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Archive for the ‘Literatura’


Poetas de rua

Confesso que minha reação aos poetas de rua nunca foi das melhores. Você sabe, aqueles sujeitos que param você na rua e perguntam se você gosta de poesia. ÿ uma questão difícil, admito.

Difícil porque, para responder não, você terá de superar o medo de passar por tosco na frente de um ser lapidado. Ou, melhor, por ignorante bruto na frente de outro ignorante, porém mais delicado. E, se responder sim, vai abrir caminho para que o tal poeta lhe ofereça fotocópias grampeadas de seus originais ao módico preço de cinco reais ou tanto quanto ele ache que elas valham. (more…)

Os caminhos da escrita…

Encerrando o tema Quinhentismo - começo salientando que os primeiros passos da escrita no Brasil são contestados por muitos que afirmam que os documentos históricos (carta de Pero Vaz - escritos do Padre Anchieta) em nada acrescentam a literatura brasileira. Ao lançar vôo sobre a história do Brasil e os caminhos das escritas brasileira formei uma opinião bem pessoal quanto a isto - uma vez que acredito que não haveria literatura sem tais documentos.

ÿ obvio que os primeiros passos da escrita em solo brasileiro contribuíram para o futuro da literatura no Brasil e para isso, basta dar um salto no tempo e verificar que os escritos produzidos no século XVI serviram de referência para a literatura brasileira como um todo.

As descrições da natureza exuberante e dos hábitos dos nativos podem ser vistas como embrião do Nativismo, decisivo para as manifestações literárias do Barroco e do Arcadismo (que irei abordar nos próximos posts).

A imagem do índio como símbolo nacional, empregada por autores do Romantismo - também remonta às produções desse período. Até a primeira geração modernista, no intuito de apresentar novos padrões para o nacionalismo literário, apropriou-se da obra de autores do século XVI. ÿ o que podemos verificar em Macunaíma, livro em que Mário de Andrade ironiza a carta de Caminha no capítulo Carta prás Icamiabas, e em diversos poemas de Oswald de Andrade.

Estávamos ainda abatidos por termos perdido a nossa muiraquitã, em forma de sáurio, quando talvez por algum influxo metapsíquico, ou, qui lo sá, provocado por algum libido saudoso, como explica o sábio tudesco, doutor Sigmundo Freud (lede Fróide), se nos deparou em sonho um arcanjo maravilhoso. Por ele soubemos que o talismã perdido estava nas diletas mãos do doutor Venceslau Pietro Pietra, súbdito do Vice-Reinado de Peru, e de origem francamente florentina, como os Cavalcantis de Pernambuco. E como o doutor demorasse na ilustre cidade anchietana, sem demora nos partimos para cá, em busca do velocino roubado. As nossas relações actuais com o doutor Venceslau são as mais lisonjeiras possíveis; e sem dúvida mui para breve recebereis a grata nova de que hemos reavido o talismã: e por ela vos pediremos alvíçaras.
(Trecho da ?Carta pras Icamiabas? , Mário de Andrade - Macunaíma. São Paulo: Livraria Martins, 1976)

A crônica histórica e os textos de informação produzidos nas primeiras décadas da colonização brasileira talvez não apresentem realmente alguma relevância estética e tão pouco definam a expressão literária de uma época, contudo, é preciso salientar que tal produção é realmente fundamental para os escritores de momentos posteriores interessados em reavaliar o conceito da escrita brasileira e definí-la diante da invasão européia.

Em Piratininga, futura São Paulo, entre 1567 e 1570, Anchieta encenou o auto bilíngüe Pregação Universal, considerado o primeiro trabalho dramático escrito no Brasil. Assim como o dramaturgo português Gil Vicente, Anchieta criou autos religiosos em que convivem diabos e santos, anjos e personificações alegóricas, Cristo e a Virgem, soldados e mercadores, índios e padres jesuítas. Os diabos têm nomes tupis (Saraiúva, Aimbirê, Guaixará) e surgem em cena pintados de vermelho, emplumados e tatuados, falam tupi, fumam e se embriagam, declaram-se antropófagos e assassinos, adúlteros e luteranos.

Anos mais tarde, Mário de Andrade cria um herói brasileiro, “Macunaíma” é um dos livros mais importantes da literatura brasileira: causou rupturas nas narrativas de tempo, espaço e composição de personagem - houve ainda uma ruptura lingüística, misturando o culto e o popular, o urbano e o regional, o escrito e o oral, contribuindo para o estabelecimento de uma “fala brasileira”. O texto ainda permite uma reflexão crítica sobre a personalidade do homem brasileiro.

