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Agá Dois Eca

Impressionante a capacidade da indústria, particularmente da indústria de bebidas, de perceber e se adequar às necessidades do consumidor de uma maneira negativa.

Ao menor sinal de uma certa e amorfa culpa coletiva pelo consumo de refrigerantes, bebidas gasosas e cheias de açúcar, essas empresas não demoraram a lançar produtos que imitam a água e que, no entanto, mantém a mesma característica de doçura, gás e sabor dos refrigerantes.

Estamos em uma época regida pela saúde e pela boa forma. Pelo menos pelo desejo de tê-las. As equipes de marketing e publicidade sabem disso. Eles não vendem água: vendem desejos.

Então, como por encanto, o consumidor médio - esse super-protegido personagem nascido em meados do século passado - esquece a culpa por estar consumindo um refrigerante e se vê, nos olhos de sua imaginação de consumidor médio, a beber uma água puríssima levemente saborizada - quem inventou essa palavra ridícula? - e gaseificada.

Acontece que o consumidor médio prefere se deixar levar.

Porém, basta ler o rótulo de qualquer uma dessas bebidas para entender que se trata de um composto que, se jogado em um desafeto, seria suficiente para uma acusação de guerra química pelos tribunais internacionais de Genebra.

Certa vez eu pedi numa pizzaria - essa pizzaria famosa que todo mundo conhece - uma água com gás. Eu imaginava exatamente isso, uma água com gás, do tipo que há nos rios ou que - sendo mineral - sai da terra.

A garçonete trouxe-me uma dessas bebidas que, por ter no rótulo algo que lembra a fórmula química da água (seguida por uma interjeiçãozinha safada), deveria ser água. No entanto, lembra mais uma soda limonada frustrada. Eu, como consumidor médio que sou, acabei tomando a beberagem ainda que um pouco contrariado.

O que não impediu de, em seguida, pensar no absurdo da situação e de me recusar a beber qualquer refrigerante que não contenha os devidos - e provavelmente prejudiciais - corantes artificiais.

Se é para beber refrigerantes, que eles sejam os sinceros. E não os dissimulados.

Zodíaco Buarquiano

Depois de diversos estudos músico-astronômicos-astrológicos consegui separar doze tipos diferentes de personalidades femininas de acordo com algumas das principais mulheres presentes nas composições de Chico Buarque de Hollanda.

Rita
A nativa do signo de Rita tem uma forte espiritualidade. Religiosa, vai se agarrar na primeira imagem de santo que vir e levar com ela para onde for, mesmo um reles São Francisco, de Assis ou Xavier. Esse desapego a aspectos materiais, no entanto, irá jogar essa mulher na direção de homens que não têm um tostão e, possivelmente, isso será motivo de conflitos no relacionamento. No fim, conseguirá levar pouco mais que trapos, pratos, retratos e outras lembranças sem valor monetário, como um violão.

Dica: se for se relacionar com uma mulher com essa ascendência guarde bem os instrumentos de corda e os discos de Noel Rosa.

Bárbara
A mulher nascida sob o signo de Bárbara é a típica perdida no mundo. Sempre faz perguntas relativas a sua localização. Do nada, vai abordar você na rua e perguntar coisas como: “Onde estou? Onde estás?.” Exista uma placa com o nome da rua sobre sua cabeça ou não. Essa característica fará também com que chegue sempre atrasada aos compromissos. Ainda assim fará questão de afirmar: “Nunca é tarde. Nunca é demais.” Como característica mais notável tem o estranho hábito de se despir quando se desespera e andar por aí, meio insana, sabendo que no final da noite acabará nos braços de alguém. Se ela surtar, mande calar a boca. Pode funcionar.

Dica: Se for se relacionar com uma mulher do signo de Bárbara e for homem, tenha conhecimento que ela tem predileção por outras mulheres e que suas chances são praticamente nulas com ela.

