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Archive for the ‘Política’


Cenas da desordem urbana

Cena 1: Uma questão de autoridade

Como sempre faço depois do almoço, dou uma caminhada pelas ruas do centro do Rio, visitando as livrarias ou simplesmente andando sem rumo. Estava na esquina da Rua do Rosário com Carmo quando vi uma cena típica da desordem administrativa que o Rio vive. O camelô estava tranqüilo vendendo suas bugigangas, quando uma viatura policial se aproximou e parou ao seu lado. O camelô se virou para o policial e gritou: “Se manda rapaz, eu estou na proteção”. O policial ficou parado e o camelô insistiu, aumentando o volume da voz: “Você não me ouviu, eu estou na proteção! Se manda logo, você está atrapalhando o meu negócio”. O policial pisou no acelerador e se mandou. Ainda existe autoridade nesta cidade? Se ainda existe, ela mudou de lado e está nas mãos dos contraventores.

Cena 2: O segurança do PAC

Os jornais locais noticiaram com espanto que um conhecido e perigoso traficante foi contratado como segurança de uma das obras do PAC em uma das favelas do Rio. Só não entendi o espanto. Se os traficantes já controlam as favelas; determinam os horários de funcionamento do comércio, hospitais e escolas; expulsam ou matam os moradores inconvenientes; nada mais natural que assumam a segurança das obras do PAC em todas as favelas.

Cena 3: O descrédito das instituições

A mãe estava com o filho pequeno na fila do banco. O garoto viu os seguranças e perguntou: “Mãe, quem são aqueles homens armados, são polícias?” A mãe explicou que eram seguranças do banco e que estavam ali para impedir que o banco fosse assaltado.

“Então se os bandidos tentarem roubar o banco, eles prendem e fazem o quê?” - perguntou o garoto.

“Eles chamam a polícia, que leva os bandidos presos” - respondeu a mãe.

O garoto: “Bom mãe, depois de alguns dias a polícia solta os bandidos e eles voltam ao banco para roubar, não é?”

Com o sim da mãe, o garoto concluiu: “Então por que os seguranças já não matam os bandidos aqui mesmo?”

Com muita razão, você se preocupa com a corrupção em todos os níveis de governo e com a tolerância e subserviência dos governantes aos desmandos e violências contra as nossas instituições. Mas o que também me preocupa são as contravenções rotineiras que se passam nas ruas, nos lares e nos locais de trabalho. Elas revelam a que ponto chegamos no desprezo pelos valores morais e éticos e no descrédito de nossas instituições.

As palavras do garoto no banco me preocupam e amedrontam. Como todos os outros de sua geração, este garoto crescerá descrente das instituições democráticas. Ele e seus contemporâneos tornar-se-ão presas fáceis de demagogos com propostas fascistas adornadas com promessas de ordem, eficiência e segurança.

A descrença na justiça mostrada no raciocínio do garoto no banco me faz refletir sobre as palavras que Shakespeare coloca na boca de Brutus na peça Julio Cesar:

“Consideremo-lo ovo de serpente

que, chocado, por sua natureza,

tornar-se-á nocivo.

Assim matemo-lo enquanto está na casca.”

Brutus se referia à ameaça que as ambições de Cesar representavam para as instituições romanas e para a liberdade. De nada adiantou matar Cesar, pois a serpente já havia saído da casca e espalhado seus ovos. Depois de mais de 50 anos de corrupção e desmandos, os romanos já tinham perdido a confiança no Senado e nas outras instituições da República. Ansiavam por um líder forte e autoritário que colocasse a casa em ordem. Pouco depois do assassinato de Cesar, seu sobrinho-neto Otávio toma o poder, submete o Senado e inicia o regime imperial. É declarado Deus pelo Senado submisso e governa com poderes absolutos sob o nome de Augusto por 41 anos.

Que Deus, o Verdadeiro, nos livre desta triste sina. Mas, para isto, é necessário que cumpramos nossos deveres de cidadãos e zelemos pelos nossos direitos e pela credibilidade de nossas instituições. Nossa democracia ainda é muito frágil, mas muito valiosa para ser sacrificada no altar do terceiro mandato presidencial e outras manobras políticas que visam unicamente atender ambições e interesses particulares.

