Que as asas da liberdade jamais percam suas penas*
Muito tem se falado sobre o que os blogs devem publicar e como devem publicar.
Pouco tem se falado sobre o que os blogs podem publicar e como podem publicar.
Falar de ÿtica sem falar de liberdade é algo que me cansa. Aliás, deveria cansar qualquer um. Mas pelo visto há uma certa preferência sadomasoquista em se falar de um tema sem que ele seja amalgamado pelo outro.
Existe um livro do filósofo Fernando Savater chamado ÿtica Para Meu Filho. ÿ um livro que todos deveriam - ou poderiam - ler. Por tratar de um tema tão complexo quanto ÿtica de maneira simples sem, no entanto, menosprezar o leitor. Não é um “ÿtica Para Leigos” ou coisa assim. Afinal, ÿtica é uma coisa tão inabarcável por definição que chega a ser contraditório fazer um manual para ela. Uma ética, uma verdadeira ética, não tem regras fechadas.
O fato é que uma palavra muito presente nesse livro é liberdade.
Para começar a explicar a seu filho do que se trata a ÿtica, Savater usa um exemplo marcante. Se você assistiu Tróia ou leu A Ilíada sabe que a certa altura Aquiles vai até os muros da cidade sitiada buscar sua vingança contra o nobre Heitor, que matou o homem que amava.
Uma formiga, quando um inimigo, um besouro por exemplo, invade o formigueiro, precisa enfrentá-lo. Não porque ela goste do formigueiro, não porque ela deteste o besouro. Não porque é nobre. Acima de tudo, não porque ela escolheu. Mas porque está na natureza dela.
Ela não tem escolha.
Heitor, ao ver o invencível Aquiles nos portões de sua cidade, tinha. Poderia ter fugido, ter ficado junto aos seus, se escondido. Mas escolheu o enfrentamento independente dos resultados. Mas aceitando qualquer um dos resultados possíveis.
A formiga e Heitor tiveram ações similares. Mas apenas a de Heitor teve um teor ético, isto é, apenas a dele pode ser julgada eticamente. Pois ele exerceu a liberdade de escolher. E, depois dela, efetivou a escolha propriamente dita. E, depois ainda, sofreu as conseqüências e, se tivesse permanecido vivo, teria assumido as responsabilidades por essas conseqüências.
Os humanos estão envoltos por um círculo cujos pontos principais são esses. Liberdade, escolhas, conseqüências, responsabilidades, que nos levam de volta à liberdade.
Note que nem uma coisa e nem outra vem primeiro: uma pessoa já nasce com todas essas coisas. Mas quem coloca a liberdade em primeiro lugar pode se tornar um libertino. Quem prioriza as responsabilidades (em geral a dos outros), pode se tornar um ditador ou um escravo. E extirpar qualquer um desses atributos é desumanizar ou matar. Como quem arranca um fígado ou um coração.
Assim, um blog - um blog sobretudo -, como manifestação mais - ou menos - individual e humana deve ser também uma manifestação dessa liberdade e dessa responsabilidade.
Dizer como um blog deve ser ou como não deve ser é retirar um de seus atributos éticos, um de seus atributos humanos, transformando o tal círculo em uma linha torta.
ÿ menosprezar a capacidade de um editor de um blog escolher e defender o que julga certo ou errado, seja o modo como escreve, seja sobre o que escreve ou como escolhe remunerar o que escreve. ÿ menosprezar também a capacidade de o leitor escolher o que deve ler, o que não deve ler. Estima a capacidade crítica de ambos em níveis igual a zero.
Acima de tudo, algo assim iguala as atitudes mais éticas às menos éticas. Tudo passa a ter o mesmo valor. Quando tudo é igualado por regras externas ao homem, limitando suas escolhas, ele - no caso, o editor de blogs - deixa de ser Heitor - o herói grego - e passa a ser a formiga.
Aquele inseto minúsculo.
Heitor deve ter esmagado algumas enquanto, corajosamente, caminhava em direção ao destino que escolheu.
* Creio que a frase do título é uma fala do filme Os Aventureiros do Bairro Proibido, de 1986.
ÿltimos posts de Alessandro Martins
- Uma imagem. Uma pergunta
- O cachorro em volta do incêndio
- Como você vai mudar o mundo usando um blog
- Conforto e facilidade? Pra quem?
- O engate para reboque é o troféu do individualismo estúpido
Posts Releacionados
-
No related posts





















July 10th, 2008 at 09:07
Alessandro, seu texto, a mim, soa como música; cheio de “graves” e “agudos” perfeitos. Quer saber como me sinto após lê-lo? Grato. Grande abraço!
July 10th, 2008 at 10:07
[...] Que as asas da liberdade jamais percam suas penas(*) [...]
