O barroco brasileiro…

V
Mas em quanto Talia no se atreve,
No Mar do valor vosso, abrir entrada,
Aspirai com favor a Barca leve
De minha Musa inculta e mal limada.
Invocar vossa graça mais se deve
Que toda a dos antigos celebrada,
Porque ela me fará que participe
Doutro licor milhor que o de Aganipe.
>> Clique aqui para ler o poema Prosopopéia na integra.
O movimento Barroco em terras brasileiras seguiu o mesmo ritmo da maioria dos movimentos que conquistaram espaço no país - assim como o modernismo foi impulsionado pela economia cafeeira - o Barroco foi impulsionado pela conveniente combinação entre enriquecimento brusco e os objetivos da Igreja que pretendia demarcar fortemente seu espaço na nova colônia. A produção açucareira e exploração de pedras preciosas foram grandes responsáveis pelo desenvolvimento do movimento em cidades como Salvador, Recife e em Minas Gerais.
Considerado por muitos como a primeira escola artística do Brasil - o barroco brasileiro sofreu forte influência do Barroco português, mas aos poucos passou a apresentar suas próprias características - a diferença existente entre o país colonizador que ostentava uma realidade de luxo e pompa da aristocracia - e o país colônia que vivia uma realidade de violência - onde se perseguiam os índios e os obrigava a uma cultura totalmente diferente da sua é apontado como sendo a principal razão para existir um estilo próprio e marcante no segmento.
Mas se nas Artes Plásticas e na Arquitetura Barroca, o Brasil se destacava por exibir um estilo particular, revelando novos artistas - na literatura não seguiu o mesmo caminho. O primeiro passo nesse segmento aconteceu em 1601 com a publicação do poema Prosopopéia (trecho acima) de Bento Teixeira - o poema que 94 estrofes, onde se exalta de forma exacerbada a figura de Jorge de Albuquerque Coelho, segundo donatário da capitania de Pernambuco.
Bento Teixeira sofreu influência de Camões, basta verificar os inúmeros trechos de Os Lusíadas contidos no poema Prosopopéia - o que ajuda a estabelecer um vínculo bastante estreito entre a literatura brasileira e a portuguesa, nesse período. Contudo, o poema de Bento Teixeira tem mais valor como documento histórico que propriamente literário.
Talvez a afirmação acima se deva ao fato de que na literatura, o Brasil parece não ter encontrado uma identidade junto ao Barroco, pois, mesmo tendo nomes de destaques como Antonio Vieira e Gregório de Matos, fica evidente que eles apenas seguiram as tendências européias, chegando em dado momento a transcrever versos de outros poetas portugueses, adequando-os a realidade local. As diferenças existentes entre o país-colônia e a Europa colonizadora eram evidentes, enquanto o homem europeu estava “perdido” em um conflito que o levava de encontro a discussões a cerca da fé e da razão - o homem brasileiro era fortemente dominado pela fé que chegava até ele de forma incisiva, já que este estava sendo catequizado de acordo com os princípios cristãos.
Ofendi-vos, meu Deus, é bem verdade,
É verdade, Senhor, que hei delinqüido,
Delinqüido vos tenho e ofendido,
Ofendido vos tem minha maldade.Maldade que encaminha à vaidade,
Vaidade que todo me há vencido.
Vencido quero ver-me e arrependido,
Arrependido a tanta enormidade.Arrependido estou de coração,
De coração vos busco, dai-me os braços,
Abraços que me rendem vossa luz.Luz que claro me mostra a salvação,
A salvação pertendo em tais abraços,
Misericórdia, amor, Jesus, Jesus.Gregório de Matos
Por isso mesmo, ao fazer algum tipo de referência ao período, devemos classificá-lo como Barroco Luso-Brasileiro mas em momento algum podemos nos recusar a crer na importância que esse movimento teve para o Brasil, afinal, foi através deste estilo que o país conseguiu encontrar um caminho no sentido de construir uma identidade artística para o país.
“Que falta nesta cidade? Verdade.
Que mais por sua desonra? Honra.
Falta mais que se lhe ponha? Vergonha.
O demo a viver se exponha
Por mais que a fama a exalta
Numa cidade onde falta
Verdade, honra e vergonha.
Assim Gregório de Matos abre um poema criticando a Bahia de seu tempo. Será que há algo de atual nos versos escritos por Gregório em pleno século XVIII - ou será que a alusão que fazemos ao Barroco é mera ilusão daqueles que estudam a literatura?





