A desculpa esfarrada do governador do Ceará

O “pedido de desculpas” feito pelo governador do Ceará por ter levado sua sogra em viagem ao exterior às custas do erário público ilustra com o fugir de uma desculpa sincera e tentar enganar a população. Ao dizer que pedia desculpas, mas que tinha a consciência limpa e a certeza de que não tinha feito nada de errado, ele ignorou deliberadamente os três elementos de uma desculpa sincera e genuína, conforme discutido em artigo anterior, A arte da desculpa:

  1. O reconhecimento do erro.
  2. A manifestação de pesar pelos danos causados.
  3. O reconhecimento da responsabilidade pelo erro cometido.

Além de não reconhecer que usou o dinheiro público indevidamente, ele não mostra arrependimento e coloca a culpa na sua assessoria. Pelo visto, está pronto para cometer erros semelhantes no trato da coisa pública. Na sua arrogância, ele faz pouco caso da inteligência do povo cearense. Com esta atitude, seria mais coerente que ele fosse à televisão e cantasse o grande sucesso de Edith Piaf “Non, Je Ne Regrette Rien” (Não, Eu Não Lamento Nada).

É mais um político que vem se juntar à camarilha que vê o estado como um meio de alimentar seus privilégios, de seus parentes, amigos e comparsas. Ao povo, as sobras. Até quando abusarão de nossa paciência? Até que ponto toleraremos ser tratados como imbecis dóceis?

O bem amado cartão corporativo

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Apesar de não existir só no Brasil, o sistema que administra e controla os gastos públicos talvez não tenha sido tão mal utilizado como aqui. Ou tenha, mas com reações públicas. Ainda fico triste por notar que nesta hora pouca gente se preocupa de fato em ver como funciona nos outros países, saem logo falando mal do jeito “tupiniquim” de fazer as coisas. Mas eu mesma me pergunto: e se fosse na França, no Japão, nos EUA?

Como na nossa rotina doméstica ou empresarial, o cartão evita burocracia e ajuda na fiscalização. Tenho uma amiga que usa para os gastos de família o mesmo cartão da sua empresa e só tem noção do que gasta juntando os papéizinhos na carteira. Eu prefiro me organizar com uma planilha feita no excell, mas no final, tanto eu quanto ela precisamos “dar conta” dos gastos no final do mês. O que nos separa dos usuários dos cartões do Governo - 7.145 funcionários públicos de vários escalões - é que, aparentemente, eles não prestam contas a ninguém, porque o “dono do dinheiro” está distraído demais com o BBB e o tapa-sexo que desgrudou da “modelo”em plena Sapucaí.

Por que não nos incomodamos mais com o que fazem com o nosso dinheiro? Será que não nos consideramos donos?

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O Velho Chico Cansado!

Crédito: Renato Jr

Um derruído conceito nos alertava sobre os freios e entraves que os assuntos ambientais provocam, definhando o desenvolvimento. Prova disso é o mais novo piquete ecológico que ressuscitou, Brasil afora, aquilo que já é praticado com freqüência nos átrios do capitalismo (fr)ágil e preocupado com as calças ambientais.

Conheci esse flanco ambiental quando militei em organização não governamental acreditando “fazer a minha parte” na luta inflamada pelo planeta Terra. Alguns meses e o que descobri foi distância, arrogância, burocracia e parasitismo social: um bando de gente concretando status na mídia – falada, virtual, escrita, falida! – numa exposição articulada que levanta fundos patrocinadores dos mais variados atos. Eram meus primeiros contatos com o eco-business.

Dessa experiência enxergo dúvida em quase tudo, pois uma dose cavalar de frustrações desenvolve no ser humano as mais variadas posições políticas, econômicas e sociais. Assim descobri a ética ambiental, constituída de pactos a serem cumpridos por todos objetivando evitar que os conflitos sejam resolvidos da maneira que o humanóide mais gosta; violentamente.

Não estou nem um pouco afim de pegar em armas, mas o mundo cansou e eu, particularmente, estou de saco cheio da poluição intelectual produzida pelo eco-business. Jogue lixo no lixo, latinhas no Carlinhos Brown e ovos na Marta Suplicy enquanto o planeta se aqueceu e posteriormente resfriou numa infinidade de vezes!

