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O prato do dia

?Como arroz e feijão,
é feita de grão em grão
Nossa felicidade
Como arroz e feijão
A perfeita combinação
Soma de duas metades?

O Teatro Mágico - Prato do dia

Volto a bater na tecla sobre a dependência social do homem. Sim, somos socialmente dependentes e isso não é um aspecto apenas cultural, mas também genético. Diz respeito não apenas ao nosso comportamento, mas a nossa sobrevivência.

Num de seus principais textos, ?Uma categoria do espírito humano: a noção de pessoa, a noção de ?eu??, Marcel Mauss, antropólogo francês, demonstra como a idéia de indivíduo é recente, moderna. Em sociedades ditas primitivas, a associação máxima de indivíduo era o papel determinado a ele desde o seu nascimento, para o bem daquela sociedade. Sua função era atribuída desde cedo. Num paralelo com os dias de hoje é como se escolhessem sua profissão desde criança e desde então você fosse treinado para exercer esse papel. Ou seja, as pessoas não existiam como formas únicas e ímpares do ser. A consciência era coletiva e a razão da existência de todos era o bem maior deste grupo.

A idéia de ?pessoa? surgiu entre os gregos, inicialmente associado com máscaras utilizadas nas encenações teatrais. Portanto, ?pessoa? era nada mais que a interpretação de um personagem. Vale lembrar que os atos desse personagem não eram de autoria do seu intérprete. (leia o texto sobre Máscaras, rótulos e essênciais, do Gustavo Gitti)

Somente na Roma Antiga a idéia de uma consciência individual tomou forma. Surgia então a noção jurídica de ?pessoa? que respondia por seus atos moralmente, principalmente pela influência do cristianismo que tomava força. Contudo, essa noção ainda não se aplicava aos escravos, estrangeiros e mulheres. Mas até a modernidade, a delimitação do que era cada indivíduo dependia de fatores sociais.

Apenas no século XVII e XVIII a crença na racionalidade científica e na liberdade de consciências individuais foi fortalecida.

EspetáculoPer-sonare significa ?soar através de?, ou seja, através do orifício da máscara. Afinal, é o que fazemos ainda hoje. Vestimos nossas máscaras e interpretamos esses personagens que ainda hoje, de certa forma, são impostos pela sociedade e pelas pessoas que convivem conosco. Impostos não de forma autoritária, pois não é feito a contragosto. Interpretamos esses papéis para não decepcionarnos as expectativas das pessoas, pois não vivemos nossas vidas apenas para nós mesmos. Vivemos para os outros.

No trabalho sou o personagem que sabe tudo de blogs, mídia social e inventa músicas bizarras. Em casa sou o filho carinhoso saindo da adolescência e tentando encontrar seu rumo. Em cada espaço social diferente que me encontro preciso de uma nova máscara.

Aqui acabo entrando um pouco na discussão que a Samantha já comentou antes sobre as pessoas que existem dentro de você. Essas pessoas dentro de você vivem cada uma com sua intensidade e é por isso que se torna tão doloroso quando fracassamos dentro de algum ambiente social. ÿ o momento que um desses personagens morre.

Explicando melhor; quando você é demitido do trabalho, o seu ?eu profissional? fracassa. Aquela máscara cai e aquele personagem morre. Quando você termina um namoro ou depeciona um amigo, outra pessoa morre. ÿs vezes pode doer tanto quanto dói perder um ente querido, afinal, o ente querido que você está perdendo é você mesmo!

Ouço algumas pessoas dizerem que são naturais, são sempre elas mesmas, não importa onde se encontram. Ora, mas ao vestir minha máscara não deixei de ser eu mesmo. São faces de uma mesma pessoa. E afinal o que é ?ser natural??

Enxergando por um ponto de vista diferente, na verdade não ?somos? nada. Talvez o verbo apropriado seja ?estar?.

Com o perdão do gerundismo, hoje você está sendo o profissional que trabalha na empresa X, amanhã você estará sendo o namorado da pessoa Y. E essa é a beleza da coisa. Sem essa base, sem a necessidade de SER nada, você pode absolutamente ESTAR na forma que quiser. Assim, não precisamos dedicar nossas vidas numa busca incansável do melhor personagem que podemos nos tornar, pois podemos modificá-lo a qualquer momento. E no momento que compreendermos que não há um personagem melhor ou pior que o outro, aí sim estaremos livres das algemas que uma determinada filosofia ou religião nos impõe. Poderemos ser todas as filosofias, todas as religiões, todas as crenças e pessoas, abraçá-las e determinarmos quem somos além de qualquer rótulo ou visão preconceituosa além do papel que nos foi empregado pela sociedade.