July 10th, 2008 at 10:07
[...] Leia o artigo: Que as asas da liberdade jamais percam suas penas [...]
July 10th, 2008 at 12:07
Muito bom Alessandro.
Já escrevi publieditoriais (poucos é verdade!) sem perder meu senso crítico sobre o trabalho… assim como já recusei escrever sobre um determinado “assunto” porque não concordava com o que me era mostrado.
Bom senso cai bem em qualquer situação… existem aqueles que o usam.. e existem os que não.
Lendo a imensa quantidade de blogs que tem por aí é facílimo separar o joio do trigo!
July 10th, 2008 at 12:07
Ale, você é um farol de bom senso. Eu não concordo com você 100% do tempo, mas você sempre me faz pensar, e na maioria das vezes, me leva a analisar as coisas por um ângulo que eu não tinha visto ainda.
Por isso (pelo que você expôs no post) eu sou contra código de conduta, e a favor de um “manual de boas práticas” - uma coisa que sirva de guia, de referência para quem precisa aprender, mas que garanta a liberdade de escolha de cada um.
July 10th, 2008 at 03:07
Alessandro…não há muito a dizer depois do seu texto.
O que norteia um bom “profissional das teclas” é o que ele pode e deve fazer por seus leitores.
Informar, contradizer, questionar, perguntar, faz parte do trabalho de quem se propõe a escrever.
Quando discutimos ética, deveríamos iniciar por muitos profissionais com telhado de vidro, que se exaltam quando se fala em blog, mas temem por abrir a boca.
Uma destas pessoas que passam por nossas vidas, num bate-papo informal, em determinado momento de minha carreira profissional dizia: Não se preocupe. O mercado se auto-purifica. Que assim seja!
Parabéns pelo texto.
July 10th, 2008 at 04:07
July 10th, 2008 at 06:07
show!!
July 10th, 2008 at 09:07
Mesmo antes de ler esse texto, eu já me dava a deliciosa liberdade de visitar esse blog. Agora então, meu caro, depois de tanto bom gosto, não se livrará de minhas visitas!
July 11th, 2008 at 02:07
Já estou me cansando de dizer isso, mas vamos lá: no fim das contas, cabe ao editor do blog definir o que será publicado ou não. A ninguém. Isso é liberdade de expressão.
July 11th, 2008 at 10:07
Opa Alessandro!
Dá gosto ler um texto que certamente será um clássico da nossa blogosfera pensante!
Um texto que argumenta maravilhosamente bem ao invés de adjetivar!
Que dá uma densidade argumentativa ao fla x flu que é publiciade paga, compra de espaço em blogues e que tais!
abraços
July 11th, 2008 at 11:07
Fora Gilmar Medes! E etc……
O presidente do Supremo Tribunal Federal, (nomeado pelo Fernando Henrique Cardoso, sim o mesmo que quase quebrou o Brasil) diz em entrevista que vai soltar uma pessoa presa pela Polícia Federal e depois dá o Habeas Corpus…
Isso quando gravaçõ…
July 11th, 2008 at 12:07
Maravilhoso texto Alessandro!
Se todos nós usarmos a ética com liberdade, chegaremos a um mundo menos problemático.
Os bom blogs são reconhecidos por quem lé e por outros bom blogueiros, com ou sem posts patrocinados. Isso é fato!
July 14th, 2008 at 12:07
Não concordo com cem por cento de sua opinião mas devo admitir que escreve muito bem, a moral da história é sensata, o texto não é exageradamente grande, não é chato, sua exposição dos fatos ficou na medida correta.
Na minha opinião a época de Iliadas serve mais como um marco de nosso passado, uma fase de evolução que ficou no passado, assim como o antigo testamento de um Deus cruel e justiceiro deu lugar à seu filho, que foi criança, sorriu, teve mãe e pai e morreu quando devia lutar, sua luta nunca vai ser totalmente entendida, a luta para não fugir de sua própria profecia;
Homero, autor de Ilíadas é na minha opinião um autor perfeito, reunia todo um universo em sua obra, através da filosofia deixava bem claro sua indignação com sua época, mostrava o que não deveria ter começado, alternativas, como tudo poderia ser mudado, e a fraqueza de espírito dos homens. Ele mostrava seu ponto de vista de como o homem era e não como ele gostaria, notamos nitidamente isso, sua angústia diante da imperfeição do homem. Assim como naquela época o homem só parava diante da arma, era passional. Se a história fosse hoje, aconteceria tudo diferente mas no final seria inevitavelmente decepcionante.
July 14th, 2008 at 01:07
Sem dúvida uma bela radiografia da alma da blogosfera, ou pelo menos do que se possa esperar dela.
Os meus cumprimentos.
