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Publicando uma notícia você pode ir à Olimpíada; não é sorteio

Quando eu era um inocente e cabeludo aspirante a repórter, sonhava com a minha primeira notícia estampada em algum veículo de imprensa.

É o tipo de coisa que eu jamais esqueceria, pensei na época.

A verdade é que, depois de 10 anos em jornais, eu esqueci até sobre o que foi a minha primeira matéria publicada. Talvez tenha faltado relevância pessoal, talvez eu não tenha me identificado com aquilo que escrevi. Repórter só escreve aquilo que deixam, na maior parte das vezes. Faltou paixão, dirão alguns românticos.

Hoje com muitos anos a mais e muitos fios de cabelos a menos sei que a notícia acontece o tempo todo. Agora, neste instante, a seu lado: qualquer coisa que interesse a você pode interessar ao seu semelhante, seja ele da sua rua, seja ele da China.

Recebi o convite para conhecer o concurso cultural do Vc Repórter, do Terra - que vai levar dois participantes à China, para ver a Olimpíada - e escrever sobre ele.

Pensei, ao encontrar esse canal e o seu concurso, que o que faltou para mim naquela primeira matéria foi não um incentivo tão bom quanto uma viagem ao outro lado do planeta - além do notebook, da câmara digital e da filmadora que a promoção oferecerá aos dois participantes. Mas a proximidade com meus interesses.

Quando um leitor de um portal tão grande quanto o Terra envia uma notícia - fotos, vídeos, textos e áudios sobre qualquer assunto interessante, inusitado ou relevante -, certamente é algo que diz respeito à sua realidade, algo que lhe impressionou os sentidos ou que ele acha que deve ser compartilhado ou que deve ser divulgado ou denunciado. Enfim: algo que lhe toca. É o tipo de coisa que, depois de publicado, não se esquece. É próximo. Pode provocar modificações sensíveis na realidade individual.

Claro que as notícias enviadas - você só tem até sexta-feira para participar - passam pelo crivo de uma equipe de jornalistas antes de serem publicadas. Mas, se a notícia enviada for publicada, você pode ser um dos dois escolhidos para cobrir os jogos em Pequim ao lado da equipe do Terra. Sim: o notebook, a câmara digital e a filmadora são para que você possa ajudar na cobertura.

O bacana é que, depois do concurso cultural, o serviço não vai deixar de existir. Continuará como um canal por onde o público poderá se expressar e divulgar as informações que considera relevantes.

O que achei mais interessante é que não se trata de sorteio. Segundo o regulamento:

A comissão julgadora analisará todas as matérias participantes do concurso cultural e premiará as duas melhores matérias, com base nos seguintes critérios: importância da informação, ineditismo da informação e criatividade na proposta de imagem/vídeo/texto. Outro critério de avaliação que será levado em consideração é se a matéria foi publicada no canal Vc Repórter.

Assim, você só depende de uma coisa.

Não de uma formação jornalística, certamente. Isso eu tinha quando fiz a minha primeira matéria.

Você só depende de seu interesse. Dele e de sua capacidade de mostrar como essa informação, que já é tão importante para você, também é importante para o resto do mundo.

Isso, quando fiz minha primeira matéria, eu ainda não tinha.

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O trabalho desenobrece o homem

Uma mesma palavra pode designar duas coisas diferentes.

Essa palavra - por se encaixar em objetos distintos e por esses objetos serem, ainda assim, tão semelhantes - pode ser manipulada em seu significado, ora auxiliando um ora outro senhor, como o Arlequim, servidor de dois patrões, personagem da Commedia dell’Arte.

A palavra trabalho, por exemplo.

Não há dúvida de que o que estou fazendo agora ao escrever esse texto é um trabalho, sob certo ponto de vista. Sob diversos. (more…)

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Poetas de rua

Confesso que minha reação aos poetas de rua nunca foi das melhores. Você sabe, aqueles sujeitos que param você na rua e perguntam se você gosta de poesia. É uma questão difícil, admito.

Difícil porque, para responder não, você terá de superar o medo de passar por tosco na frente de um ser lapidado. Ou, melhor, por ignorante bruto na frente de outro ignorante, porém mais delicado. E, se responder sim, vai abrir caminho para que o tal poeta lhe ofereça fotocópias grampeadas de seus originais ao módico preço de cinco reais ou tanto quanto ele ache que elas valham. (more…)

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Todo carro é broxa*

São Paulo ganhou o Estilingão. Sua pedrada tem por definição um alcance limitado. Afinal, não é aumentando as possibilidades de escoamento - escoamento se aplica a carros e a esgoto, entre outras coisas - que o problema será solucionado.

O slogan da Ipiranga diz burramente que todo brasileiro é apaixonado por carro. Não. Não estou cobrando inteligência da publicidade. Mas sinceramente me sinto ofendido, pois me considero um sujeito capaz de paixões muito mais interessantes e instigantes.

Definitivamente, não sou um apaixonado por carros. Tenho certeza de que não sou o único a pensar assim.

Só uso um como última possibilidade. Por exemplo, para levar alguém - que não pode se deslocar de outra forma - a um tratamento médico.

Ou à noite ou nos fins de semana, quando sei que meu carro não será mais um estorvo. Um estorvo a mais nas ruas para quem realmente precisa usar um: por exemplo, alguém que necessite levar uma pessoa que não pode se deslocar de outra forma a seu tratamento médico.

Porém sei que nem todos têm essa opção. Distantes de seus empregos, muitos precisam de um meio de transporte rápido.

Eu disse rápido? Eu acho que me enganei.

Tenho certeza de que muitos só utilizam automóveis porque não há alternativas satisfatórias de transporte público. Ou uma boa rede de ciclovias. Sei.

