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Sirigüelas

vp_sirigs.jpgSe existe um ponto chave de minha vida que me remete à infância são as sirigüelas. São essas frutas, mais que qualquer jogo de bola, mais que qualquer brinquedo, mais que os passarinhos que os meninos da roça matavam a baladeira (*) para lhes comer vivos os corações, mais que qualquer outra coisa, que ligam minha alma à alma da criança que um dia fui. ÿ que no antigo sítio do meu avô, que levava o nome de outra fruta - Muçambê, no distrito cearense de Maracanaú, havia dois grandes pés de sirigüela e eles eram o quartel general das brincadeiras das crianças, eu, meu irmão e meus primos mais velhos. Para quem nunca viu, uma sirigüela é uma fruta do tamanho aproximado de uma azeitona daquelas chilenas, grandes. Tem uma casca fina e amarga e uma polpa suculenta, entre doce e azedinha. Ela nasce em cachos em uma árvore típida da caatinga: retorcida e espalhada e desse modo, assim como os cajueiros, perfeita para subir. No pé que ficava na varanda da frente da casa do sítio, as crianças passavam as manhãs inteiras, comendo as frutas e brincando e assim foi por anos e anos, até o dia em que o sítio foi vendido e eu nunca mais soube o que era o gosto das sirigüelas. Pelo menos daquelas.

O fato é que, apesar disso, eu perseguia esse gosto antigo de infância desde então. Ora, mas essa fruta é tão rara assim que não se ache para comprar? Bem, sim e não. Acontece que uma das coisas interessantes sobre as sirigüelas é que elas são amadurecem de uma forma estranha. Verdes e duras no início, tornam-se amarelas e depois alaranjadas e macias, até chegarem a um ponto em que estão vermelhas como pitangas. Essa é a melhor hora para comê-las. Contudo, quando a sirigüela chega nesse ponto, ela está quase passada e não é possível comercializá-las nesse estado, não durariam um dia sequer: a polpa se liquefaz e a fruta estraga. Por isso, só se encontram sirigüelas alaranjadas para vender. E nessa cor, a gente sequer encostava nelas no sítio. Estavam praticamente verdes. Por isso, toda sirigüela que eu comi desde então, fora do Muçambê, foi decepcionante.

E eu bem que tentei, bem que procurei. Comprei pelas praias e em supermercados, tomei suco de polpa, sorvete em locais exóticos… nada chegava perto. E eu sempre achei que a questão era achar um pé de sirigüela que me permitisse voltar a saborear uma das frutas maduras e vermelhas da infância. Mas por três vezes eu encontrei outras árvores e nas três vezes a experiência também foi decepcionante. Uma vez, em pleno sertão do Cariri, havia um pé no quintal da casa onde me hospedei. Homem feito, subi sorrateiramente na árvore para saborear as frutinhas. Faltava alguma coisa que eu não sabia o que era. No dia seguinte, tendo contado o que fizera, achei um balde cheio na mesa do café, que segundo a dona da casa, poupar-me-ia o trabalho de colhê-las. Horrorizado, agradeci mas mal consegui tocá-las. Anos depois, em uma festa num sítio próximo a Fortaleza, encontrei outro pé de sirigüela. Por infelicidade, havia poucas na árvore e nem deu para tirar um gosto, apenas uma foto. E no início deste ano, uma surpresa: encontrei um pé feito uma trepadeira numa casa de subúrbio, aqui mesmo no Rio de Janeiro, quando fui buscar os salgadinhos para a festa de aniversário de minha filha mais velha. Levei algumas para casa e até tentei plantá-las. Em vão. Não havia nenhuma rubra e madura.

