Postura: ?uma certa maneira de andar com os dois pés?
“Nosso conhecimento, quanto mais se torna rizomático, fractal e sofisticado, mais se transforma em algo sutil, onírico e inexistente. Parece que todo conhecimento evolui para uma certa postura,
uma certa configuração do corpo, e vira saber incorporado. Saber é saber encarnado,
a própria qualidade expansiva da consciência em suas entranhas e nervuras.”
Fora a epígrafe, este texto é bobagem, bobagem pura. Fui tomar banho lá fora (a ducha anda mais gostosa lá do que cá). Vi uma formiguinha, esses soldadinhos dos cristais de açúcar. Como do alto dum arranha-céu: ela estava nos botões de apertar da máquina de lavar, carregando o que parecia ser um pedaço de outra, falecida. A distância era grande de lá até ao térreo, então resolvi ajudá-la. E com todo cuidado: esse é um bichinho que morre à toa.
Ofereci os dedos das mãos, ela aceitou. Também, ao perceber apenas aquele pequeno espaço, entendeu que não tinha mais por aonde perambular. Num instante deitei-a ao chão. Ela já estava onde deveria estar, mais próxima de casa, segundo o que eu achava. No entanto, nesse percurso, pra ela gigantesco, o que carregava se perdeu. Vi aquele minúsculo pedacinho de coisa preta desprender-se dela e cair prum outro caminho.
Meu espanto maior: chegando ao chão, área azulejada, já dela conhecido, eu suponho; a formiguinha corria para todos os lados. Tudo bem, foi o susto, pensei. Está atordoada. Só que gastou pouco pra eu perceber, ela procurava, no compasso de uma rosa-dos-ventos, o que caíra. E caminhava por um caminho oposto. Dessa vez fiquei quieta, imóvel. Não sei quanto tempo, mas foi breve. Ela só se quietou quando encontrou a segurança do que havia perdido, seu ganha-pão.
Esse preâmbulo é uma alegoria ou uma metáfora ou pura bobagem. ÿ escolha.
Essa formiguinha me remeteu ao filme de ontem: The bucket list (2007). Pra se lembrar, bucket é balde, em inglês. Aqui traduziram Antes de partir. Dois amigos, Jack Nicholson e Morgan Freeman, aventuram-se a buscar pelo the joy of life (a alegria da vida), já que lhes restam apenas poucos meses de vida. Porque quarenta e cinco anos passam rápido. O tempo nunca nos é suficiente: nem para os personagens do filme, nem para nós na vida real.
Jack, um bon vivant, o tempo todo conviveu com o lado luxuoso e luxurioso da vida, embora sempre solitário, sem de fato compartilhá-la. Freeman, soldadinho de chumbo, sacrificou seus sonhos para que sua família tivesse conforto e segurança. Este, sempre compartilhou; talvez até por demais, no que só bem mais tarde se viu disposto a oferecer.
E o que aquela formiguinha tem a ver com essa história toda? Ela remeteu-me a um diálogo do filme:
What does a snail have to do to reincarnate? Leave the perfect trail of slime? [O quê um caracol tem que fazer para reencarnar? Deixar um traço de muco ? perfeito?]
E daí caímos no assunto de tudo isso: religiões, crenças, fés. Plurais.
Jack claramente diz não ter fé. Através dessa pergunta debochada, ele critica a reencarnação: crença de que todos os seres ciclicamente renascem. Segundo as tradições que pregam tal crença, sua finalidade seria a de se buscar por uma vida de maior profundidade espiritual.
Nesse sentido, se existe um propósito na vida, entende-se que este faria parte de um algo maior. No entanto, um dos maiores filósofos do século XX afirma:
“Quando vocês souberem que não há propósitos, saberão também que não há acaso: pois apenas em relação a um mundo de propósitos tem sentido a palavra acaso”
Nietzsche, Gaia Ciência, livro III, af. 109
Pensar que há propósito é ato de fé, crença e religião. Palavras amplas que cobrem um universo próprio a cada um. ÿ escolha. Plural que se singulariza, invariavelmente.
Nessa toada, um conceito sempre me fez companhia e voltei a pensar sobre ele ultimamente: postura; postura diante da vida. Cada um entende isso de forma bem própria. Antes, ele me era muito mais atrelado à ética. Não naquele jeito encalacrado, sujeito à noção que acabou sendo disseminada: ação-e-reação. Este é apenas um pedaço, crasso, do conceito.
Hoje considero postura um jeito de saber que somos regidos por emoções, todo o tempo. Se apenas com elas nos identificamos, elas nos dominam; se apenas as observamos, geralmente recaímos naquela de não as sentirmos por inteiro.
E o que é sentir algo por inteiro? Nas palavras de Trungpa, apresentado a mim por meu querido amigo Gustavo, é perceber o aspecto vivo das emoções ao invés de seu aspecto frustrado.
Como?
“Usualmente, podemos expressar a nossa raiva ou agressão batendo em alguém ou destruindo algo ou sendo verbalmente rudes. Tais ações e frustrações surgem de nossa emoção como resultado de uma falha em perceber que há um espaço total no qual as energias estão operando. Em outras palavras, tanto suprimir quanto expressar são um substituto emocional ao invés de emoções verdadeiras. São como sedativos. Uma experiência emocional perfeita ou verdadeira significa a realização da totalidade da fundação, perceber que as emoções operam no meio de um espaço inteiro. Neste ponto, começamos a experimentar os sabores das emoções, suas texturas e suas temperaturas. Começamos a perceber o aspecto vivo das emoções ao invés de ou seu aspecto frustrado.”
Orderly chaos: the mandala principle, Chögyam Trungpa.
Quando conseguimos que uma emoção viva em seu espaço inteiro começamos a entender que não somos os donos. Que sermos, ao avesso, covardes a maior parte do tempo é muito mais fácil. ÿ que estar presente e sentir algo por inteiro talvez nos meta mais medo do que, em si, o próprio ato de morrer.
?Mas quando deixaremos nossa cautela e nossa guarda??
Nietzsche, idem
Seria essa nossa maior bobagem?
Nada vale muito se vivemos por muitos substitutos. Por que que temos que estar à beira da morte ou sobreviver à uma perda profunda para entendermos isso? E por que, se cada dia a mais é um viver a menos, por que teimamos em racionalizar a vida? (se essa é apenas uma faceta com a qual devíamos muito mais bem-brincar do que levar a sério.)
Aprendi que quando racionalizamos nossos erros, nós os protegemos. Ao protegê-los, nós abrimos o caminho para repeti-los. Não é que se deva pôr a razão de lado, tampouco que se deva mergulhar de cabeça nas emoções.
Tanto o pensar quanto o sentir são feitos de elementos variáveis: pensamentos e sensações ? coisa passageira, por própria definição. Assim como nós, igualmente transeuntes pela vida. Nesse sentido, menos vale um rastro de muco, e muito, muito-mais a postura de sentir
“que todo conhecimento é fingimento, que todo especialista é um ator supremo e que nada resta senão a sabedoria, que não é conhecimento algum, mas uma certa maneira de andar com os dois pés, como dizia o mestre Alberto Caeiro.”





















