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Archive for the ‘DESTAQUE’


Maria Taylor: sucesso pós-Azure Ray

Maria Taylor - Lynn Teeter Flower (2007)

Apesar de gostar muito de Maria Taylor quando ela ainda cantava com Azure Ray (ao mesmo tempo que participava em paralelo da ótima banda Now It’s Overhead), seu projeto solo mostrou uma maturidade muito mais refinada. Seu álbum de estréia “11:11″ sem dúvida contém algumas influências remanescentes do trabalho com Orenda Fink, porém com um toque mais personalizado e pop.

Esse lado mais pop se concretiza com força total no segundo álbum, onde até beats são adicionados às melodias - sem falar no repentino rapper que surge em Irish Goodbye. O primeiro single A Good Start é o mais recheado de batidas e não conta com a ajuda de outros instrumentos (são poucos os acordes de guitarra). Isso pode gerar uma impressão equivocada com as outras músicas do disco, cujas composições não têm a mesma vibração. Entretanto, não é motivo algum para se decepcionar: o folk marca sua passagem rapidamente em The Ballad Of Sean Foley, a nostalgia de Azure Ray passa por Lost Time e o sentimentalismo sofrido faz presença No Stars e My Own Fault.

Não deixe de conferir também o EP “Havannah Drive”, em parceria com Andy LeMaster, integrante do Now It’s Overhead. Além das versões acústicas de algumas de suas canções, há também três canções inéditas.

Nellie McKay

Nellie McKay - Obligatory Villagers (2007)

Como é difícil encontrar uma descrição apropriada para o estilo musical dessa inglesa (nascida em Londres, mas que aos dois anos já tinha mudado para Nova York). Fruto de um casamento entre um diretor de cinema escocês e uma atriz americana, é possível imaginar a criatividade de Nellie McKay, assim como sua inquietação em fazer tudo diferente, a sua maneira.

Seu trabalho destoou como revelação com o segundo álbum “Pretty Little Head”, de 2006, cujas músicas misturam jazz com letras cantadas rapidamente - quase que um rap. As letras, por sinal, também se destacam pelos assuntos que são abordados: política, protestos contra abusos de animais e relacionamentos conturbados - fora aqueles que já se perderam no tempo.

Em seu último disco, “Obligatory Villagers”, McKay continua com seu jeito original de fazer música, com o mesmo mix de jazz e hip-hop e as mesmas letras afiadas (e até sarcásticas). Entretanto, esse terceiro trabalho tem muito mais elementos do jazz contemporâneo, visto que ela convidou alguns profissionais do ramo, como Phil Woods, David Liebman e Bob Dorough - saxofones e trompetes fazem a festa na maioria das faixas.

Apesar de seu sucesso ter deslanchado como cantora, ela também pôde testar seus dons como atriz. Depois de largar a escola de música em 2000, ela se arriscou como comediante - stand up comedies, tão comuns hoje em dia. E não parou por aí: em 2006 ela mostrou seus dotes artísticos no palco da Broadway com “The Threepenny Opera”.

Fiona Apple

Eu conheci Fiona Apple com o seu emblemático primeiro disco “Tidal” lançado em 1996. O hit principal deste belo álbum é “Criminal”, no vídeo ela canta magríssima em poucos trajes:

“Ive been a bad bad girl,
Ive been careless with a delicate man.
And its a sad sad world,
When a girl can break a boy
Just because she can.”

Impossível não chamar atenção, principalmente, por estarmos vivendo numa época de febre de cantoras após o sucesso estrondoso da Alanis Morissette. Todos diziam, ela é a próxima garota raivosa do rock? Sim, as previsões estavam erradas. Ela provou que é bem diferente da Alanis e não faz questão alguma de ser celebridade. Pelo contrário, seus discos foram ficando cada vez mais angustiantes, sombrios e introvertidos, mas sem perder a beleza das canções influenciadas pelo jazz e pelo rock clássico. A cada disco ela foi fazendo um som mais dela e ficando mais próxima de fãs como eu.