Só quase no final do ano é que eu fui descobrir porque era tão difícil relembrar a infância no gosto das sirigüelas. Tudo bem, é certo que o gosto doce das frutas maduras não é a mesma coisa do sabor cheio de cica das alaranjadas. E não era só o fato de que elas não eram as sujas e sujeitas às intempéries da natureza, nos cachos da árvore - ao contrário, eram as higienizadas nos pacotinhos de isopor e filtro plástico do supermercado. ÿ que definitivamente faltava algo, algo que eu só percebi o que era quando vi minha filha comendo sirigüelas pela primeira vez na minha frente. Ela nunca tinha visto as frutinhas e adorou. E quando eu vi minha filha comendo de se acabar, babando e pingando sirigüela pelos dedos, eu percebi o que faltava: a companhia. De tanto buscar minhas lembranças nos sentidos egoístas do paladar, tato e olfato, esqueci que durante os poucos e fantásticos anos de fins de semana vividos no sítio, comer sirigüelas encarapitados na árvore nunca tinha sido uma atividade solitária. Era sempre coletiva, sempre com irmão e primos, sempre entre companheiros, entre amigos. Está aí, ao que parece, o que afasta tanto as lembranças infantis dos adultos: a idéia de que essas lembranças, principalmente as felizes, podem ser revividas em pensamentos e atos solitários.

(*) Bodoque

Churrasco rodízio light FM

Ah, festas, festas. Tempo de confraternizar com a família e os amigos, tempo de curtir ceias de natal e reveillón e para não perder o costume, tempo de levar a parentada toda para almoçar naquela churrascaria supimpa, de onde se sai com pelo menos metade dos neurônios intoxicados pela perniciosa mistura de álcool e fuligem. Mas o brasileiro adora! E churrascaria rodízio é assim: você está lá sentado, apreciando uma picanha, enquanto passam pela sua mesa, garçons solícitos a portar espetos de maminhas, costelas, chuletas, cupins e lombinhos. Daqui a pouco, eis que volta, suculenta e poderosa, a picanha. E você se serve de novo. E assim vai, num ciclo que só termina quando você está irremediavelmente satisfeito, ou seja, não agüenta nem pensar em carne. Sim, mas o que tem isso que ver com rádio?

Explico. Na grade de rádios do dial carioca, existem apenas sete rádios relevantes, já que a grande maioria ou são rádios religiosas, ou de axé-pagode-funk. Das sete rádios relevantes, duas são all-news, ou seja, não tocam música. Das cinco restantes, uma toca música brasileira o dia inteiro (a MPB) e outra toca rock para jovens (a Oi). Sobram-nos três rádios, as chamadas adultas: JB, Paradiso e Antena 1. E é dessas rádios que eu quero falar, pois nestas é que ocorre com mais freqüência, a aparição das chamadas músicas carne-de-vaca. E está aí a relação com a churrascaria.

Sim, sabemos que as rádios ? todas elas ? quando recebem as músicas de trabalho já devidamente enjabazadas, passam a reproduzi-las o tempo inteiro, ad nauseam, até que aconteça a “memeficação” das mesmas, ou seja, o fenômeno pelo qual os ouvintes, gostando ou não da música, passam a cantá-la mentalmente mesmo contra a vontade. Mas isso são músicas novas, nas quais há um investimento presente para mantê-las no ar e na memória. Mas e aquelas músicas que, por décadas a fio, permanecem inexplicavelmente firmes nas programações, como se tivessem um direito divino de estar ali? Essas sim, são as carne-de-vaca songs. Ah, vocês não estão ligando o nome à pessoa?

Pensem por exemplo, num cantor de bar. Ele pode ter o estilo que for, mas um dia, muitas vezes por constrangimento próprio ou coação do público ele acabará tocando “Andança” (Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi), “Espanhola” (Guarabyra e Flávio Venturini) ou “Flor de Liz” (Djavan). Não há como escapar. Essas são carnes-de-vaca de barzinho, junto com “Tempo Perdido” (Legião) e “Como Nossos Pais” (Belchior). Na rádio, são outras músicas. Depois de anos de árdua pesquisa, eu finalmente trago a vocês a lista das trinta maiores carnes-de-vaca, nacionais e internacionais, das rádios adultas, em uma ordem mais ou menos escalafobética.