O fato é que Macunaíma se inscreveu como parte de nossa cultura, incitando polêmicas, desdobramentos em todas as gerações e segue sendo uma literatura atual que embora tenha sido lançada em 1928 - sua história tem inicio juntamente com os primeiros passos da escrita em terras brasileiras.

ÿ fato, portanto, que em mais de um momento a escrita brasileira, procurou nas raízes da terra e do nativo uma forma de reação contra os estilos e tendências que aqui chegavam. Foi através dessa “literatura” tida como brasileira que os cronistas voltaram a ser lidos, e até glosados, tanto por um José de Alencar romântico e saudosista como por um Mario ou um Oswald de Andrade modernistas. Por isso, é totalmente inadequado dizer que não existe valor nessa literatura de informação.

O Brasil das Missivas…

Embora a história literária do Brasil seja pouco conhecida, acho que a maioria já ouviu falar de Pero Vaz de Caminha e da carta que ele redigiu a D.Manuel, conhecido como o venturoso. Contudo, pouco se comenta sobre o conteúdo dessa carta, que na verdade é uma relíquia literária.

Imagine, toda a história literária de um país ter como inicio uma simples missiva. Pero Vaz de Caminha recebeu da mão do amigo D.Manuel a incumbência de ser o cronista da viagem que tinha como destino as terras brasileiras.Tal viagem durou 54 dias e Pero Vaz procurou anotar tudo que se passou desde a saída de Lisboa até a chegada ao Brasil - no dia 22 de abril do mesmo ano.

Na sua crônica de 14 folhas em um papel de florete”, detalhou essa viagem, muitas vezes com coisas pitorescas, outras com poesias, falando desse local, dessa terra de árvores e florestas, onde os homens andavam nus.

Nossos homens ficaram deslumbrados,
por ver terras que possuem tanta pureza
E ter gentes de belos corpos pardos,
de bons rostos e narizes, que lhes dão fineza

A carta de Pêro Vaz de Caminha, seguiu para Portugal no dia 02 de maio de 1500, e ficou escondida na Torre do Tombo por dois séculos e meio. Só foi descoberta em 1773 e publicada em 1817.

Esse documento, embora seja uma simples missiva, trata-se de uma Certidão de Nascimento do Brasil - uma certidão que trás uma narrativa rica em detalhes que enfatiza a beleza e a riqueza local. Nenhum outro país tem um documento feito a mão como este.

SENHOR, Posto que o Capitão-mór dessa vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova de achamento desta vossa terra nova, que nesta navegação agora a achou. Não deixarei também de dar minha conta a Vossa Alteza, o melhor que eu puder, ainda que para o em contar e falar, o saiba fazer pior que todos.

Tome Vossa Alteza, porém, minha ignorância por boa vontade, e creia bem por certo que, para alindar nem afrear, não porei aqui mais do que aquilo que vi e me pareceu.
(…)

Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra eu vi. E, se algum pouco me alonguei, me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo dizer, me fez pôr assim pelo miúdo. Beijo as mãos de Vossa Alteza,

Deste Porto Seguro, da vossa Ilha da Vera Cruz, hoje sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.


Gosto de imaginar o olhar de Caminha caso desembarcasse nessas terras nos dias atuais. Me demoro nessa busca singular, onde tento imaginar quais seriam suas palavras, suas definições, suas interpretações para esse mundo após todos esses anos.

Contudo, divido com vocês a minha imaginação e os convido ao inusitado - transcrever um documento literário a partir da impressão de vocês sobre a cidade onde vivem. Apoderem-se da ilusão do olhar estrangeiro que chega a uma nova terra e revele-as para olhares iguais aos de tantos que tiveram a enriquecedora experiência da troca.

Afinal, muito antes da moda dos e-mails e blogs havia o hábito da escrita através de folhas, envelopes e selos e foram muitas as vezes, que pessoas como eu e você usaram do argumento da narrativa para descrever paisagens, lugares, momentos através de uma simples missiva - formato este que deu início a literatura de um país que surpreende pelos mais diferentes aspectos.

O amor - o verdadeiro amor - pela cidade

O amor por uma cidade - aquela em que se nasceu ou em que se criou -, o amor pela terra natal é algo muito mais complexo e simples e completo e terno e decepcionante que querem nos fazer crer os inventores dos amores oficiais.

A ponto de ser rejeitado onde os amores oficiais imperam e ser comum a resposta com o discurso do ódio a qualquer manifestação de decepção.

A decepção pode fazer parte de um amor, pois quem ama com ímpeto e dedicação é capaz de amar mesmo com elas, as decepções. Mas elas, as decepções, não são aceitas pelos amores oficiais.

Falo de uma cidade, mas poderia falar de um país.

