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Archive for the ‘Literatura’


31 de Outubro - Dia do Saci Pererê

As crianças de hoje deveriam conhecer mais o nosso Folclore. Ele é riquíssimo. Não que eu seja contra a entrada do Halloween, nem poderia, sendo o Brasil tão plural. Mas pertencendo a uma geração que teve como um grande Mentor as Obras de Monteiro Lobato, mais precisamente o Sítio do Picapau Amarelo, me sinto motivada a transmitir esse legado a geração atual.

Pelas as histórias do Sítio, Monteiro Lobato nos levou a todo esse universo. Deixando em nós um carinho especial por cada um dos personagens do nosso Folclore. Inclusive a Cuca. Mas sendo hoje o Dia dele, do Saci, é melhor não falar nem o nome dela …rsrs

Então, mais que trazer sugestões de Filmes, deixo hoje uma homenagem ao Moleque Saci!

Muito divertido e brincalhão, o Saci passa todo tempo aprontando travessuras na matas e nas casas. Assustando viajantes, escondendo objetos domésticos, emitindo ruídos, assustando os animais… Mas com todas essas brincadeiras, ele não as praticava com o objetivo de prejudicar alguém ou fazer o mal.

Doce ou Travessuras!?
See you!

Maria do Matué - Uma estória do Rio São Francisco

Capa do livro

“Compositor do primeiro time brasileiro, cantor e instrumentista dos melhores, Tavinho Moura pode se orgulhar de uma carreira artística que prima pelo rigor estético, coerência e fidelidade a si mesmo e ao caminho escolhido. Sua contribuição para nossas vidas ultrapassa mesmo o prazer de ouvir suas belíssimas canções: ele tem sido um infatigável pesquisador, descobridor e divulgador da cultura mineira, e, com isso, tem nos despertado para a enorme riqueza, variedade, e possibilidades desse patrimônio maior de Minas Gerais, sua gente e a cultura que dela se origina.”

Assim define Leonardo Magalhães Gomes a Tavinho Moura, autor do livro Maria do Matué - Uma estória do Rio São Francisco que está sendo lançado hoje (20h) aqui em Florianópolis (no Teatro Álvaro de Carvalho) dentro da programação do Floripa Instrumental. E eu, junto com a atriz da Cia que integro, teremos o imenso prazer de estar partipando deste lançamento. Denise da Luz fará leitura de partes do belíssimo livro durante o show do mineiro, enquanto estarei fazendo a iluminação.

Mas, acima do trabalho artístico, está a satisfação por poder ler esta biografia imaginária, a história dessa mulher, essa “explosão de mineiridade, brasilidade e humanidade que se fixa em nossas retinas como cinema, literatura nova e sabedoria“, como diz Fernando Brant na contracapa do livro.

Um livro belíssimo, carregado de poesia e de uma escrita que cativa pela simplicidade e profundidade de suas letras. Na vida contada na primeira pessoa vemos diversos aspectos da vida de muitos brasileiros, vemos diversos aspectos de nós mesmos. Não que tenhamos passado pelas mesmas estórias, mas porque encontramos nesse movimento de uma vida, diversos movimentos que fazemos na tentativa de encontrarmos nosso lugar no mundo.

“Sempre chefiei minha vida; nenhum tropeço, ninguém, nem nada me tomou das mãos a rédea. Ando assustada com o que o tempo desfaz. Quando incomodada, fico encantoada, jururu feito passarinho na muda. Sempre fui cercada de muito respeito , mas querem me incutir a caduquice. Dizem que não sei falar direito as palavras, que sou Maria do mato, matueira, Maria do Matué, que fui parida numa lapa, junto à sujeira dos esqueletos na pedreira do Sangradouro do Gato. Onde se ajunta muita gente a pessoa perde valor, tem medo de ter opinião formada, é aí que o diabo se esbalda. ÿ lugar pra ter cachorro amarelo, mulher azucrinada, criada na fala alta, para aborrecer a cabeça da gente. (…)

Estou dentro dos meus noventa anos, não posso me levantar de susto nem deitar de uma só vez; um descuido, cochilão pega. ÿs vezes durmo no início da noite, acordo dentro dela. Fico beliscando essa fábrica de mim mesma, que está comigo há uma centena de anos. Ouço rumores, escuto meu coração; ainda no escuro, gosta de falar sozinho. Sinto, vejo, muita coisa vem na direção dos meus sentidos, até que a manhã clareia o dia e tudo esfumaça.”

