Nova classe média

Estava num evento promovido pela Embaixada Francesa há alguns meses e um dos ilustres representantes da imprensa se apresentou - em alto e bom som, respondendo a um pedido do organizador do evento - como editor de uma revista para classe A +. Não bastava ser A, era “plus”.
Este caminho me parece anacrônico. O que vejo é um investimento imenso na ascendente classe C. C+, C- ou mesmo D, todas as variantes desta parcela da população brasileira que já chegou aos 100 milhões e é vista com imenso interesse por portais de internet, lojas de departamento e vários outros serviços que antes eram inacessíveis para eles.
Uma pesquisa divulgada no início do mês pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) afirma que nos últimos seis anos cerca de 20 milhões de brasileiros deslocaram-se da base para o miolo da pirâmide social. Até há pouco tempo classificados como pobres ou muito pobres, eles melhoraram de vida e passaram a consumir confortos típicos de classe média. Sua ascensão social revela uma excelente novidade: pela primeira vez na História, a classe média passa a ser maioria no Brasil. São hoje 52% da população (eram 44% em 2002) – ou 100 milhões de brasileiros.
Diante deste grupo e seu poder de consumo, quem pode focar só na A+? Matéria de capa da revista Época da semana passada, um texto longo procurava entender quem compõe a nova classe média e o que esta mudança na pirâmide social brasileira significa. Um dos especialistas consultados foi o economista Antônio Delfim Neto, ex-ministro da época de governos militares. Ele comparou a mudança de paradigma com a que ocorreu na época do Milagre Econômico, explicando que “mais importante que o tamanho da renda é o povo sentir que progrediu. A soma de salário e crédito abundante permite que elas comprem bens de classe média.” Essa dinâmica, explica, cria a possibilidade de expansão ainda maior da economia, movimenta o mercado e põe mais gente no elevador social.
Como ouvia na infância, é a classe média que paga tudo no Brasil. Como lembrou o jornalista carioca Matheus Gagliano, “a velha classe média, digamos assim, aquela que foi a principal classe até meados dos anos 90 é a que mais paga a ascensão social das antigas classes pobres. O poder aquisitivo desta classe caiu assustadoramente.(…) Enquanto alguns saem, outros entram”. Claro que o ideal seria que todos saíssem da pobreza, mas esta caracterização de uma classe média dentro da realidade de consumo do brasileiro padrão (independente de parecer com você ou comigo, 100 milhões são a maioria) é um retrato interessante da nossa sociedade e do momento que vivemos.
Definir uma classe média no Brasil de acordo com a nossa realidade é fundamental para entender esse fenômeno e vislumbrar as mudanças sociais que acontecerão de agora em diante não só porque surgiram novos consumidores, com um perfil novo e inclusivo, mas porque eles alterarão a realidade. Conhecer a nova classe média brasileira é fundamental para entender o futuro do Brasil. Que impacto esta mudança tem sobre sua vida? No mínimo, são os novos consumidores de informação e formadores de opinião (e reforço este ponto porque boa parte dos leitores do Nossa Via é composta de blogueiros ou profissionais de mídia social) que estão acompanhando e comprando seu trabalho. O que você tem a dizer a eles?
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