Faz um tempo que eu venho engavetando um projeto de escrever uma seqüência de pequenos textos sobre alguns autores das ciências humanas que nos oferecem boas questões, pistas e conceitos interessantes para discutir e compreender mais sobre internet. Era uma idéia que não saia da gaveta e que já tinha quase abandonado. Porém, quando percebi que o projeto do NossaVia iria emplacar, notei que era o momento certo de colocar a idéia em prática.
O projeto é bem humilde e não tem nenhuma pretensão acadêmica. Em grande medida, tomo como ponto de partida uma seleção um pouco pessoal de autores e discussões que acredito ter um apelo perante diversas audiências, abrangendo grupos e indivíduos dos mais variados interesses.
Seria uma espécie de pequeno mosaico conceitual-informativo, que ao final resultaria numa paisagem das questões teóricas mais interessantes que a internet propõe.

Confira o Mapa
A princípio, pensei em autores como Jean Baudrillard, Pierre Levy, Zygmunt Bauman, Manuel Castells, Armand Mattelart, Richard Sennett, Dan Gilmor, entre outros, abordando temas tais como sociedade da informação, comunicação de massa, cultura e comportamento na internet, privacidade, espaço público e participação na rede, interfaces, conhecimento e tecnologias da inteligência, etc. Como podem perceber, o campo parece promissor, porém bastante inexplorado e perigoso.
A proposta é pegar esses autores com obras que já possuem o seu encaixe nas ciências humanas e tentar realizar uma síntese delas para o formato mais próximo do blog, de uma comunicação mais rápida e menos comprometida com rigores teóricos, mas ao mesmo tempo mais ágil e sedutora, mais assimilável. Tornar isso assimilável, mas acima de tudo, tentar ao máximo fazer essas referências teóricas dialogarem com o contexto atual, com os assuntos do dia, a pauta corrente. Daí a brincadeira de Pack?s (package ? pacote) teóricos: a vontade de fazer conversar as diversas áreas, tais como a filosofia, a sociologia, a ciência da computação, a ciência da informação, etc.
No pacote de hoje apresento a vocês Jean Baudrillard.

Fonte: wikipédia
Nota biográfica
Nasceu na França, 1929, Reims. Faleceu em 2007, Paris. Sociólogo, professor, escritor, fotógrafo, estudou semiótica, alemão e comunicação.
Contexto cultural
Pós-modernismo, semiótica, estruturalismo, maio de 68.
Aproximação de Baudrillard
O interessante no pensamento de Baudrillard é que sua obra não é um conjunto que se oferece de forma amigável ao virtual leitor. Não é uma obra bem organizada, com conteúdo didático. Seus livros são recheados de aforismos, trocadilhos, sutilezas. Suas abordagens são sempre bastante pessoais, muito apoiadas na própria perspicácia e criatividade do autor, se escora pouco nos textos da tradição. Quem decide se aproximar do pensamento de Baudrillard sempre é chamado para um jogo de provocação e decifração.
Tudo é tão falso, tudo é tão artificial… tudo é tão real: o Simulacro e o Hiper-Real.
Toda a tradição do pensamento ocidental foi fundada na separação radical entre matéria-forma (Natureza-Pensamento). Desde Platão, Aristóteles, passando por Descartes, Kant e Newton, existia uma diferença radical entre a matéria-extensão, o objeto bruto da natureza e a sua representação conceitual, a impressão que o objeto causa em nossa mente. Eram elementos ontologicamente diferenciados, de naturezas diferentes.
Saindo desta chave, seguindo a trilha aberta pela fenomenologia, Baudrillard passa a desconfiar deste privilégio de verdade concedido aos fenômenos físicos-naturais. Mais que isso, sem querer resolver a questão do valor da matéria-extensa, ele questiona a postura que despreza a simulação. Partindo de uma alegoria que ficou famosa do escritor argentino Jorge Luis Borges, temos uma situação (realismo-fantástico) na qual os mapas: - a representação ? (a simulação do território real) se torna mais detalhista e precisa do que as imperfeições do terreno natural.
Hoje a abstração já não é a do mapa, do duplo, do espelho ou do conceito. A simulação de um território, de um ser referencial, de uma substância. ÿ a geração pelos modelos de um real sem origem nem realidade: hiper-real. O território já não precede o mapa, nem lhe sobrevive. ÿ agora o mapa que precede o território ? precessão dos simulacros ? é ele que engendra o território cujos fragmentos apodrecem lentamente sobre a extensão do mapa. ÿ o real, e não o mapa, cujos vestígios subsistem aqui e ali, nos desertos que já não são os do Império, mas o nosso. O deserto do próprio real. (Baudrillard)
Nada precisa mais do real para existir: os signos foram libertados. A simulação, que é uma recriação do real, pode produzir os mesmos efeitos do fenômeno real, sem precisar estar atrelada a nenhuma das condições do real. No momento em que ela se populariza e aperfeiçoa (a simulação), então Baudrillard avalia que o Simulacro (resultado da simulação) passa a deter o mesmo status ontológico do real (natureza). Ou seja, ele (o simulacro) pode ser tão verdadeiro ou tão falso (não importa decidir) a respeito daquilo que inicialmente pretendia simular.