Junto com o livro acompanha um CD intitulado Rua do Cachorro Sentado que, junto aos trechos do livro, é a base do show apresentado esta noite. O CD segundo as palavras do autor não é trilha sonora para a história de Maria do Matué: ?O CD é um universo paralelo, mas as canções falam sobre coisas de rio… Acaba sendo uma outra coisa dentro da mesma coisa?, explica o compositor. O nome do álbum foi baseado no antigo nome da rua onde Tavinho tem seu rancho, onde morava Maria do Matué.

E esta Maria do Matué existiu? Sim, seu nome também é Maria e viveu no rancho pesqueiro de Tavinho Moura em Barra do Guaicuí e faleceu em 2004, aos 94 anos. ?ÿ uma homenagem a esta senhora detentora de toda uma cultura de subsistência, uma coisa que está praticamente em extinção. Seu marido morreu quando era muito nova e foi ela que criou os filhos, ela que plantava, roçava e fazia tudo. Ela também detém um aspecto cultural porque toda a mitologia do rio (São Francisco) está presente na vida dela? explica o autor.

Outro aspecto que merece menção são as belíssimas ilustrações de Jorge dos Anjos que integrada ao projeto gráfico da Hardy Design, complementa brilhantemente o trabalho.

O cachorro em volta do incêndio

Para os mestres

Você nunca vai ver um cara digitar tão rápido com uma mão só como digitava Xavier. Quando perdeu parte do braço direito na guilhotina da gráfica, só se usavam máquinas de escrever nas redações. Agora, com teclados, era moleza para ele.

Ensinou-me tudo o que eu sei sobre jornalismo. E dizia que a sua mão direita, ausente, ensinou-lhe tudo o que ele sabia. Aprendeu a não anotar nada enquanto entrevistava alguém. Anotava depois da entrevista ou a escrevia sem anotações mesmo. Se uma coisa era importante não precisava disso. Ficava na memória e pronto. Se não era, por que colocá-la no jornal? De qualquer modo, como não gostava de prender o telefone entre a cabeça e o ombro durante as conversas, não tinha opção. Segurava ou o fone ou a caneta. Estendeu daí o hábito para todas as suas matérias.

Certa vez, ao me ver ir para uma reportagem com o papel e caneta me chamou para um canto:

- Imagine se nós dois começássemos a conversar. Sobre garotas.

- Certo.

- Agora imagine que eu tiro um bloco do bolso e começo a anotar as coisas que você fala.

- Sim…

- Acho que isso não vai ser uma conversa íntima, certo?

As pessoas não confiam em gente com cadernetas e gravadores. O melhor jeito de conseguir informações importantes é sem essas ferramentas amadoras.

No primeiro dia em que eu pisei no jornal me disseram que eu iria ser seu assistente ou coisa assim. Levantar números e a grafia correta dos nomes enquanto ele ia atrás das coisas realmente importantes. Não importa se uma pessoa se vendeu por 10 ou 10 mil dinheiros. O que vale é o que há por trás disso. O valor é praticamente irrelevante diante da informação verdadeira de que alguém se vendeu por ele. E ele sabia como conseguir esse tipo de informação.

Eu, portanto, ficaria com a parte burocrática da coisa: quanto investe por ano determinado órgão público, se o nome de tal político é com um ou dois eles, a distância entre duas cidades.