Toco nesse assunto porque recentemente, lendo o livro Desperta e Lê, de Fernando Savater, lembrei de longas e saudosas conversas que tinha com meu amigo Paulo e algumas delas tratavam do tema Curitiba.

Falo de Curitiba, mas poderia falar de qualquer outra cidade.

Acontece que aqui existe uma tendência aos extremos no que se refere a ela, a cidade.

Os que a idolatram, com o amor oficial que a tudo cega, tendem a rechaçar os que a odeiam.

Os que a odeiam com o ódio oficial, que também a tudo obscurece, tendem a desdenhar aqueles que a idolatram.

Os que a amam ficam no meio e, quando apontam uma decepção ou então apontam algo mimoso, são rechaçados pelos primeiros e desdenhados pelos segundos respectivamente. Fogo cruzado.

Isso é desnecessário. Os extremos são coisas inventadas. Os extremos costumam ser úteis só às lanças, essas armas fora de moda. Na vida das pessoas, são o que pode ser chamado de mentiras.

Mas volto ao trecho de Savater que me despertou para essas conversas já um tanto antigas e, no entanto, claras na memória.

Ele fala de um quadro de Vermeer. Nele, o pintor holandês retrata a cidade em que nasceu, Delft.

Seria ridiculamente pretensioso de minha parte (…) oferecer uma nova chave conjectural da tranqüila maravilha que nos fascina nessa tela. Certas coisas é preciso ver. E basta vê-las. Apesar de que, se algum amável impertinente me perguntar, sussurrarei que Vermeer soube pintar a terra natal. Não simplesmente sua terra natal, mas a emoção da terra natal em si mesma, a dele, a minha, a de todos. O cenário da infância, o rincão insubstituível em que a vida se manifestou para nós. Algo simples, terrível como a fatalidade, feito de gozo, de rotina e de lágrimas.

E, pouco mais adiante, está onde quero chegar: a apreensão relativa ao comportamento que se testemunha nos amores e ódios oficiais, que tentei expressar em palavras, e creio que o meu amigo também em um ou dois artigos. Mas Savater só precisou da observação atenta a um quadro e de alguns parágrafos.

A habilidade do artista não se contenta em reproduzir uma paisagem, mas o suave carinho que sua contemplação desperta em nós (…). E essa emoção nada tem a ver com as contendas políticas nem com o orgulho pratiótico. O ruim do nacionalismo - uma das coisas ruins, porque ele tem muitas - é que ele transforma a melancólica afeição pela terra natal em justificação de um projeto institucional que não sabe se justificar de outro modo. Quer degradar uma forma de amor a documento nacional de identidade.

Não digo que a coisa chegue a tal ponto por aqui ou em outras cidades. Savater porém continua.

Pior ainda: a visão nacionalista não aceita a terra natal tal como ela é, em sua limitação e sua impureza reais, mas exige seu referendo a partir de um ideal passado ou futuro que extirpe dela o que não se ajusta ao plano preconcebido. O nacionalista não vê nem ama o que há, mas calcula o que sobra ou o que falta ao que de fato existe.

Creio que minha apreensão - que antes eu tinha e que hoje, confesso, nem me preocupa mais -, derivava de imaginar que minha cidade pudesse sequer se tornar terreno fértil para qualquer projeto do gênero. Exagero meu, meu caro.

Posso amar andar no calçadão da Rua 15 de Novembro e ao mesmo tempo falar mal daquilo que foi permitido que o comércio dali se tornasse sem que, para isso, precise abandonar a cidade.

Posso passar em frente do Savoy, onde meu pai me levava para tomar sorvete de chocolate naqueles que são os momentos mais mágicos da minha infância, e suspirar um pouco chateado. Pois as pessoas ali em torno talvez jamais compreendam isso. Mas sem desejar que, por tal motivo - tão individual - elas saiam dali.

Falo de amor, mas poderia falar de qualquer outro sentimento nobre.

Literatura jesuíta

Tão logo chegaram, os Jesuítas que eram integrantes da companhia de Jesus (uma ordem cristã que não media esforços para expandir fé cristã - fosse na Europa ou em terras além mar) passaram a empenhar-se na conversão religiosa do índios que aparentemente achavam suas atitudes curiosas. A esse movimento, deu-se o nome de Literatura Jesuíta (como ficou conhecida). A catequização dos índios ocorreu por meio do teatro popular com aspecto moral e religioso, sermões, poemas, crônicas e hinos religiosos.

Pe. Manuel da Nobrega foi ordenado pela Companhia de Jesus em 1554. Embarcou na armada de Tomé de Sousa em 1549. Foi amigo e conselheiro deste, como também o foi de Mem de Sá, a serviço da Coroa. Ele recebera de Mem de Sá a missão de dedicar-se à catequese dos indígenas na colonização do Brasil. Com ele vieram também os Padres jesuítas Leonardo Nunes, João Aspilcueta Navarro, Antônio Pires e os irmãos jesuítas Vicente Rodrigues e Diogo Jácome.