Zé Paulo
July 17th, 2008 at 03:07
Alesssandro,
Primeiro, muito prazer em “e-conheçe-lo”. Rs Rs
Acompanho o QueroTerUmBlog. Ainda está na agenda para ler algo do Iniciante na Bolsa, mas a qualquer hora chego lá.
Neste post ví outro dos provavelmente milhões de lados seus.
Claro que este lado pode na verdade nem ser seu. Há quem diga que sou eu projetado em você. Nós jamais conheceremos as pessoas de fato, não é?! Nossos pais, esposas, filhos. Nem a nós mesmos.
Acho que é do ser-humano mudar. Mas esta mudança às vezes assume formas tão sutis e imperceptíveis aos “olhos nus” que parece que está alí a mesma pessoa.
Agora, imagine eu querer achar que sei o que há no pensamento de uma pessoa apenas pelo contato com um texto seu? Complicado?!!
Bem, mas vocé é jornalista. A comunicação é seu ofício, logo, quero crer que consiga comunicar melhor do que nós mortais não jornalistas.
Xiiiiiii, só que agora eu me enrolei todo! Porque a comunicação não é um processo que depende só de você, não é verdade?
Tem alguns outros componentes nisso aí, não é? O outro, o eu e quem mais participa do processo é certamente um dessses componentes.
Deixando os prolegômenos de lado e indo ao ponto.
Tenho dúvidas sobre o que é liberdade. Não consigo ter segurança para falar sobre liberdade (mas assino o manifesto anti-Azeredo. Onde já se viu transformar em crime meus downloads de MP3?!) porque certamente eu estou idealizando uma liberdade qualquer aqui que eu ainda não sei o que é. Talvez eu saiba o que não é, talvez.
Não é liberdade:
ser levado a consumir qualquer coisa em função da manipulação do seu eu inconsciente, daquele que você nem mesmo sabe que existe;
ser levado a consumir um produto/serviço que “trabalhou” profissinalmente e milimetricamente a identidade de sua marca, colocando-a no lugar certo, na hora certa, na forma certa, para criar uma percepção intimamente relacionada ao desejos, sonhos, apirações subjacentes à percepção na cabeça de um indivíduo (ooops “consumidor”) alienado;
ter opções reais de conscientização sobre “realidade social” marginalizadas e deixadas à morte por inanição em detrimento da “conscientização de butique”;
ter educação elitista transformada em massificação de escolaridade como remédio;
E mais. Muito mais (Mas aí acaba virando um post. Rs Rs).
Concluindo.
Quero dizer que entendo as preocupações dos profissionais que estão tentando estabelecer as Mídias Sociais. São legítimas.
Mas, ao mesmo tempo, acho que ou por ingenuidade ou por ignorância ou por ideologia (ou mesmo combinações de tudo isso) tem gente que mistura defender a liberdade da comunicação de A com liberdade de comunicação de B. Não são as mesmas liberdades.
Onde está a distinção entre estas liberdades é que é o problema.
Acho que existe uma discussão ampla no meio jornalístico sobre imparcialidade na prática jornalística. Eu não acredito em imparcialidade nem em ciência. Mas em jornalismo, ou mesmo em ciência, isto é uma coisa que muitas pessoas não conseguem alcançar. Que sempre há forças políticas, sociais, enviesando a informação.
Porém, é diferente para cada um como lida com a informação, como tem consciência ou não de conteúdo “manipulativo” (huahaura….. ouça a risada maligna ao fundo, Rs Rs), não é?!
Somos gente, diversidade. Mas, para expor certas visões às vezes é necessário gerneralizar, ou estereotipar para poder comparar. Vou então dar descrever aqui dois personagens fictícios.
A. Um cara da periferia com 25 anos, 2 filhos pra sustentar e a mulher desempregada em casa. Ele nunca leu muito mais que as poucas coisas pelas quais acabou se interesando na vida. Também seu pais são analfabetos e não havia acesso à literatura e cultura de modo geral na sua infância e adolescência. Mas agora ele conseguiu acesso a uma faculdade ( provavelmente numa dessas milhares de faz-de-conta que estão espalhadas por aí). Agora ele é universitário, cursa jornalismo e trabalha como auxiliar de escritório em alguma Loja de perfumes para poder pagar as contas.
B. Um cara também de 25 anos que nasceu e cresceu com acesso à literatura e cultura em geral. Antes mesmo de se alfabetizar já fez pelo menos 1 viagem ao exterior, foi crescendo e teve a oportunidade de fazer outras. Os pais são intelectuais formadores de opinião respeitados em suas áreas, vêm de famílias tradicionais e têm alguns recursos que permitem não ter que viver exclusivamente dos seus salários. Este cara nem leu tudo que poderia ou absorveu tudo que poderia. Ele estudou numa boa universidade pública, que era como uma extensão da sua casa. Ficou em dúvida se faria pós-graduação em São Paulo mesmo ou em Paris e tem dúvidas também sobre o mercado de trabalho já que até agora só fez estudar na vida.