Samurai (Djavan)
Como eu Quero (Kid Abelha)
Me Chama (Lobão)
Como Uma Onda (Lulu Santos - Nélson Motta)
Todo Azul do Mar (Flávio Venturini - Ronaldo Bastos)
Amor da índio (Beto Guedes - Ronaldo Bastos)
Coração de Estudante (Milton Nascimento - Fernando Brant)
Papel Marché (João Bosco - Capinam)
Gostava Tanto de Você (Edson Trindade)
Fato Consumado Djavan
Codinome Beija-Flor (Cazuza)
Quase Sem Querer (Legião Urbana)
Get Back (Titãs)
Sozinho (Peninha)
Lua e Estrela (Vinícius Cantuária)
Smooth Operator (Sade)
Your Song (Elton John)
Sweet Child O`Mine (Guns n`Roses)
We Are The Champions (Queen)
Sultans of Swing (Dire Straits)
Every Breathe you Take (Police)
I Don`t Wanna Lose Your Love Tonight (The Outfield)
Borderline (Madonna)
Isn`t She Lovely (Stevie Wonder)
Careless Whisper (George Michael)
Satisfaction (Rolling Stones)
Light my Fire (The Doors)
I Will Always Love You (Whitney Houston)
That`s All (Genesis)
You Are Not Alone (Michael Jackson)

Agora me digam: é possível ligar uma rádio adulta e acreditar que, durante um dia inteiro, nenhuma dessas músicas vai tocar? ÿ tão fácil quanto ir a uma churrascaria e não ter picanha.

E os leitores? alguém aí lembra de outras dessas inefáveis canções?

(publicado originalmente em 1° de dezembro de 2005)

Dicas do VP
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vp_looloo.jpgÿltimo Romântico (Lulu Santos, 1987) - Ah, mas então quer dizer que você gosta de música carne-de-vaca? Ora, e quem não gosta? essas músicas estão há décadas na programação justamente porque as pessoas gostam delas. E que tal duas dicas de CDs cheinhos de hits radiofônicos perenes? Um deles é a coletânea ÿltimo Romântico, de Lulu Santos, que apresenta o que de melhor o cantor, compositor e guitarrista carioca produziu durante os primeiros anos do Rock Brasil. Tachado de brega no início dos anos 80, mal sabia Lulu que suas músicas desse tempo sobreviveriam à maioria das canções de seus detratores. E a bem da verdade, neste álbum, encontram-se verdadeiras obras primas do pop nacional, como a faixa-título, “Tempos Modernos”, “De Repente Califórnia”, “Certas Coisas”, “Como Uma Onda” e “Um Certo Alguém”. Foi, de longe, a melhor fase da carreira de Lulu e sem dúvida, trilha sonora inconteste da juventude e adolescência daqueles anos.

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Série Good Times (diversos) - A 98 FM é uma rádio popular do Rio de Janeiro que normalmente toca samba (leia-se pagodão), micareta-music e o fino do que de mais vulgar existe na programação. Mas um de seus programas diários, o Good Times, onde são irradiadas as melhores músicas românticas de todos os tempos, foi a trilha sonora de muito casalzinho da cidade. A série de coletâneas com as melhores músicas do programa é daqueles CDs para o qual os finos e limpinhos costumam torcer o nariz nas gôndolas, mas que fazem verter lágrimas e aflorar as lembranças mais amorosas dos que os escutam. Porque ninguém escapa de ter alguma história em festinhas de adolescência, da hora da música lenta, daquela época mais civilizada onde o tempo parava por alguns minutos para que as pessoas pudessem ficar coladinhas aos seus pares. E a trilha sonora, irmãos, está toda nesses CDs, que se encontram por miseráveis R$ 9,99 nas melhores lojas de departamento.

Pão, vinho e plástico

vp_presepio.jpgFaz muitos anos que os meus natais são parecidos uns com os outros. Basicamente, tudo gira em torno do encontro familiar, da ceia, da troca de presentes. Antigamente, quando eu morava em Fortaleza, eu gostava que chegasse dezembro para ver as casas enfeitarem de luzes as árvores de seus jardins. Os jardins diminuiram, a energia elétrica ficou mais cara e o natal passou a começar em setembro, nos últimos anos.