Ana de Amsterdam
Esta é a aventureira. Capaz de cruzar um oceano só para se casar, é o tipo que seduz de todas as formas um sujeito, deixando-o completamente louco, e acaba por beijar um outro. Cuidado com ela. Porém, ela é fácil de ser reconhecida. Moça muito falada, não é exatamente a nora que sua mãe sonhou para você. Seus relacionamentos são fugazes, durando não mais que vinte minutos. ÿ encontrada sobretudo em diques e docas.

Dica: Ela não é o tipo de mulher que demonstra muitos sentimentos. Capaz de ranger os dentes para esconder, não derramará uma lágrima sequer e não vai molhar o travesseiro por sua causa.

Carolina
Fleumática. Melancólica. Deprimida. Você pode colocar o circo Orlando Orfey na frente dela e os Aqualoucos, tudo ao mesmo tempo, que ela não vai nem notar, perdida na própria tristeza. Ela é muito apegada aos amores que já foram e não vão mais voltar e, por mais que os outros digam que tantas lágrimas não vão mudar nada, vai ficar na mesma. As rosas nascem e morrem, as festas começam e acabam, os barcos chegam e partem. Só ela continua na mesma. Prozac nela.

Dica: mulheres sob o signo de Carolina vão ficar felizes, não muito, com sugestões sobre como melhorar as olheiras e os olhos fundos. Há varias receitas desse tipo na internet. Ao invés de mostrar estrelas cadentes, informe-lhe a esse respeito e ela lhe será grata para o resto da vida.

Iracema
ÿ a das viagens longas e a dos países estrangeiros. Não é do tipo que recusa trabalhos menores, como lavar chão, para realizar os seus sonhos. Capaz de enfrentar dificuldades como não dominar o idioma de seu novo lar, arranja soluções como namoros com mímicos. Mestra da dissimulação, sobretudo na capacidade de enganar a polícia de imigração, não tem muita noção do que é inconveniência e, eventualmente, poderá ligar para sua casa a cobrar de um país muito distante e em horários pouco usuais.

Dica: só se relacione com mulheres de Iracema caso esteja disposto a partir do Brasil em condições precárias. Para conquistá-la a presenteie com um disco de canto lírico ou com um passaporte americano. Pode ser falso. Fará toda diferença.

Geni
De alma boa e altruísta, dá sem olhar a quem. Dá mesmo e com gosto. Não diferencia entre feios, sujos, velhos, doentes, homens, mulheres e crianças e gente de letra feia. Embora tenha esse temperamento generoso, há uma tendência nas pessoas de quem ela se cerca de não reconhecerem a sua bondade. Algumas, irritadas com tamanho desprendimento podem adquirir o hábito de cuspir e de jogar coisas nela, achando que ela nasceu pra isso mesmo. De fato, muitas verão nisso um excelente passatempo. De uma certa ingenuidade caprichosa, isso fará com que muitos se aproveitem de sua índole um tanto passiva. Por outro lado, pode se tornar teimosa. Quando resolve empacar, não há nada que a faça desistir de suas decisões, mesmo que disso dependa o destino de uma cidade inteira.

Dica: Mulheres do signo de Geni não gostam de homens de uniforme, sobretudo os de mais alta patente. Se você for do exército, da marinha ou da aeronáutica, sobretudo da aeronáutica, nem tente.

Joana Francesa
Culta. Normalmente, bilíngüe. Desperta muito cedo e tem o hábito de acordar seus parceiros insistentemente para dedicarem-se aos doces jogos eróticos ainda de madrugada. Gosta de rir e ouvir falar de amor. Porém facilmente, transforma gemidos de prazer, em um surto, em gemidos de pavor. Um bom ombro para chorar, não vai se importar se o seu homem tiver um lado menino, lânguido e preguiçoso.

Dica: ÿ bom fazer umas aulas de francês, pois quando está emocionada mistura este idioma e o português.

Cecília
Mulheres sob a influência de Cecília tendem a ouvir vozes. Embora às vezes seja chamada em silêncio, garantirá que ouviu seu nome ser pronunciado em algum momento. Seu espírtito diáfano e indefinível tende a atrair artistas em geral, como músicos, poetas e pintores. No entanto, não gosta disso. Bem que ela gostaria de homens que não tremessem os lábios diante de sua presença e a pegassem de jeito como acontece com aquelas sob o signo de Joana Francesa.