No primeiro dia, subi as escadas e perguntei por ele. Apontaram-me um sujeito de paletó. A manga direita dobrada alinhadamente em direção ao ombro. Puxei uma cadeira e sentei ao seu lado. Ele pareceu não me ver. Digitava daquele jeito, sem recuos, como se o texto já saísse pronto de seus cinco dedos. De repente, parou:

- Você precisa me ver com os malabarismos nos semáforos. Sou muito melhor.

Fiquei pouco mais de um mês na sua cola, aprendendo a fazer as coisas mais pela observação do que pelo que me explicava. ÿs vezes me avisava de problemas com meu texto quando lhe preparava alguma notinha menor ou então dava dicas de como me dirigir às pessoas para fazê-las falar.

Eu já estava há algum tempo na equipe e já tinha eu mesmo conseguido algumas manchetes quando apareceu um almofadinha desses recém-saídos do curso de pós-graduação a fim de ensinar o Xavier a escrever:

- Xavier, esse seu texto está muito enrolado. Tem que ser mais direto. Diz o quê, quando, onde, como, quanto já no primeiro parágrafo e pronto.

- Você consegue escrever assim, garoto?

- Claro…

- Jamais duvidei. E tem orgulho disso?

Xavier acreditava numa história bem contada. Para ele, quem quer velocidade não compra jornal. Vai ver tevê ou escutar rádio. Quem gosta de palavras, quem gosta de ler, prefere as frases encadeadas de uma maneira que não deixe largar o jornal até que chegue o fim do texto.

Ele ficava meio amargurado ao ver que cada vez mais seus colegas deixavam de ser jornalistas para se transformarem em meros relatoristas. O escrivão mais reba de qualquer delegacia faria esse tipo de trabalho melhor e com mais precisão.

- Pense no cachorro, filho.

Eu gostava quando, às vezes, me chamava de filho. O cachorro era uma metáfora que ele usava para explicar o ponto de vista inusitado que toda matéria poderia ter. Num incêndio, por exemplo. Enquanto os relatoristas cuidariam de descobrir qual o tamanho de prejuízo, a duração do incêndio, a razão de ter começado, o melhor era procurar o cachorro. No cachorro que corre em volta das chamas pode haver toda a paixão e interesse humano necessários para uma boa história.

- As pessoas não querem saber até que altura iam as chamas. Não se interessam nem pelo número de vítimas. Isso tudo você pode contar no meio do texto. Mas o que elas querem saber mesmo é por que o cachorro corria em volta do incêndio. Será que ele tinha filhotes lá dentro? Era amigo de uma vítima? Qual o nome do bicho? Toda matéria tem um cachorro.

Como eu contei, Xavier perdeu parte do braço na guilhotina da gráfica, próximo à rotativa. E foi a única vez em seus quase quarenta anos de jornalismo que ouviu a famosa expressão para parar tudo. Ele não devia estar ali. Foi chamar um colega para tomar um café. Tropeçou e a lâmina baixou. Foi uma coisa tola e sem graça, ele mesmo dizia.

Lembro do dia da aposentadoria dele. Ninguém deu muita bola. Despediu-se de alguns colegas mais antigos, dois ou três e de mim, que já completava cinco anos ali. Os outros eram novatos. Verdadeiros relatoristas compatíveis com as necessidades do mercado. Ou com as necessidades que o mercado achava que tinha.

Alguns anos antes de ele morrer, encontrei-o e fomos tomar café. E veio uma pergunta, do nada. Não era algo sobre o que eu pensasse normalmente. Apenas pipocou na minha cabeça.

- Então, Xavier… por que o cachorro corre em volta do incêndio?

- Sei lá. Deve ser um desses vira-latas malucos da rua… - e me deu um tapinha na cara. Tive a impressão que foi com a mão direita.

Que as asas da liberdade jamais percam suas penas*

Muito tem se falado sobre o que os blogs devem publicar e como devem publicar.

Pouco tem se falado sobre o que os blogs podem publicar e como podem publicar.

Falar de ÿtica sem falar de liberdade é algo que me cansa. Aliás, deveria cansar qualquer um. Mas pelo visto há uma certa preferência sadomasoquista em se falar de um tema sem que ele seja amalgamado pelo outro.