Será que dá pra relacionar isso com a internet? Msn, vídeo-conferência, Second-life? Um simulacro que ganhou vida?
O excesso de significado coloca em risco a própria produção do sentido.
Uma vez que o signo está liberto e o simulacro ganha vida, sua trajetória, segundo Baudrillard, é a de uma reprodução crescente e incontrolável, desastrosa.
O signo se reproduz uma vez que ele além de ser utilizado por quem pretende se afirmar, ele também volta-se a si mesmo com o objetivo de investigar e descobrir o seu próprio processo de elaboração ? a metalinguagem. A metalinguagem, em si mesma, não possui nenhuma característica negativa. No entanto, a exemplo do simulacro, ela se desenvolve justamente no espaço da ausência da comunicação. O trecho abaixo é uma crítica aberta a outro teórico da comunicação, McLuham.
O êxito da comunicação e da informação seria, do mesmo modo, resultante da impossibilidade que a relação social tem de superar-se como relação alienada? Na falta disso, ela desdobra-se na comunicação, multiplica-se na multiplicidade das redes. A socialidade superativada pelas técnicas do social. Ora, o social em essência não é isso. Foi um sonho, um mito, uma utopia, uma forma conflituosa e contraditória, forma violenta, em todo caso um acontecimento intermitente e excepcional. A comunicação, ao banalizar a interface, leva a forma social à indiferença. ÿ por isso que não há utopia da comunicação. A utopia de uma sociedade comunicacional não tem sentido, já que a comunicação resulta precisamente da incapacidade de uma sociedade superar-se para outros fins. O mesmo acontece com a informação: o excesso de conhecimento dispersa-se indiferentemente ma superfície em todas as direções, mas ele só comuta. Na interface, os interlocutores estão ligados entre si como o plugue na tomada elétrica. ?Isso? comunica, como se diz, por uma espécie de circuito único, instantâneo; e, para que comunique bem, é preciso que ande depressa, não há tempo para o silêncio. O silêncio é banido das telas, banido da comunicação. As imagens midiáticas (e os textos midiáticos são como as imagens) nunca se calam; imagens e mensagens devem suceder-se sem interrupção. Ora, o silêncio é justamente a síncope no circuito, a ligeira catástrofe, o lapso que, na televisão por exemplo, torna-se altamente significativo ? ruptura carregada de angústia e júbilo, verificando que toda essa comunicação é no fundo apenas um enredo forçado, uma ficção ininterrupta que nos supre o vazio, o da tela tanto quanto da nossa tela mental, da qual espreitamos as imagens com igual fascinação. (Baudrillard)
Polêmicas
Para Baudrillard, a Guerra do Golfo (contra Saddam Hussein) nunca existiu. Invertendo o mote de Clausewitz, ?a guerra é a continuação da política por outros meios? Baudrillard assume que o evento (ausência de guerra) foi ?a continuação da ausência da política por outros meios?.
Pergunto
Qual foi mesmo a hiper-realidade das cenas do enforcamento do Saddam no YouTube? YouTube, vocês entenderam? YouTube?
Curiosidade
Baudrillard viveu na mesma época que Foucault. Chegaram a ter contatos e trocar idéias. Por iniciativa de Baudrillard, surgiu a proposta de que cada um fizesse um ensaio criticando a obra do outro. Baudrillard escreveu o seu ensaio, intitulado Esquecer Foucault, o enviou para Foucault e disse: agora estou esperando o seu. Foucault não escreveu o ensaio sobre a obra de Baudrillard. Depois de receber do amigo o ensaio que refutava sua obra, Foucault cortou relações com Baudrillard. Mesmo diante do rompimento, Baudrillard tentou publicar seu livro. Após um tempo sendo enrolado pelo editor, descobriu que Foucault tinha usado de influência que tinha com o editor para vetar a publicação. Tempo depois, em outra editora, Baudrillard publicou seu livro. Em 1984 Foucault faleceu. Atualmente o livro está esquecido. Foucault continua atual.
Filmes
Crash ? Estranhos prazeres ? David Cronenberg
eXistenZ ? David Cronenberg
Cidade dos Sonhos ? David Lynch
Truman Show ? Peter Weir
Entrevista
http://www.consciencia.net/2003/06/07/baudrillard.html