As minhas comemorações de natal nunca mudaram muito de forma, apesar de terem mudado bastante de lugar. Quando criança, eram na casa de meus avós, entre os primos e tios e os especiais de Roberto Carlos. Quando casei pela primeira vez, já no Rio de Janeiro, abandonei meus pais para passar a comemorar o natal com meus sogros, cunhados e sobrinhos. Comida, presentes e nada de Roberto Carlos. Um cunhado se vestia de Papai Noel e vinha de manhã entregar os presentes das crianças. E todas elas sabiam que ele era o tio. Casado pela segunda vez, meus natais passaram a ser cumpridos em viagens, algumas constrangedoras. Numa delas, meu filho teve de levantar dezenas de vezes para receber presentes dados pelo Papai Noel do hotel, enquanto as outras crianças tinham que se contentar com um ou dois presentes. De outra vez, meu filho teve medo do bom velhinho - um animador musculoso paramentado de vermelho e pelúcias. Confesso que me diverti naquele ano, vendo que o personagem principal de nossa comemoração - meu filho - não se agradou muito daquela pantomima, assim como eu, tampouco. Este ano, por conta de minha mudança de casa, verá um natal simples no solar onde ainda resido.

O fato é que eu tenho sentimentos divididos pelo natal. Se por um lado a época é agradável, de fim de ano, de supostas reflexões, por outro eu vejo que a cada ano o natal perde os últimos fiapos de religiosidade que ainda possui. Na mesma proporção em que as árvores monumentais patrocinadas por banco batem recordes de altura e as vitrines brilham como jamais brilharam, a lembrança de que o natal é (ainda que baseada numa celebração pagã, whatever) uma festa da cristã e religiosa se desvanece. Muito por culpa dos cristãos como eu, é verdade. Católicos não tem a tradição de festas familiares. Todas acabam parecendo meio ridículas, do tipo “pô, que mané oração, eu quero é comer esse peru de uma vez, cacete”. Nessas horas, confesso, eu sinto uma indisfarçável inveja dos judeus.

Um natal, contudo, um único nesses 37 anos, marcou minha vida. E é interessante que eu jamais tenha falado dele durante os cinco anos que eu escrevo na rede. Não que eu o tivesse esquecido. Talvez o stress do dia a dia, a rotina sufocante e o que é pior, a distância insolucionável de quase todos os personagens desse dia, tenham deixado este momento guardado em uma gaveta empoeirada. Recordei-me dele dia desses em uma conversa com um companheiro de infortúnios e ele disse: “isso dá um bom texto”. Agradeço a ele por ter me dado a óbvia idéia.

ÿramos cinco amigos, três caras e duas meninas, na faixa dos 20 e pouquinhos. Pertencíamos a um enorme grupo de encontro de jovens com Cristo da zona sul do Rio. Além desse grupo, fazíamos parte de um grupo menor, de umas 12 pessoas, que se reunia uma vez por semana com uma teóloga para estudar a Bíblia. Dentro desse grupo menor, ainda havia a nossa panelinha, os cinco cavaleiros do apocalipse, sendo a “indecisão” o membro excrescente e mais não me perguntem, pois tudo o que posso dizer é que ele era um imprudente evangélico num grupo de católicos remidos. Mas era nosso amigo. O ano de 1990 havia sido muito produtivo na vida de todos e estávamos todos muito felizes. Dias antes do natal, fizemos uma pequena celebração no grupo de estudos e aquilo parecia ter feito as vezes de nossa festa natalina. Nossa panelinha, contudo, queria mais. Marcamos então de nos encontrar pouco antes da meia-noite do dia 24 para 25 de dezembro daquele ano na Praia Vermelha, bairro da Urca, Rio de Janeiro, depois, é óbvio, das celebrações familiares de cada um. E assim fizemos. Sentados na areia, montamos um presépio com algumas figuras de plástico barato e compartilhamos uma garrafa de vinho e um pão, enquanto fazíamos uma oração. Em toda a minha vida, foi o primeiro natal passado apenas na presença da sagrada família. Não havia ceia, não havia presentes, não havia lâmpadas e enfeites coloridos, especial de cantor, brindes, roupas de festa. Havia apenas uma cena de natal, pura e simples. E respeito e silêncio.

Meses depois, esse mesmo grupo viajaria para um retiro em silêncio, no carnaval de 1991, no gigantesco mosteiro onde funciona a CNBB, em Indaiatuba, interior de SP. De lá, voltamos absolutamente destroçados. Deus, percebemos, não era para fracos da classe média alta carioca. Três anos depois, parte do grupo, eu incluído, abandonou ruidosamente o encontro de jovens. Perdemos o contato com o membro indeciso. O resto casou-se, teve filhos, separou-se, mudou de cidade. Com uma das meninas, me encontro vez em quando, só para ela me dizer que eu não mudei nada. Nada mais longe da verdade. Os outros dois, sei deles por orkut ou email. Mas de um natal como o de dezembro de 1990, nunca mais soube, nunca mais vi, nunca mais ouvi falar.

