Vem de longe a idéia de que o mundo é uma dicotomia. Ou somos bons, ou somos maus! Ou somos de esquerda, ou somos de direita. Ou vencemos, ou perdemos. Ou criamos, ou destruímos. Mas, ainda bem, já existe gente que pensa que o mundo não é tão simples assim. (Aqui mesmo na NossaVia, o Gustavo Gitti escreveu um texto brilhante sobre isso.) Além de criar uma relação equivocada com o conceito de “culpa”, esse tipo de pensamento só serve para aqueles que querem controlar os outros através de noções simplistas sobre o que é certo/errado, sobre o que é de bom/mau gosto.
Dentro dessas criaturas que nos ajudam a perceber maiores nuances sobre a vida está o artista plástico estadunidense Mark Ryden. Ao mesmo tempo Pop, Surrealista e Underground, já há algum tempo se transformou no queridinho da mídia e dos artistas do mainstream hollywoodiano (ou seja, ele é mesmo uma contradição em pessoa!).
Com obras que misturam a inocência infantil com situações bizarras e, por vezes, grotescas, ele vai criando uma série de estranhamentos para aqueles que observam seus trabalhos. Ao mesmo em tempo que somos atraídos pela singeleza das composições, ficamos incomodados com a quantidade de mensagens subliminares que estas mesmas composições contêm.
Um caldeirão que engloba garotinhas frágeis, clima de contos de fadas, referências Pop (desde ‘Alice no País das Maravilhas’, passando por Christina Ricci, Leonardo diCaprio, Björk, Jimmy Hendrix, entre outros), carne, sangue, numerologia, mitologia Budista e Cristã.
E, o que é melhor? O trabalho dele nunca cai no óbvio! Nunca cai no fácil que busca somente chocar e causar alvoroço. Afinal, este senhor de 44 anos, pai de duas filhas, é divorciado e formado pelo Art Center Designer de Pasadena, Califórnia. Em vários momentos suas pinturas lembram quadros renascentistas pela utilização da luz e pela disposição das composições, mostrando que o autor tem conhecimento sobre o que faz e abusa da sofisticação.
Mark Ryden vê o mundo com os olhos da ironia. Nos coloca frente a sensações dispares e parece se divertir com o que provoca.
Se este tipo de “provocação” não é o mínimo que podemos esperar de alguém que se diz artista, então não sei o significado desta palavra.
Suas pinturas me falam de todas as formas de violência que conheço e ao mesmo tempo fico impressionado com a beleza do seu trabalho. E este não parece ser o mesmo fascínio que determinados tipos de literatura e ou situações criam? Ao apostar na dualidade que existe em todo ser humano, Mark Ryden acerta em lugares muito mais profundos que nossa moral cristã estabelecida. Encontra ecos em nosso subconsciente… em terras longínquas que , às vezes, relutamos em reconhecer, mas que habitam em nós, queiramos ou não!

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