E será também nesse momento que perceberemos as infinitas possibilidades, o banquete cheio de sabores diferenciados que está na nossa frente. E o melhor, podemos comer de tudo aos poucos.

A idéia do indivíduo apesar de ser moderna, não quer dizer necessariamente que esteja errada. Particularmente me agrada muito mais do que uma visão generalista social. Me agrada tanto que me permite discordar do refrão da música citada no começo desse post.

Não somos apenas feijão ou apenas arroz. Somos todos pratos completos que podem tornar o banquete mais saboroso quando juntos. Contudo, se alguém tirar um dos pratos da mesa o almoço não acaba. O que estou querendo dizer é que ninguém é dependente de uma outra pessoa em particular. Sua cara metade não existe e você não é a metade de outro alguém. Somos todos pessoas inteiras, com suas qualidades e defeitos, mas ainda ímpares no que fazemos.

Mas como assim, afirmo que somos dependentes socialmente, e logo depois afirmo que somos independentes de uma ?cara metade?? ÿ difícil explicar.

De certa forma todos os indivíduos são únicos e insubstituíveis. Perder alguém amado deixa um vazio no peito que não será preenchido da mesma maneira por ninguém mais. Mas esse vazio pode ser preenchido de outra forma com outros sentimentos, outras qualidades e outras pessoas. Como já disse antes, ?temos que saber que o ser amado não é uma muleta que sustenta suas fracas pernas, mas sim alguém que pode tornar sua caminhada mais prazerosa.?

Contudo, isso não nos torna ainda livres de uma consciência coletiva. Podemos dizer que a consciência individual é primordial para a vivência, enquanto a consciência coletiva é primordial para a sobrevivência. O personagem que você criou é seu e ninguém a não ser você mesmo pode criar, modificar, alterar ou adicionar nada a ele. Mas ele ainda é um personagem criado para interpretar um papel numa peça maior, escrita pela tal sociedade.

E o personagem sempre muda. Seja por pequenos detalhes ou grandes distúrbios, ele muda. ÿ por isso que às vezes nos impressionamos com reações de pessoas que conhecemos há décadas: ?Não acredito que você fez isso, eu achei que te conhecia?. Ora, é claro que conhecia! Trate de conhecer de novo agora. Quão tedioso não seria se eu fosse sempre o mesmo? Como diz Gabriel O Pensador: ?Seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo?.

Também é por isso que sempre achei difícil acreditar no amor eterno. Acredito sim no poema de Vinícius de Moraes:

?Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.?

Soneto do amor eterno. Frase que tempos depois foi banalizada pela música ?Que dure para sempre?, em versão pagode.

Se a vida que por tantas vezes já foi comparada a uma peça de teatro for mesmo um grande e eterno ensaio, que façamos uma obra de arte a melhor peça já vista, com choros, risos e alegrias, um banquete de emoções.

Masdar ? Cidade ecológica

Energia solar

Masdar é uma ?cidade-conceito?, se assim podemos dizer, iniciativa da empresa de energia árabe Masdar Initiative e arquitetos britânicos da Foster and Partners. Masdar será construída aos arredores de Abu Dhabi e será, de fato, uma experiência que deve ser acompanhada de perto.

A proposta do projeto é criar uma cidade 100% ecológica, sem desperdícios. Ela será livre de emissão de carbono e 99% do seu lixo será reciclado ou transformado em compostos. Abrigará também a maior fonte de energia fotoelétrica do mundo.

Toda a energia de Masdar virá de fontes renováveis. Além disso, uma novidade é que a cidade não terá carros. E não haverá necessidade, já que nenhum pedestre ficará a mais de 200m do transporte público. As ruas da cidade terão apenas 3 metros de largura e 70 de comprimento para facilitar a passagem do ar e incentivar a caminhada.

A primeira vista, parece o começo dos conceitos de cidade-futuro tão defendidos por Jacques Fresco. Mas olhando de maneira mais crítica, o termo ?cidade-conceito? encaixa perfeitamente.

Masdar não será uma cidade de verdade. Assim como carros que voam que são criados para serem mostrados em grandes salões do automóvel, Masdar parece ser uma cidade criada para ser uma grande experiência.

A começar, a cidade terá 6km2. Deve ser menor que muito bairro em São Paulo. ÿ menos da metade do tamanho de São Caetano, cidade do Grande ABC que dizem que o síndico ter o mesmo poder do prefeito, de tão pequena que é. Para atravessar Masdar de um extremo a outro a pé, não leva mais do que 30 minutos. Será habitada por 50 mil pessoas.

