: por exemplo, alguém que necessite levar uma pessoa que não pode se deslocar de outra forma a seu tratamento médico.
Porém sei que nem todos têm essa opção. Distantes de seus empregos, muitos precisam de um meio de transporte rápido.
Eu disse rápido? Eu acho que me enganei.
Tenho certeza de que muitos só utilizam automóveis porque não há alternativas satisfatórias de transporte público. Ou uma boa rede de ciclovias. Sei.
Claro que também há os - entre ingênuos e egoístas - que acreditam na promessa de liberdade oferecida pelos carros, na publicidade.
Você já viu algum carro aparecer em uma propaganda em uma situação real de trânsito? Digo, num engarrafamento?
A cultura em torno dos carros é frustrante por natureza: os publicitários - que sabem que o consumidor é uma espécie de criança, movida por suas emoções mais primitivas - oferecem liberdade, pujança, virilidade. Na verdade, o carro é uma prisão. Um carro parado no trânsito é tremendamente broxa.
Há uma distância enorme entre aquilo que é vendido e o que se adquire.
No tráfego, aproveite o fato de que você está parado, ainda que o semáforo esteja verde, e observe. A seu lado, carros com capacidade para carregar suas próprias inúteis toneladas mais cinco pessoas - a uma velocidade impraticável e apenas potencial - estão ocupados somente pelo motorista.
ÿ desperdício de energia. Carro é jacu.
Diante disso, não me venha falar em fechar a torneira na hora de escovar os dentes.
Se a curva de estupidez não continuar ascendente, é possível que nossas próximas gerações nos julguem completos idiotas por usar máquinas com tanta potência para o transporte de tão pouca carga.
Sem falar no espaço que um negócio desses ocupa.
Olhe as fotos abaixo.
Primeiro temos o espaço ocupado por um certo número de carros. Depois, o ônibus necessário para transportar o mesmo número de motoristas e depois bicicletas, para a mesma quantidade de pessoas.

Aqui em Curitiba - enquanto as ruas estão cada vez mais estagnadas, em horários de pico ou não, completamente tomadas por veículos motorizados privados - são feitas as primeiras menções de se implantar aqui e ali algo mais sério ao capenga sistema de ciclovias. Ou de melhorar o antigo, anteriormente eficiente - e já nas últimas -, sistema de transporte público.
(Não me venham dizer que o sistema de ciclovias de Curitiba é bom. Não é. Está longe de ser. Sistema? Que sistema?)
Temos por aqui, por outro lado, um forte movimento de incentivo ao uso da bicicleta. Por enquanto, o condutor médio não tem conhecimento de que as bicicletas sejam meios de transporte “sérios”. Mas a Bicicletada está trabalhando para mudar isso.
E só agora fiquei sabendo - desde que deixei o regime escravo tenho me inteirado muito lentamente das notícias - que São Paulo ganhou o Estilingão. Uma ponte horrorosa - ética e esteticamente feia - que custou milhões e pela qual não se prevê a passagem de pedestres, ônibus ou bicicletas e nem nada que resolva de fato o problema do trânsito: o excesso de carros.
(Além da questão da exploração imobiliária que, dizem, houve na região)
O espaço nas ruas é limitado e a capacidade de produzir e vender veículos, bem como a velocidade em que esses veículos viram e criam lixo, parece ser ilimitada. Agora são vendidos em 99 parcelas (isso ainda vai ser nosso subprime rastaqüera). Fico imaginando uma situação - fictícia, espero - em que as casas ficarão sob a sombra de infinitas avenidas aéreas, diversos estilingões feitos para que carros transitem com alguma liberdade.
As soluções não são mais ruas ou fazê-las mais largas. E sim aproveitar melhor as que existem. Os governos precisam parar de pensar nas máquinas e passar a pensar nas pessoas. E as pessoas precisam parar de pensar em si próprias e pensar em todos, nos outros.
Todos, todo o mundo, todas as pessoas, os outros: conceitos um tanto abstratos. Dizem, os cérebros humanos são capazes de processar conceitos abstratos. Mas por trás de um volante isso parece ficar mais difícil.
* Sobre a grafia da palavra brocha ou broxa