Dica: Não faça poemas, nem sinfonias, nem quadros. Ela tem dois quartos cheios com essas coisas. Tente algo prático como uma batedeira de bolos para conquistar seu coração.

Beatriz
ÿ a mulher que faz os homens se questionarem. ÿ passagem da mulher do signo de Beatriz, eles logo começam a velha história. Pontos de interrogação demarcam seus passos. Será que ela é moça? Como será seu apartamento? E o seu quarto? Será que é atriz ou o quê? Será que gosta de espinafre? Independentemente disso, fará os mesmos homens cheios de questões sonharem a ponto de não mais quererem andar com os pés no chão. Todos querem entrar e se meter na sua vida de qualquer jeito, mas poucos conseguirão.

Dica: Há uma crença infundada de que ela sabe ler mãos. Alguns vão insistir em que ela faça isso de qualquer jeito. Não insista pois, embora seja de circo, não é cigana e esse tipo de confusão pode vir a irritá-la.

Januária
Ah, a atitude contemplativa das mulheres do signo de Januária. Sempre nas janelas do mundo, veio para ver e ser vista. Mas não se iluda. Ela não vai sair dessa posição. Passam dias e passam noites e ela sempre estará por ali, nas janelas. Talvez até chegue a dar um tchauzinho faceiro ou um sorrisinho maroto, porém nada vai dissuadi-la de sua atitude de olhar, olhar e olhar. O normal mesmo é que mesmo que você faça uma batucada sob sua varanda ela nem olhe.

Dica: o melhor presente para essa mulher é vidrex, para manter a vidraça sempre limpinha.

Rosa
A mulher influenciada por esta figura do zodíaco tende a arrasar com o projeto de vida de qualquer um. Hiperativa, tem uma tendência a sofrer de distúrbios de atenção: a comida desaparece da geladeira, leva roupas pra lavar e esquece no tintureiro. Plantonista, tem horários pouco adequados e, mesmo assim, não dispensa desfilar na escola de samba preferida, que não lembra bem qual é. De repente, cansa do samba e resolve se dedicar ao tango. Pode parecer desonesta, mas o mesmo dinheiro que tira da carteira de seu homem é usado para pagar a despesa dos dois.

Dica: Se ela disser que foi a São Paulo visitar os parentes, finja que não viu que ela voltou toda descascada, como se tivesse ido à praia. Tolerar essas atitudes pouco honestas vai valer a pena depois, na cama.

Teresinha
A mulher do signo de Teresinha é a mais vivida. Vai querer experimentar de tudo antes de finalmente se decidir. Sóbria e com os pés no chão, não se deixa convencer com presentes caros ou com os vapores do álcool. Cozinhe bem ou mal, não gosta que inspecionem sua comida antes de servir. Assusta-se com facilidade e tem uma inclinação natural para dizer não. O pretendente deve se aproximar devagar como quem não quer nada, mas querendo tudo, e assim pegar ela de jeito, como fez à Joana Francesa. Sim, provavelmente é o mesmo sujeito.

Dica: ela não gosta de apelidos carinhosos nem de alcunhas mais ousadas. Prefere ser chamada exatamente por aquilo que ela é.

O amor - o verdadeiro amor - pela cidade

O amor por uma cidade - aquela em que se nasceu ou em que se criou -, o amor pela terra natal é algo muito mais complexo e simples e completo e terno e decepcionante que querem nos fazer crer os inventores dos amores oficiais.

A ponto de ser rejeitado onde os amores oficiais imperam e ser comum a resposta com o discurso do ódio a qualquer manifestação de decepção.

A decepção pode fazer parte de um amor, pois quem ama com ímpeto e dedicação é capaz de amar mesmo com elas, as decepções. Mas elas, as decepções, não são aceitas pelos amores oficiais.

Falo de uma cidade, mas poderia falar de um país.

Toco nesse assunto porque recentemente, lendo o livro Desperta e Lê, de Fernando Savater, lembrei de longas e saudosas conversas que tinha com meu amigo Paulo e algumas delas tratavam do tema Curitiba.