Os 35 anos do Clube

Há trinta e cinco anos foi lançado um álbum que revolucionaria a música brasileira, quase como o que ocorreu com o lendário Sgt. Peppers, dos Beatles. Um disco que apresentou ao Brasil não só um jeito novo de fazer música, escrever e compor, mas uma ousadia até então inédita, tanto na forma - um disco duplo, o segundo lançado no país - quanto no conteúdo. Falo do primeiro Clube da Esquina, de 1972, que junto com o álbum Clube da Esquina 2, de 1978, acaba de ganhar uma edição comemorativa, novamente remasterizada, em um box com 3 CDs. Toda a obra de Milton Nascimento, incluindo os dois álbuns do Clube da Esquina, já haviam ganhado versões em CD, remasterizadas nos estúdios de Abbey Road. Agora, sob a batuta de Milton e do produtor João Marcello Bôscoli, os discos ganharam uma nova remasterização, com diminuição de ruído e ganho de volume, mas sem alterar o tamanho e a duração das faixas. Com vozes e instrumentos gravados separadamente em 24 canais, o Clube da Esquina 2 também possibilitou um bom trabalho de remixagem, o que não deu para fazer com o primeiro, gravado em inacreditáveis - para os padrões modernos - dois canais.

vp_clubesquina.jpgGravado por Milton Nascimento e Lô Borges, o disco revelou ao país não só músicas fabulosas como “San Vicente”,”O Trem Azul”, “Cais”, “Nada Será Como Antes”, “Paisagem da Janela”, “Cravo e Canela”, “Tudo Que Você Podia Ser” e “Um Girassol da Cor do Seu Cabelo”, entre outras tão boas quanto, mas um grupo de músicos já conhecido pelo próprio nome do disco, referência à casa eternamente cheia de gente e música, fincada na esquina das ruas sugestivamente chamadas de Divinópolis e Paraisópolis, onde habitavam os Borges, pai, mãe e onze (!!!) filhos cheios de talento. O grupo do clube, iniciado por Milton Nascimento, Wagner Tiso, Fernando Brant, Márcio Borges, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta e Paulo Braga, ganharia adeptos, seguidores e admiradores - como Beto Guedes, Nélson ÿngelo, os grupo O Terço e 14 Bis, Sá, Rodrix e Guarabyra e mais recentemente a banda Skank - durante as três décadas seguintes, destacando-se como um dos grupos mais prolíficos da história da MPB.

O que não quer dizer que tenha sido fácil. Na época da gravação do primeiro Clube da Esquina, a gravadora Odeon não queria trabalhar com artistas desconhecidos, como Lô e Beto Guedes. O formato de disco duplo demorou a ser aceito - a demora na decisão acabou fazendo que Clube da Esquina perdesse para Fa-Tal, de Gal Costa, a primazia de ter sido o primeiro álbum duplo brasileiro - e até a foto da capa recebeu reclamações, pela ousadia de não apresentar os nomes dos músicos na parte da frente. Após um tumultuado lançamento, a crítica também não foi nada favorável. Não importaram as incríveis harmonias do disco, nem as fantásticas letras. Os críticos diziam que aquilo não era samba e MPB, afinal, tinha que ser samba. Sem querer, Milton ainda provocou mais ainda a ira dos críticos, ao gravar com Alaíde Costa, uma versão nada ortodoxa do samba carnavalesco “Me Deixa em Paz”, de Monsueto e Ayrton Amorim, sem falar em outra estranheza: a gravação de uma música em espanhol, a triste tonada “Dos Cruces” (Carmelo Larrea Carricarte). Ao final do século, contudo, o primeiro Clube da Esquina já era praticamente uma unanimidade em qualquer lista dos dez mais importantes discos de música brasileira da história.

(Nota: ontem foi aniversário do meu filho mais novo, o Léo, cujo nome vem de uma música de Milton e Chico Buarque, do disco Clube da Esquina 2. Dedico a ele este texto, esperando e acreditando que ainda iremos compartilhar muitas dessas músicas na voz, no violão e nos corações.)