Além disso, ficará perto de Dubai, que tem pretensões de ser a cidade mais visitada turisticamente do mundo. Coincidência?

Também a questão do carro deve ser avaliada. ÿ claro que numa cidade com 6km2 você pode se virar sem um automóvel, mas qualquer pessoa que saia de lá para outra cidade, irá motorizado.

O modelo de sustentabilidade de Masdar é ótimo para ser estudado e visto como referência, mas é óbvio que não pode ser aplicado a uma cidade grande. Masdar pode se denominar ?a primeira cidade sustentável?, ecologicamente, claro, porque ela ainda dependerá de outras tantas cidades economica e politicamente. Cidades as quais não possuem o mesmo modelo sustentável, nem de perto.

Leia a reportagem completa sobre Masdar
Site oficial do projeto

A favor da mulher feminina

O século XXI e o movimento feminista andaram distorcendo alguns conceitos básicos. A luta incansável do feminismo tinha como objetivo a eqüidade entre os sexos, ou seja, mesmos direitos, mesmos deveres.

Em outras palavras, as mulheres têm hoje o direito de serem quem quiserem, como quiserem. Podem escolher ser mãe solteira, ser gerente de banco, ser jogadora de futebol, casar e não casar. Algumas escolhas podem sofrer preconceito, não nego, mas são apoiadas pela lei. Afinal, mudar a cabeça das pessoas é um objetivo muito mais difícil do que mudar a lei.

As mulheres modernas escolheram ser fortes, controladas. As mulheres modernas sabem o que querem, não se deixam dominar. Elas precisaram se mostrar assim para lutar pelo que queriam alcançar: a independência.

Mas elas esqueceram de uma coisinha bem simples: o ser humano não é um bicho independente.

E construir esse preceito gerou outro problema: quando as mulheres esqueceram de ser apenas… mulheres. Esqueceram de ser femininas, sensíveis.

Ora, sensibilidade, feminilidade, isso não faz da mulher uma mulher mais frágil, nunca fez. Mulheres, não sintam vergonha de demonstrar carência, saudade, indecisão, medo. Podem chorar em filme romântico, podem cozinhar pro marido só por prazer, podem sair para fazer compras e voltar com um sorriso no rosto por ter gastado todo o dinheiro do namorado (desde que o namorado não seja eu).

Não se deixem enganar, não há problema em ser feminina. Não estou falando em ficar em casa cuidando dos filhos e sair na rua de chinelo havaina coçando o calcanhar esquerdo com o pé direito e fofocar sobre a vizinhança e o último capítulo da novela.

Estou falando de apoiar a cabeça no ombro de alguém e chorar se tiver vontade. Vocês não precisam provar mais nada para ninguém, seu espaço já está conquistado!

Mulheres, sejam femininas, nós agradecemos! Nós prometemos abrir o pote de picles quando vocês não conseguirem.

Um bicho social

O homem é um bicho sociável. E digo mais, o homem é um bicho totalmente dependente da sociedade. Não sou só eu que digo, isso já foi objeto de inúmeros estudos.

A necessidade de se relacionar não é uma questão apenas de sobrevivência, mas de vivência. Todas as nossas ações, desejos e conquistas são compartilhados com a comunidade. Corremos atrás, batalhamos para ter coisas que, aos olhos do próximo, sejam bem julgadas. Só então nossa satisfação está completa, quando percebemos que passamos a ser admirados e prestigiados por outra pessoa.

Não almejamos o cargo de diretor de multinacional para gozar dos privilégios e do bom salário apenas, mas principalmente porque sabemos que a partir desse momento as pessoas passarão a nos olhar de uma maneira diferente. A satisfação pessoal não está no simples fato de ter alcançado o objeto de desejo, mas também em exibir aos outros essa vitória.

Um artista toca para ser ouvido. Se não houvesse ninguém por ali, a solidão da melodia o faria parar. De que adiantaria se arrumar, tentar ficar bonito, se não houvesse ninguém para olhar?
E é por isso que o homem só passa a existir no momento em que ele participa da vida de outro.

ÿ isso o que imagino quando vejo filmes como “Eu sou a lenda”, que retrata Will Smith como sendo o último sobrevivente da Terra. O que importava, naquele momento em que ele se deparava sozinho, o cargo de coronel, o carro ou a casa?

Eu sou a lenda

Naquele momento, os prédios, o comércio, todas as grandes invenções que o homem um dia criou pareciam apenas uma tentativa frustrada de dar algum sentido à vida. Sua única companheira era uma cachorra e quem ainda lhe dava a idéia de que havia algum sentido em sua existência. Sua última chance de se relacionar.