Falo de Curitiba, mas poderia falar de qualquer outra cidade.

Acontece que aqui existe uma tendência aos extremos no que se refere a ela, a cidade.

Os que a idolatram, com o amor oficial que a tudo cega, tendem a rechaçar os que a odeiam.

Os que a odeiam com o ódio oficial, que também a tudo obscurece, tendem a desdenhar aqueles que a idolatram.

Os que a amam ficam no meio e, quando apontam uma decepção ou então apontam algo mimoso, são rechaçados pelos primeiros e desdenhados pelos segundos respectivamente. Fogo cruzado.

Isso é desnecessário. Os extremos são coisas inventadas. Os extremos costumam ser úteis só às lanças, essas armas fora de moda. Na vida das pessoas, são o que pode ser chamado de mentiras.

Mas volto ao trecho de Savater que me despertou para essas conversas já um tanto antigas e, no entanto, claras na memória.

Ele fala de um quadro de Vermeer. Nele, o pintor holandês retrata a cidade em que nasceu, Delft.

Seria ridiculamente pretensioso de minha parte (…) oferecer uma nova chave conjectural da tranqüila maravilha que nos fascina nessa tela. Certas coisas é preciso ver. E basta vê-las. Apesar de que, se algum amável impertinente me perguntar, sussurrarei que Vermeer soube pintar a terra natal. Não simplesmente sua terra natal, mas a emoção da terra natal em si mesma, a dele, a minha, a de todos. O cenário da infância, o rincão insubstituível em que a vida se manifestou para nós. Algo simples, terrível como a fatalidade, feito de gozo, de rotina e de lágrimas.

E, pouco mais adiante, está onde quero chegar: a apreensão relativa ao comportamento que se testemunha nos amores e ódios oficiais, que tentei expressar em palavras, e creio que o meu amigo também em um ou dois artigos. Mas Savater só precisou da observação atenta a um quadro e de alguns parágrafos.

A habilidade do artista não se contenta em reproduzir uma paisagem, mas o suave carinho que sua contemplação desperta em nós (…). E essa emoção nada tem a ver com as contendas políticas nem com o orgulho pratiótico. O ruim do nacionalismo - uma das coisas ruins, porque ele tem muitas - é que ele transforma a melancólica afeição pela terra natal em justificação de um projeto institucional que não sabe se justificar de outro modo. Quer degradar uma forma de amor a documento nacional de identidade.

Não digo que a coisa chegue a tal ponto por aqui ou em outras cidades. Savater porém continua.

Pior ainda: a visão nacionalista não aceita a terra natal tal como ela é, em sua limitação e sua impureza reais, mas exige seu referendo a partir de um ideal passado ou futuro que extirpe dela o que não se ajusta ao plano preconcebido. O nacionalista não vê nem ama o que há, mas calcula o que sobra ou o que falta ao que de fato existe.

Creio que minha apreensão - que antes eu tinha e que hoje, confesso, nem me preocupa mais -, derivava de imaginar que minha cidade pudesse sequer se tornar terreno fértil para qualquer projeto do gênero. Exagero meu, meu caro.

Posso amar andar no calçadão da Rua 15 de Novembro e ao mesmo tempo falar mal daquilo que foi permitido que o comércio dali se tornasse sem que, para isso, precise abandonar a cidade.

Posso passar em frente do Savoy, onde meu pai me levava para tomar sorvete de chocolate naqueles que são os momentos mais mágicos da minha infância, e suspirar um pouco chateado. Pois as pessoas ali em torno talvez jamais compreendam isso. Mas sem desejar que, por tal motivo - tão individual - elas saiam dali.

Falo de amor, mas poderia falar de qualquer outro sentimento nobre.

O modo como você lê está mudando. Já mudou.

O astrônomo Carl Sagan destaca a importância dos livros de capa mole para o desenvolvimento do conhecimento no século XX, as brochuras - aqui no Brasil - ou os paperbacks - nos Estados Unidos.