Dicas do VP
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vp_vialactea.jpgA Via Láctea (Lô Borges, 1979) - A Via Láctea, ainda que visualmente seja menos lembrado que o lendário disco do tênis - o primeiro de Lô Borges - é considerado o melhor disco do guitarrista e compositor mineiro, fora, é claro, do seu trabalho no primeiro Clube da Esquina. Entre outras ótimas canções, o disco apresenta a primeira gravação com letra de “Clube da Esquina 2″, e músicas inesquecíveis como “Vento de Maio”, “Equatorial”, “Tudo o Que Você Podia Ser” e “Chuva na Montanha”.

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vp_luavaga.jpgContos da Lua Vaga (Beto Guedes, 1981) - Não é leviandade afirmar que Beto Guedes foi o mais popular dos mineiros do Clube da Esquina. Na década de 80, antes da onda do Rock Brasil devastar tudo o que fosse mais lírico, Beto Guedes era o cara. E Contos da Lua Vaga, seu quarto álbum, depois dos excelentes A Página do Relâmpago Elétrico, Amor de Índio e Sol de Primavera, trouxe a sua obra-prima: “O Sal da Terra”, entre outras belas canções, como “Veveco, Panelas e Canelas”, “Tesouro da Juventude”, “Canção do Novo Mundo” e a faixa-título. Depois desse álbum, tudo o que Beto compôs foi menor.

Fábulas contemporâneas

Contadores de histórias como Esopo e La Fontaine foram mestres em trabalhar com alegorias - animais personificados - para falar de coisas bem humanas. Ler - e escrever - fábulas e parábolas também não deixa de ser uma forma de parar um pouco para pensar. E como o mundo mudou muito desde a época das fábulas mais clássicas, eis aqui uma livre adaptação de algumas dessas histórias. A moral de cada uma fica a critério dos leitores.

1. A cigarra, a formiga e os gafanhotos

Era uma vez uma campina onde viviam uma cigarra e uma formiga. A cigarra cantava durante todo o verão, enquanto sua vizinha, a formiga, trabalhava arduamente para juntar comida para o inverno. E todo inverno era a mesma coisa: a formiga tinha sua comida garantida enquanto a cigarra passava fome. Certa vez, entretanto, uma nuvem de gafanhotos passou pela campina e vendo que ela tinha comida em abundância, devastou tudo o que viu pela frente. E assim começaram a fazer, todos os verões. Tendo pouco o que recolher no verão, a formiga começou a passar fome no inverno. Um dia, porém, percebeu que sua vizinha, a cigarra, tinha comida em abundância. Intrigada foi perguntar à vizinha como ela conseguira todo aquele alimento se ela jamais se preocupara em juntar comida e fazer reservas e justamente agora, os gafanhotos devastavam a campina durante o verão. “ÿ simples”, respondeu a cigarra. “Enquanto os gafanhotos destruíam a campina, eu continuei cantando minhas músicas. E eles gostaram. E passaram a deixar uma caixinha em comida, pelo serviço de tornar a devastação deles mais divertida. Foi assim que eu arrumei todo esse alimento. Vai uma folhinha aí?”.

2. O caçador

O leão, caçador renomado em todo o reino animal, rodava o mundo ministrando um conhecido curso de como caçar quagas. Seus cursos eram extremamente concorridos e o investimento neles era bastante alto. Certo dia, quando o leão se encontrava na Europa, um texugo que assistia ao curso, intrigado com a explanação do professor, resolveu perguntar: “Ora, mas afinal, os quagas não estão extintos?” O leão ficou vermelho, irritadíssimo com aquela impertinente interrupção. Afinal de contas, quem era aquele texugo idiota para questioná-lo, ele que era PHD em caça de quagas pela universidade do Serengeti e que tinha mais de dez MBAs, sem falar nos seus livros e vídeos extensamente vendidos no mundo? Toda a turma caiu na pele do texugo e ele, entre apupos, foi forçado a deixar a sala de aula. Mais tarde, quando o leão preparava-se para ir embora, o texugo surgiu na frente de seu carro, cuspindo marimbondos.
- Beleza, lá na sala o senhor me humilhou, me colocou abaixo de nada. Mas agora a gente está aqui sozinho e não adianta vir vomitando seus títulos. Todo mundo sabe que os quagas estão extintos. Para que serve então a porra desse curso? Rosnou o texugo.
- Você quer saber mesmo? - respondeu o leão - E não é óbvio? Serve para ensinar a dar aulas de como caçar quagas.