Assim que aportou deu início ao trabalho de catequese dos indígenas - desenvolvendo uma intensa campanha contra a antropofagia existente entre os nativos e ao mesmo tempo combatendo a sua exploração pelo homem branco. Participou da fundação das cidades do Salvador e do Rio de Janeiro e atuou na luta contra os Franceses como conselheiro de Mem de Sá.

Seu maior mérito, além de constantes viagens por toda a costa, de São Vicente a Pernambuco, foi estimular a conquista do interior, ultrapassando e penetrando além da Serra do Mar. Foi o primeiro a subir ao planalto de Piratininga, para fundar a vila de São Paulo.

Foi Nóbrega quem solicitou ao rei de Portugal, Dom João III, a criação da primeira diocese no Brasil, em conseqüência desse pedido, Dom Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil, foi enviado para Salvador. Em 1558, convenceu o governador Mem de Sá a baixar “leis de proteção aos índios”, impedindo a sua escravização.

Foi nomeado provincial da Companhia de Jesus, no Brasil.

Pe. Manuel da Nóbrega deixou duas obras: “As Cartas do Brasil”, conjunto de cartas em que descreve a terra, os índios e dá conselhos sobre como o colonizador deveria trabalhar na nova terra. Um rico material histórico que permite a qualquer interessado, conhecer um pouco da “longiqua” história da “terra nova”.

Em “Diálogo da Conversão do Gentio” é onde se consegue verificar pretensões literárias. Escrita na forma de um diálogo (forma literária valorizada na Idade Média e por Platão) no texto encontram-se dois interlocutores: Gonçalo Álvares, curador dos índios, e Mateus Nogueira, religioso.

Os dois personagens eram vivos à época de Nóbrega, mas a obra não é apenas uma transposição da conversa de dois homens vivos. Antes, tudo no texto, parece criação de Nóbrega, inclusive o estilo de cada interlocutor.

Esse recurso de se basear em personagens verdadeiros era comum no teatro medieval, o que corrobora as pretensões literárias na obra de Pe. Manoel da Nóbrega.

Trecho de “Diálogo da Conversão de Gentio”:

Gonçalo Álvares ? Estes têm alma como nós?

Mateus Nogueira ? Isso é claro, pois a alma tem três potências, entendimento, memória, vontade, que todos têm. Eu cuidei que vós éreis mestre já em Israel, e vós não sabeis isso! Bem parece que as teologias, que me dizíeis arriba, eram postiças do P. Brás Lourenço, e não vossas. Quero-vos dar um desengano, meu Irmão Gonçalo Álvares; que tão ruim entendimento tendes vós para entender o que vos queira dizer, como este gentio para entender as coisas de nossa fé.

Gonçalo Álvares ? Tendes muita razoa, e não é muito, porque eu ando na água aos peixes-bois e trato no mato com brasil. Não é muito ser frio! E vós andais sempre no fogo, razão é que vos aquentais. Mas não deixeis de prosseguir adiante, pois uma das obras de misericórdia é ensinar aos ignorantes.

Mateus Nogueira ? Pois estai atento. Depois que nosso pai Adão pecou, como diz o salmista, não conhecendo a honra que tinha, foi tornado semelhante à besta, de maneira que todos, assim portugueses, como castelhanos, como tamoios, como aimorés, ficamos semelhantes a bestas por natureza corrupta, e nisto todos somos iguais, nem dispensou a natureza mais com uma geração que com outra, posto que em particular dá melhor entendimento a um que a outro. Façamos logo do ferro todo um, frio e sem virtude, sem se poder volver a nada, porém metido na forja, o fogo o torna que mais parece fogo que ferro; assim todas as almas, sem graça e caridade de Deus, são ferro frio sem proveito, mas quanto mais se aquenta no fogo, tanto mais fazeis dele o que quereis. E bem se vê em um, que está pecado mortal, fora da graça de Deus, que para nada presta das coisas que tocam a Deus, não pode rezar, não pode estar na igreja, a toda a coisa espiritual tem fastio, não tem vontade para fazer coisa boa nenhuma; e se por medo ou por obediência, ou por vergonha a faz, é tão tristemente e tão preguiçosamente, que não vale nada, porque está escrito que ao dador com alegria recebe Deus.”

( O quadro que ilustra o post é Partida de Estácio de Sá, de Benedito Calixto, e mostra Pe. Manuel da Nóbrega benzendo a esquadra que vai combater os franceses.)