Uma mudança tão simples - que barateou substancialmente o custo das publicações - teve participação fundamental em um período da história humana no planeta que, segundo o cientista, será lembrado pelo surgimento de:

  • meios sem precedentes de salvar, prolongar e intensificar a vida;
  • meios sem precedentes de destruir a vida, inclusive pondo a nossa civilização global pela primeira vez em perigo;
  • percepções sem precedentes da natureza de nós mesmos e do universo.

Estas observações estão todas em seu livro Bilhões e Bilhões, que pode ser encontrado - em capa mole - em qualquer boa livraria.

Note que edições mais baratas trouxeram para a vida de pessoas comuns como eu ou você a possibilidade de conviver com o pensamento das mentes mais brilhantes da história da humanidade.

Esse processo se dá desde o surgimento da imprensa, quando Gutenberg - e outros - possibilitaram a propagação mais veloz do que os monges beneditinos conseguiriam.

Claro que, naquele tempo, o livro ainda era um objeto um tanto inacessível. Aliás, pouca gente sabia ler. Embora hoje em dia no máximo 10% da população mundial realmente o saiba - sendo otimista -, o livro tornou-se um dos objetos mais populares de nossa época.

Observe que as mídias musicais já passaram por diversas transformações e as da escrita - salvo modificações de material e manufatura - não se alteraram.

Até hoje.

Li um artigo da Samantha Shiraishi, sobre literatura nos blogs, que me fez pensar sobre esse assunto.

De fato, com a popularidade dos blogs e demais leituras online, a forma como as pessoas que gostam de ter o contato com a palavra escrita vai passar certamente por uma nova transformação.

O primeiro passo para tentar detectar para onde isso vai nos levar é tentar não se apegar a bons ou maus valores. Não ver a mudança como absolutamente má ou absolutamente boa.

O professor Cristóvão Tezza, por exemplo, costuma dizer que a internet veio para salvar a palavra escrita. Até meados da década de 90, a cultura pop era ágrafa, sobretudo por conta da televisão, predominantemente visual e auditiva. E até o momento, é impossível se relacionar com o conteúdo da internet sem o uso da leitura e da escrita.

Mais e mais escritores - e nessa categoria incluo qualquer um que escreva algo de qualquer gênero buscando um público de dez ou dez mil leitores -, encontram a internet como forma popular e barata de manifestar suas idéias e ser ouvido de maneira efetiva. Por dez ou dez mil leitores.

ÿ natural que, aos poucos, o formato livro, sempre caro e inacessível a muitos desses escritores, seja deixado de lado. Não por não ter valor. Ao contrário: justamente por ter valor demais. O verdadeiro escritor não quer publicar um livro, ele quer ser ouvido. O livro é apenas o meio, escreva-se histórias de detetive, escreva-se sobre temas técnicos, como resistência dos materiais.

A verdade é que a mudança já está acontecendo. Eu me considero um leitor razoável. E sinceramente acho que minhas leituras online já chegam ao mesmo volume que as leituras chamadas tradicionais. Acredito que, com um meio de leitura mais agradável que a tela de um notebook, esse volume fique ainda mais representativo, principalmente com tanta literatura gratuita na rede.

Mas os pioneiros da literatura online serão aqueles que adaptarem a forma ao meio e também o meio à forma, tirando um o melhor proveito do outro. Por enquanto, os que melhor se aproximam de fazer isso são os blogs, não importando o gênero, com larga vantagem principalmente no que diz respeito ao contato com o leitor.

Eu não sei dizer como será a literatura do futuro, nem sei como serão os leitores e os escritores. Sei porém que, no passado, era aceitável que uma pessoa sentasse de oito a doze horas para ler um livro. Atualmente, com tantas opções de entretenimento, talvez cinco ou seis pessoas no mundo consigam fazer isso, incluindo aquele seu sobrinho que leu todos os Harry Potters em um dia.

Talvez isso me leve a dizer que a leitura será mais fragmentada e ao mesmo tempo textos de diversos autores se interligarão de acordo com a preferência do leitor, de acordo com a maneira com que ele busca seus interesses, busca aos outros e se busca no que lê. O mundo - formado pela leitura - será tanto melhor definido quanto mais se puder encaixar as arestas desse mosaico.