3. Os lemingues roqueiros

Nick era um lemingue roqueiro diferente. Todo ano, na primavera, enquanto lemingues roqueiros abandonavam suas tocas para levar sua música ao ar livre, Nick permanecia entocado e não colocava nem a cabeça pra fora. Certo ano, arrumou outros lemingues roqueiros e montou uma banda. Tocaram na caverna durante todo o inverno. Mas na primavera seguinte, enquanto seus companheiros de banda se preparavam para sair da toca e ir para o ar livre, Nick, peremptoriamente, determinou:
- Não vai subir ninguém!
- Mas como não, Nick? - Exclamou Lou, um dos lemingues da banda de Nick - temos que subir! ÿ nossa natureza.
- Natureza é o cacete. A gente vai ficar aqui e pronto.
- Mas nossa música precisa ser consumida, disseram Jello e Frank, os outros dois lemingues da banda.
- Consumida, é? Consumidos serão vocês, pelas corujas, pelas raposas, pelos lobos, lontras e até pelos avestruzes, se derem mole. E sabe o que sobrará para vocês se não forem consumidos? O precipício. Mas enfim, se é o que vocês querem, então podem ir.
Eles não foram. Anos depois eram a banda de lemingues mais conhecida do underground.

4. a galinha e a pata.

Clemência era uma galinha de uma tradicional família de galináceas poedeiras. Treinada desde a infância para trabalhar na indústria de ovos da família, sempre foi ensinada a cacarejar quando pusesse os seus ovos. Porque quem não faz propaganda do que produz não consegue vender. E davam a ela o exemplo da pata - pobre pata! - que colocava ovos maiores e mais nutritivos, mas que ninguém conhecia porque a pata não cantava. E assim, Clemência cresceu com a certeza de que cacarejando, venderia seus ovos. Mas quando montou sua primeira filial da franquia de ovos da família, percebeu que as vendas não iam bem. Por mais que cacarejasse, as vendas caíam e cada vez menos compradores apareciam por lá. Intrigada, resolveu contratar algumas frangas novinhas e bonitas para cacarejar suas ofertas pela vizinhança. Mas ao contrário do que imaginava, ela vendia cada vez menos. E quanto mais barulho fazia, menos compradores tinha. Um dia, um mangusto, conhecido freguês de seus ovos, passou pela porta de sua venda e não entrou. Clemência, desesperada, correu para fora e o interpelou.
- Senhor mangusto, eu sei que o senhor não vive sem ovos. Mas agora, passa aqui na minha venda e não compra nada! Por quê?
- Ah, cara galinha - respondeu o mangusto - é que eu os estou comprando a umas quadras daqui, na casa da pata. Ela tem deliciosos ovos orgânicos, grandes e suculentos e a loja dela é maravilhosamente silenciosa. Me deram a dica e eu fui conferir. Agora, com sua licença, eu estava mesmo a caminho de lá.

5. Na borda do deserto

Eddie é uma equidna, uma equidna macho, que tem uma mercearia na borda do deserto australiano. Certo dia, Sammy, um aventureiro wombat conhecido de Eddie, passou pela mercearia para comprar provisões para uma travessia do deserto.
- Como vai, Eddie? temos água aí?
- Que nada, Sammy - respondeu Eddie - depois dessa seca, o preço da água está pra lá de proibitivo.
- Bem, preciso então de macarrão e biscoitos.
- Você não ouviu falar da greve dos caminhoneiros italianos? Não temos nada de trigo.
- Bom, e arroz?
- Tufão na Malásia. Não servem lentilhas azedas do Paquistão?
- Eca! Você tem fósforos aí?
- Os ambientalistas proibiram, para tentar evitar os incêndios.
- Com mil diabos da Tasmânia! Desse jeito não dá pra atravessar o deserto.
- ÿ, também acho.
- Bom, se é assim, vou voltar pra casa. Me vê então só uma Coca-Cola e um Marlboro mesmo.
- São $4,50.
- Valeu, Eddie.