Existe um livro do filósofo Fernando Savater chamado ÿtica Para Meu Filho. ÿ um livro que todos deveriam - ou poderiam - ler. Por tratar de um tema tão complexo quanto ÿtica de maneira simples sem, no entanto, menosprezar o leitor. Não é um “ÿtica Para Leigos” ou coisa assim. Afinal, ÿtica é uma coisa tão inabarcável por definição que chega a ser contraditório fazer um manual para ela. Uma ética, uma verdadeira ética, não tem regras fechadas.

O fato é que uma palavra muito presente nesse livro é liberdade.

Para começar a explicar a seu filho do que se trata a ÿtica, Savater usa um exemplo marcante. Se você assistiu Tróia ou leu A Ilíada sabe que a certa altura Aquiles vai até os muros da cidade sitiada buscar sua vingança contra o nobre Heitor, que matou o homem que amava.

Uma formiga, quando um inimigo, um besouro por exemplo, invade o formigueiro, precisa enfrentá-lo. Não porque ela goste do formigueiro, não porque ela deteste o besouro. Não porque é nobre. Acima de tudo, não porque ela escolheu. Mas porque está na natureza dela.

Ela não tem escolha.

Heitor, ao ver o invencível Aquiles nos portões de sua cidade, tinha. Poderia ter fugido, ter ficado junto aos seus, se escondido. Mas escolheu o enfrentamento independente dos resultados. Mas aceitando qualquer um dos resultados possíveis.

A formiga e Heitor tiveram ações similares. Mas apenas a de Heitor teve um teor ético, isto é, apenas a dele pode ser julgada eticamente. Pois ele exerceu a liberdade de escolher. E, depois dela, efetivou a escolha propriamente dita. E, depois ainda, sofreu as conseqüências e, se tivesse permanecido vivo, teria assumido as responsabilidades por essas conseqüências.

Os humanos estão envoltos por um círculo cujos pontos principais são esses. Liberdade, escolhas, conseqüências, responsabilidades, que nos levam de volta à liberdade.

Note que nem uma coisa e nem outra vem primeiro: uma pessoa já nasce com todas essas coisas. Mas quem coloca a liberdade em primeiro lugar pode se tornar um libertino. Quem prioriza as responsabilidades (em geral a dos outros), pode se tornar um ditador ou um escravo. E extirpar qualquer um desses atributos é desumanizar ou matar. Como quem arranca um fígado ou um coração.

Assim, um blog - um blog sobretudo -, como manifestação mais - ou menos - individual e humana deve ser também uma manifestação dessa liberdade e dessa responsabilidade.

Dizer como um blog deve ser ou como não deve ser é retirar um de seus atributos éticos, um de seus atributos humanos, transformando o tal círculo em uma linha torta.

ÿ menosprezar a capacidade de um editor de um blog escolher e defender o que julga certo ou errado, seja o modo como escreve, seja sobre o que escreve ou como escolhe remunerar o que escreve. ÿ menosprezar também a capacidade de o leitor escolher o que deve ler, o que não deve ler. Estima a capacidade crítica de ambos em níveis igual a zero.

Acima de tudo, algo assim iguala as atitudes mais éticas às menos éticas. Tudo passa a ter o mesmo valor. Quando tudo é igualado por regras externas ao homem, limitando suas escolhas, ele - no caso, o editor de blogs - deixa de ser Heitor - o herói grego - e passa a ser a formiga.

Aquele inseto minúsculo.

Heitor deve ter esmagado algumas enquanto, corajosamente, caminhava em direção ao destino que escolheu.

* Creio que a frase do título é uma fala do filme Os Aventureiros do Bairro Proibido, de 1986.

Em busca de uma identidade…

Estudar o período Barroco nos leva de encontro a algumas importantes considerações - porque se olharmos para este estilo em seu conjunto, podemos verificar suas qualidades formais que servem para uma interpretação do mundo na qual a aparência mutável da realidade se sobrepõe à visão da beleza ideal imutável. (more…)