Não se engane com a carinha “angelical”, pois Fiona è uma cantora visceral, profunda, dramática e é por isso que sua música se tornou mais “nua” e  tão irônica. Após o sucesso do “Tidal”, ela lançou “When the Pawn…” e “Extraordinary Machine”. Só que o meu disco predileto continua sendo o When The Pawn Hits The Conflicts He Thinks Like A King What He Knows Throws The Blows When He Goes To The Fight And He’ll Win The Whole Thing Fore He Enters The Ring There’s No Body To Batter When Your Mind is Your Might So When You Go Solo. You Hold Your Own Hand And Remember That Depth Is The Greatest Of Heights And If You Know Where You Stand. Then You’ll Know Where To Land And If You Fall It Won’t Matter, Cuz You Know That You’re Right”. Por que um título tão longo? É uma resposta a sua polêmica entrevista dada a revista Rolling Stone.

“When the Pawn…” é brilhante e as músicas “Paper Bag”; “Love Ridden” e “To your love” comprovam o que eu digo. Em “Paper Bag” ela setencia “I thought he was a man but he was just a little boy” e prossegue:

Hunger hurts but I want him so bad, oh, it kills
‘Cause I know I’m a mess that he don’t wanna clean up
I got to fold because these hands are just too shaky to hold
Hunger hurts but starvin’ works when it costs
Too much to love

Em “Love Ridden” Fiona descreve o final de um relacionamento. Aliás, essa música marcou um momento da minha vida em que eu vivia o mesmo:

No, not “baby” anymore - if I need you
I’ll just use your simple name
Only kisses on the cheek from now on
And in a little while, we’ll only have to wave
My hand won’t hold you down no more
The path is clear to follow through
I stood too long in the way of the door
And now I’m giving up on you

Ainda neste disco eu destaco “Fast as You Can”, que quase virou hit, “Limp” e “To your Love”. Nesta última, Fiona canta uma situação que sempre passo nas minhas investidas amorosas:

I would’ve warned you, but really, what’s the point?
Caution could, but rarely ever helps
Don’t be down when my demeanor tends to disappoint
It’s hard enough even trying to be civil to myself
Please forgive me for my distance
The pain is evident in my existence
Please forgive for my distance
The shame is manifest in my resistance
To your love, to your love, to your love

Certa vez, me perguntaram se eu escrevo poesia. Eu simplesmente respondi que eu tentei, mas percebi que muita gente já cantou ou escreveu o que eu sentia em muitos momentos. Fiona Apple é uma delas, aliás, foi a primeira cantora que me veio a cabeça quando falei disso. Sua visão cínica e dolorosa sobre o amor a transforma numa das melhores cantoras da sua geração, sem baboseiras românticas, dancinhas ou roupinhas cor-de-rosa.  É, eu sou um pouco dela também. Aliás, pouco não, muito.

Confira o MySpace!

Quase desconhecidas

Meus artigos, na maioria das vezes, trazem artistas conhecidos, mesmo sendo do mundo da música alternativa. Há outros, entretanto, que não têm o mesmo êxito e fazem de tudo para divulgar seus trabalhos, seja através da mídia tradicional (rádio ou TV, além dos veículos impressos) ou de canais online, como MySpace, iLike e sites especializados. Hoje falo de duas cantoras de folk as quais merecem um destaque entre minhas descobertas: Kat Flint e Holly Throsby. 

Kat Flint - Dirty Birds (2008)

Kat Flint me surpreende pela sua dedicação em se lançar sozinha. Sim, sozinha porque só o fato de ter contrato com uma gravadora não significa que você terá todo o suporte - e patrocínio, principalmente - para divulgação. Sua única forma de promoção é a sua página do MySpace, que tem tudo o que você precisar dela: onde comprar os singles e os discos, shows, vídeos (oficiais e ao vivo), enviar e-mail ou se increver em newsletters, links do iLike e até do Twitter! E não pára por aí: ela não tem vergonha e pede no seu blog (do MySpace mesmo) ajuda para organizadores de eventos e promoters para expandir sua turnê.