Estereótipos, apenas estereótipos. Ok?! A vida é bem mais complexa que isto.
Mas, nas condições normais de pressão e temperatura, que diferenças haveria entre estes dois indivíduos na compreensão universo?
A internet está sendo colocada em todos os lugares, para o acesso te todos. E cada dia tem mais gente entrando neste universo.
Isto é maravilhoso por um lado. Casos como o do cara que morava na rua lá em Pernanbuco e conseguiu se inscrever, estudar e passar no concurso do Banco do Brasil, são uma mostra da importância da internet para luta pela inclusão social.
Contudo. Não é todo dia que um cara que não tem acesso a nada na vida vai pegar a internet e procurar nela uma forma de alcançar seus sonhos a partir do seu esforço. ÿ uma questão moral. Mas também é uma questão maior que isso.
Por que os médicos vivem pedindo para a gente beber pelo menos dois litros de agua por dia dizendo que é essencial para saúde, mas pouca gente se preocupa com isso?
Eu tenho uma resposta. Simplista e limitada. Mas que serve para reflexão.
O Problema é que a Coca-Cola tem que vender a Coca-Cola. E a Coca-Cola é uma delícia, mata a sede do mesmo jeito, não é?!
Não lembro onde ví esta frase, mas deve ter sido em um destes domumentários anti-corporações. ” Você tem a liberdade de escolher o produto A ou o produto B, desde que consuma”.
Por isso, discordo de que dizer como um blog deve ser é “menosprezar a capacidade de o leitor escolher o que deve ler, o que não deve ler”.
Porém concordo com Nospheratt. Códido de conduta não serve para nada, mas, “manual de boas práticas” é sempre interessante, principalmente do ponto de vista da educação.
E aí meu caro, neste ponto a “liberdade” é de todos, mas a responsabilidade dos formadores de opinião como você é muito, muito, muito maior.
Espero ter contribuído sensatamente para este debate muito importante.
Grande e-braço!
July 18th, 2008 at 02:07
Ok, que fique registrado aqui que acaba de ser batido o record de tamanho de comentário em toda a história mundial das mídias interativas!
E valeu, porque certamente acrescentou muito (literalmente) ao tema! Se isso náo confirma o fato de que em mídias sociais o consumidor é a mídia, nada mais confirmará!
Abraços!
July 18th, 2008 at 06:07
huaehuehaeuah!!!!
Olá Wagner, e-satisfação em ter você como comentarista.
E prazer em estabelecer e-contato com vc também.
Realmente me impolguei. Lá pelo meio do texto eu quero concluir, mas aí começo um texto maior ainda.
Quando ví que a coisa ficou muito, muito grande, eu ia desistir do registro. Mas resolvi deixar.
E aí Wagner, o que acha dessa estória de CEO dos Blogs que o pessoal da Acheme7 publicou?http://acheme7.blogspot.com/2008/07/o-ceo-dos-blogs.html
July 18th, 2008 at 06:07
o.O
O Sr. Manoel Fernandes é um fanfarrão - rs
Me diverti muito com o post dele.
Mal dou conta de ser o CEO dos meus próprios negócios na rede (leia-se Riot, Coworkers, Hitech Live Blogs, Brogui Blogs, lojas Mercado Livre, PEGN, Boombust, Nossa Via e por aí vai).
Bom vê-lo por aqui, Orlando. Grande abraço!
July 18th, 2008 at 08:07
ÿ. E eu tão EMpolgado em responder seu comentário até INteriorizei a EMpolgação. Rs Rs.
Ps. Tinha que corrigir para não dar mal exemplo pro meu filho. Rs Rs Rs.
July 18th, 2008 at 09:07
[...] Bom. Se eu for começar a descrever tudo que está acontecendo, vai ficar maior do que o meu mega comentário no post do Alessandro no Nossa Via sobre a polêmica Blogs de Aluguel. [...]
July 24th, 2008 at 01:07
Caramba,
só hoje vi o comentário do Orlando. Sem dúvida é o recorde em tamanho de comentário.
Orlando, claro que a liberdade de que falo. e - por conseqüência - a responsabilidade, é a do editor de blogs.
Mas admitir que a liberdade de publicar não está ligada à liberdade de ler o que bem se entende e à capacidade desse entendimento é rejeitar a possibilidade de igualdade, como se quem publica fosse humano e quem nao consumisse essas publicações sequer tivesse a possibilidade de o ser, no exercício de suas liberdades. Então, se for assim, chamemos as babás ou o big brother de Orwell. Não somos capazes de discernimento.
Porém, reconheço que a necessidade - e a responsabilidade - de esclarecimento tem de partir de uma das partes. No caso, da parte emissora.
Abraços.