Em um certo momento, Robert Neville (personagem vivido por Will Smith) começa a conversar com alguns manequins que posicionou dentro de uma locadora. Você pode dizer que esse é o momento em que ele perde a razão e começa a alucinar. Eu diria que esse é o momento que ele recupera a razão e volta a se relacionar, pois é a única maneira de continuar tendo uma vida.

E esse não é um papo espiritualista, tentando mostrar como os bens materiais não deveriam dar sentido à nossa vida. Naquele momento, não eram só os bens que não importavam, mas todas as crenças não faziam mais muito sentido. Se ele decidisse cometer uma heresia, por pior que fosse o pecado, não haveria ninguém para julgá-lo, apontar o dedo e mirar um olhar desaprovador. Nesse momento seu Deus estava morto. A noção de certo ou errado estava perdida. O único momento que Robert recupera sua fé, é o momento que descobre não estar sozinho no mundo, como imaginava, quando consegue por um momento tomar fôlego, mesmo demorando para se reacostumar a ter alguém por perto.

Durante todo o filme, o protagonista tenta encontrar a cura para o vírus que transformou toda a humanidade em zumbis. Mas em nenhum momento esse ato de extrema dedicação foi altruísta. Salvar a raça humana era salvar sua própria vida, era voltar a ter esperanças, sentimento e compartilhar experiência, porque suas experiências nunca são apenas suas.

Não há o que dizer, não há como fugir, o homem é um bicho sociável. Mesmo aquele que decidir negar isso e se isolar, no momento de sua negação, de certa forma estará interagindo com a sociedade. Todos os dias, ao acordar, ele precisará reafirmar sua negação, e ao fazer isso a sociedade continuará tendo partido na sua vida, pois se assim não fosse, não precisaria negar ou afirmar nada a ninguém. Nem a si mesmo.

ÿ por isso que saber se relacionar, saber dar e receber, é primordial para uma vida mais plena. Saber entender as pessoas e olhá-las, de maneira que naquele momento elas comecem a existir, dentro dos seus olhos e compartilhar emoções, porque ninguém vive sua vida plenamente sem viver a vida de outros simultaneamente.

Epifanias

Por vezes, quando estou no trem me dirigindo àquele lugar onde as pessoas fingem ser algo que não são (o trabalho, não o teatro), tiro da mochila um livro. Naquele momento, com a ajuda também de um MP3 Player no ouvido, me distancio e esqueço dos vendedores de amendoim e barras de chocolate. Foi o que fiz hoje, lendo Caio Fernando Abreu.

Suas “Pequenas Epifanias” me levaram para um mundo sensível paralelo ao dia-a-dia e à insanidade paulista. Caio F., como assina seus textos em homenagem a Christiane F., foi mais um grande escritor soropositivo, que morreu de amor. O amor intenso e desmedido daqueles que vivem caminhando a passos firmes, em busca de algo que nunca vão descobrir o que é.

Enquanto leio, tento compreender a necessidade e o culto à intensidade que a maioria de nós tem. Não basta amar, deve-se amar perdidamente, desmedidamente, de uma maneira ímpar e sem precedentes. Não basta fazer o bem, é preciso ser herói. Não basta ser feliz, é preciso alegria hollywoodiana. E buscamos esses extremos sem perceber que, ao alcançá-los, o outro lado da balança cai e o equilíbrio é quebrado. Dessa forma, um momento de nirvana muitas vezes é seguido de depressão, simplesmente porque não aprendemos a dosar os sentimentos.

ÿ assim que o amor, o sentimento mais puro e belo que conhecemos, passa a se tornar vício, droga. Afinal, todos sabem que a linha fina que separa o remédio do veneno, é o tamanho da dose.

Não consideramos o amor como uma possibilidade cotidiana. O amor verdadeiro e puro não acontece de uma hora para outra, de repente, como o simples fato de você perceber seu cadarço desamarrado, ou o telefone tocar por engano. Ele precisa ser cultivado e construído com o tempo, com a confiança e com a aproximação. Não é um pacote de batatas fritas que você entrega a qualquer um na esquina.

ÿ por isso que nos abalamos tão fortemente quando, sem preparo, depois de cultivar tanto um sentimento, o perdemos, seja para outra pessoa, para o acaso, ou para a morte. Mas temos que saber que o ser amado não é uma muleta que sustenta suas fracas pernas, mas sim alguém que pode tornar sua caminhada mais prazerosa.

Admiro a capacidade de cronistas como Caio de legendar sentimentos, de misturar duas palavras que nunca antes se encontraram para criar uma nova expressão. Mas depois de mergulhar nas suas epifanias, volto à superfície para tomar fôlego, inspirando um pouco de realidade.