Se o livro de capa mole foi de papel fundamental para o século XX, trazendo o pensamento ainda vivo de gênios de nossa História para mim e para você, a leitura na internet - na tela do computador ou coisa melhor - pode ser a chance que temos de travar conhecimento com esses, de antes, e com aqueles que surgem agora de um modo totalmente único, novo e seu.

E você pode, ainda por cima, pode fazer parte desse momento e deixar alguns comentários para todos eles.

Não salve livros. Salve leitores.

O livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, apresenta uma sociedade do futuro em que os livros são proibidos. Os bombeiros não são mais os sujeitos que aparecem para apagar incêndios, mas os responsáveis pela incineração das edições clandestinas encontradas.

Mas foi o próprio Bradbury quem afirmou certa vez que, para se destruir uma cultura, era desnecessário queimar livros.

Basta fazer com que as pessoas deixem de lê-los.

Talvez o principal problema das campanhas de incentivo à leitura seja o excessivo foco no livro como objeto. Um objeto é apenas um objeto. ÿ frio e sem vida se está desligado do elemento humano.

Preocupa-se demais com a queima - ainda que simbólica - dos livros. E, para evitar a sua extinção, coloca-se livros a disposição das pessoas. O governo fornece volumes e volumes para escolas, para a alegria de algumas editoras.

Porém, se não houver leitores interessados nesses livros tão disponíveis - e que na internet aparecem aos milhares gratuitamente -, poderemos fazer fogueiras de São João com todas as primeiras edições de Grande Sertão: Veredas e ninguém vai se importar.

Dizer que o livro é uma viagem, que o livro torna você mais culto, mais preparado para a vida, que ele leva você para lugares nunca dantes navegados, aos confins da imaginação… nada disso adianta. Quando esse discurso chega ao homem adulto ele vai encontrar olhos já endurecidos.

Fernando Sabino dizia que o menino é o pai do homem. E se o menino aprendeu a associar a leitura a uma atividade enfadonha, a desconfortáveis carteiras escolares (aliás, senhores educadores, anualmente vocês acabam com a coluna de milhares de crianças), a provas sem sentido de interpretação da obra, não tenha muita esperança na formação de um bom leitor.

Novamente, como não se deve parar de repetir, antes da escola a responsabilidade é dos pais.

Ele, esse mau leitor, vai olhar para a tal campanha - que diz que o livro é uma viagem - e vai pensar que não é com ele, que com ele a mágica não funciona.

O bom leitor, porém, vai concordar.

Mas, ora, o bom leitor não precisa ser convencido. Aliás, o conceito de bom leitor é assunto para um outro artigo.

A verdade é que quanto mais cedo você procura salvar um leitor maiores são as chances de se obter sucesso. Quanto mais voltada para esse leitor for voltada essa ação - e menos para o objeto livro -, também.

O leitor é a estrela nesse processo. O livro - digamos que seja de um autor genial - por si só é brilhante, mas sem o leitor sua luz não se propaga.

Se você salva um livro, você salva um livro. Se você salva um leitor, salva centenas de livros.

No final do livro de Bradbury - se você não gosta de saber finais, pare de ler por aqui -, os rebeldes vão se esconder em uma comunidade. Nela, como não existem mais livros fisicamente, cada pessoa se responsabilizou por decorar por completo uma obra.

Elas se apresentam como “Dom Quixote”, “Mobydick”, “David Coperfield”, além de muitos outros: os nomes dos livros que escolheram guardar em sua memória. Certamente cada livro tem mais de um guardião para garantir que a informação não se perca no caso de alguém morrer.

Uma das cenas mais bonitas é a do pai, no leito de morte, a ensinar o filho as últimas frases do livro que ele guardara de memória e do qual agora o menino passaria a ser guardião.

Considero isso muito simbólico. O livro salvou-se, mas antes salvaram-se os leitores naquela comunidade onde certamente havia amor pela palavra - falada ou escrita - e pela liberdade. Idéias não podem ser queimadas.