Holly Throsby - A Loud Call (2008)

Comecei a ouvir Holly desde o seu álbum de estréia “On Night”, em 2004. Sua voz serena, junto de seu violão, me cativou no primeiro momento. Lembro que na época não encontrava muitas resenhas ou artigos falando sobre a moça australiana. O MySpace mais uma vez era a única fonte confiável que eu podia contar para saber de novidades. Como se fosse uma regra, seus discos foram lançados a cada dois anos, sendo que “A Loud Call” pareceu ter vindo com mais força e reconhecimento. Agora Throsby pode desfrutar de um site - mesmo que só tenha a frase “web site coming soon.” - e estampar com orgulho um poster da gravadora com elogios de revistas que entendem muito bem do assunto.

Dot Allison Goldfrapp

Não se assute com o título, é apenas um trocadilho com as duas cantoras de quem falarei hoje: Dot Allison e Allison Goldfrapp. Ambas divulgaram trabalhos cuja sonoridade me surpreendeu: Dot, além de seu longo sumiço, voltou mais serena e deixou para trás seu lado eletrônico; Goldfrapp, depois do agitadíssimo (e também pop) “Supernature”, resgatou seu estilo registrado no primeiro disco “Felt Mountain”.

Goldfrapp - Seventh Tree (2008)

Goldfrapp, apesar de levar o sobrenome de Allison, foi o nome escolhido para o dueto com Will Gregory, colaborador nos teclados e sintetizadores (ele já tocou, inclusive, com artistas dos anos 80, como Tears For Fears, Peter Gabriel e The Cure). As preferências musicais se entrelaçaram e, em 2000, foi lançado o primeiro trabalho da dupla, “Felt Mountain”. As músicas, dignas de canções de ninar, revelam vozes sussurantes e melodias que parecem intermináveis. Essas características prevaleceram até o segundo álbum, “Black Cherry”, porém com algumas faixas mais animadas (Train e Strict Machine são os melhores exemplos). O disco seguinte, “Supernature”, é que provou a mudança quase radical no som dos dois: músicas pop e dançantes com refrões fáceis, típicos para não sair da cabeça de quem ouve pela primeira vez.

No quarto álbum de estúdio, a começar pelo primeiro single A&E,  a impressão é de que Goldfrapp resgatou as canções do primeiro disco. Toda a agitação pop desaparece desde quando você vê Allison fantasiada de coruja (veja a foto do perfil no MySpace dela) e uma paisagem bucólica como pano de fundo. A tranquilidade reina em todas as faixas, sendo que algumas tentam seguir o sentido contrário, como em Happiness - contudo, o ânimo da melodia remanesce só por conta da letra da música (make it better / we’re here to welcome you).

Dot Allison - Exaltation Of Larks (2007)

Dorothy Allison, mais conhecida por Dot, já tinha sua carreira iniciada com a banda One Dove, a qual não vingou. Mais no final da década de 90, Allison retornou em produção solo com “Afterglow”, cujas faixas se enroscam nas batidas eletrônicas de uma maneira pop, já que ela é fã do gênero musical e uma antiga frequentadora de clubes de house. Sumida desde 2002, quando lançou o segundo álbum “We Are Science”, pensei que Dot tivessse desistido de cantar. Em 2003 ela até chegou a fazer um tour com o grupo de trip-hop Massive Attack, em substituição aos vocais de Sinead O’Connor e Liz Frasier do extinto Cocteau Twins, mas depois disso ela sumiu do mapa.

Mesmo com esperanças nulas, Allison voltou à cena ano passado e, para minha surpresa, com um disco completamente diferente. Nem me arriscaria a dizer que se trata de um trabalho eletrônico, pois todas as músicas são praticamente acústicas. Os arranjos orquestrais e de percussão dão o toque final para elevar sua alma ao nirvana ? ou pelo menos deixar você em bem-estar mental e físico. Digo isso porque só pela primeira música, Allelujah, você entra nesse clima de plenitude celestial e termina com indagações sobre a vida (uma rápida reflexão, diga-se de passagem) com The Latitude And Longitude Of Mystery. Espero que da próxima vez ela não desapareça sem dar notícias.