Claro que também há os - entre ingênuos e egoístas - que acreditam na promessa de liberdade oferecida pelos carros, na publicidade.

Você já viu algum carro aparecer em uma propaganda em uma situação real de trânsito? Digo, num engarrafamento?

A cultura em torno dos carros é frustrante por natureza: os publicitários - que sabem que o consumidor é uma espécie de criança, movida por suas emoções mais primitivas - oferecem liberdade, pujança, virilidade. Na verdade, o carro é uma prisão. Um carro parado no trânsito é tremendamente broxa.

Há uma distância enorme entre aquilo que é vendido e o que se adquire.

No tráfego, aproveite o fato de que você está parado, ainda que o semáforo esteja verde, e observe. A seu lado, carros com capacidade para carregar suas próprias inúteis toneladas mais cinco pessoas - a uma velocidade impraticável e apenas potencial - estão ocupados somente pelo motorista.

É desperdício de energia. Carro é jacu.

Diante disso, não me venha falar em fechar a torneira na hora de escovar os dentes.

Se a curva de estupidez não continuar ascendente, é possível que nossas próximas gerações nos julguem completos idiotas por usar máquinas com tanta potência para o transporte de tão pouca carga.

Sem falar no espaço que um negócio desses ocupa.

Olhe as fotos abaixo.

Primeiro temos o espaço ocupado por um certo número de carros. Depois, o ônibus necessário para transportar o mesmo número de motoristas e depois bicicletas, para a mesma quantidade de pessoas.

Carros, ônibus, bicicletas

Aqui em Curitiba - enquanto as ruas estão cada vez mais estagnadas, em horários de pico ou não, completamente tomadas por veículos motorizados privados - são feitas as primeiras menções de se implantar aqui e ali algo mais sério ao capenga sistema de ciclovias. Ou de melhorar o antigo, anteriormente eficiente - e já nas últimas -, sistema de transporte público.

(Não me venham dizer que o sistema de ciclovias de Curitiba é bom. Não é. Está longe de ser. Sistema? Que sistema?)

Temos por aqui, por outro lado, um forte movimento de incentivo ao uso da bicicleta. Por enquanto, o condutor médio não tem conhecimento de que as bicicletas sejam meios de transporte “sérios”. Mas a Bicicletada está trabalhando para mudar isso.

E só agora fiquei sabendo - desde que deixei o regime escravo tenho me inteirado muito lentamente das notícias - que São Paulo ganhou o Estilingão. Uma ponte horrorosa - ética e esteticamente feia - que custou milhões e pela qual não se prevê a passagem de pedestres, ônibus ou bicicletas e nem nada que resolva de fato o problema do trânsito: o excesso de carros.

(Além da questão da exploração imobiliária que, dizem, houve na região)

O espaço nas ruas é limitado e a capacidade de produzir e vender veículos, bem como a velocidade em que esses veículos viram e criam lixo, parece ser ilimitada. Agora são vendidos em 99 parcelas (isso ainda vai ser nosso subprime rastaqüera). Fico imaginando uma situação - fictícia, espero - em que as casas ficarão sob a sombra de infinitas avenidas aéreas, diversos estilingões feitos para que carros transitem com alguma liberdade.

As soluções não são mais ruas ou fazê-las mais largas. E sim aproveitar melhor as que existem. Os governos precisam parar de pensar nas máquinas e passar a pensar nas pessoas. E as pessoas precisam parar de pensar em si próprias e pensar em todos, nos outros.

Todos, todo o mundo, todas as pessoas, os outros: conceitos um tanto abstratos. Dizem, os cérebros humanos são capazes de processar conceitos abstratos. Mas por trás de um volante isso parece ficar mais difícil.

* Sobre a grafia da palavra brocha ou broxa

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Agá Dois Eca

Impressionante a capacidade da indústria, particularmente da indústria de bebidas, de perceber e se adequar às necessidades do consumidor de uma maneira negativa.

Ao menor sinal de uma certa e amorfa culpa coletiva pelo consumo de refrigerantes, bebidas gasosas e cheias de açúcar, essas empresas não demoraram a lançar produtos que imitam a água e que, no entanto, mantém a mesma característica de doçura, gás e sabor dos refrigerantes.

Estamos em uma época regida pela saúde e pela boa forma. Pelo menos pelo desejo de tê-las. As equipes de marketing e publicidade sabem disso. Eles não vendem água: vendem desejos.

Então, como por encanto, o consumidor médio - esse super-protegido personagem nascido em meados do século passado - esquece a culpa por estar consumindo um refrigerante e se vê, nos olhos de sua imaginação de consumidor médio, a beber uma água puríssima levemente saborizada - quem inventou essa palavra ridícula? - e gaseificada.

Acontece que o consumidor médio prefere se deixar levar.

Porém, basta ler o rótulo de qualquer uma dessas bebidas para entender que se trata de um composto que, se jogado em um desafeto, seria suficiente para uma acusação de guerra química pelos tribunais internacionais de Genebra.

Certa vez eu pedi numa pizzaria - essa pizzaria famosa que todo mundo conhece - uma água com gás. Eu imaginava exatamente isso, uma água com gás, do tipo que há nos rios ou que - sendo mineral - sai da terra.

A garçonete trouxe-me uma dessas bebidas que, por ter no rótulo algo que lembra a fórmula química da água (seguida por uma interjeiçãozinha safada), deveria ser água. No entanto, lembra mais uma soda limonada frustrada. Eu, como consumidor médio que sou, acabei tomando a beberagem ainda que um pouco contrariado.

O que não impediu de, em seguida, pensar no absurdo da situação e de me recusar a beber qualquer refrigerante que não contenha os devidos - e provavelmente prejudiciais - corantes artificiais.

Se é para beber refrigerantes, que eles sejam os sinceros. E não os dissimulados.

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