Noutra esfera tiro minha camiseta, curvo minha coluna vertebral e escrevo sem parar, com apenas três dedos de cada mão, aquilo que perturbou a mim e ao Brasil da 25 de março com seus familiares, lá longe, num espaço geográfico esquecido desde o acéfalo alargamento do território brasileiro pelos bandeirantes e a lei das prioridades orçamentárias. Preciso escrever algo! O silêncio empobrece envelhecendo minhas pálpebras mal dormidas. Preciso escrever algo! Acovardar agora é meu espelho mais maléfico. Preciso escrever algo… e acabo dando minha dedada também:

Não tenho a menor idéia se a transposição vai fazer bem, ou não! É que toda a pesquisa que fiz versava com palavras técnicas e numa chatice intolerante.

Inútil agora, pois a transposição do Velho Chico já não é mais debate. Um exercício de eficácia da máquina pública provou para que serve o poder executivo. Os meandros encantos da política a alguém sempre serve! Ele vai lá, praquela gente inteligente que ficou assistindo o regime do frei Cáppio, em duas fases: primeiro o Eixo Leste, dando de beber ao Pernambuco e à Paraíba, depois o Eixo Norte, banhando o Ceará até o Rio Grande do Norte.

Mas essa água, enchendo piscinas de políticos ou não, me irritou mais ainda quando o excelentíssimo ministro preocupado com a integração nacional, Geddel Vieira Lima, disse em entrevista a Paulo Henrique Amorim que vão “inaugurar o Eixo Leste ainda no Governo do Presidente Lula. E vamos deixar o Eixo Norte de tal forma avançado que se torne irreversível e obrigatório ser concluído qualquer que seja o Presidente da República.” Isso que é eco-business de qualidade!

Graças à iniciativa e inteligência de alguns poucos indivíduos nós temos hoje na sociedade projetos interessantes voltados para a sustentabilidade. No entanto, a apropriação da causa ambiental por interesses particulares pode deixar em segundo plano o interesse coletivo, negando assim o principio norteador da eco-ação.

Assim como a cultura ou a espiritualidade se transformaram em grandes negócios, que movimenta vultosos recursos financeiros, os negócios verdes também têm seus princípios. O eco-business se equivale ao spiritual business na qual, por trás de um discurso pró-natureza ou ainda pró-deus, estão interesses econômicos e comerciais. Sendo assim, entre idas e vindas, dá-lhe canseira no Velho Chico!

Alex Pinheiro, para o Via Aberta

O garoto que perdeu a chance de ser presidente do Senado

O garoto cresceu respirando política. Seu avô era o poderoso chefe político local e a política estava no sangue da família. Era uma época em que as paixões partidárias dominavam as pequenas cidades do interior, dividindo-as em famílias rivais. O ambiente parecia muito com o de Verona descrito por Shakespeare em Romeu e Julieta, de um lado os Capuletos e do outro os Montéquios. Troque Verona por Tupaciguara no Triângulo Mineiro e você terá uma boa idéia de como era o clima de rivalidade política.As famílias se dividiam entre os dois principais partidos da época, a União Democrática Nacional (UDN) e o Partido Social Democrático (PSD), ao qual pertencia a família do garoto. Os partidos e os políticos tinham os mesmos defeitos dos de hoje, mas defendiam bandeiras bem definidas e eram capazes arrebatar corações e mentes na defesa de suas idéias. Onde hoje há somente barganhas de vantagens, havia também idéias, certas ou ultrapassadas, mas havia.

Desde muito cedo, o garoto participava nas campanhas eleitorais, ajudando na distribuição de material de propaganda e na colagem de cartazes nos postes e muros..

Um dia, ao acabar de colar um cartaz, ele se virou e levou um grande susto. Deu de cara com a vizinha, Dona Adélia, uma udenista inflamada e grande inimiga de seu avô. Pensou: ela vai tomar meus cartazes e rasgá-los. Segurou firmemente os cartazes que restavam, disposto a protegê-los a qualquer custo. Para sua surpresa, ela estava sorrindo de uma forma tão doce como ele jamais pensara que ela fosse capaz de sorrir. Ele estava acostumado a vê-la vermelha de raiva fazendo discursos inflamados contra seu avô e seus candidatos.

Ainda sorrindo e com uma voz doce ela lhe disse: “Parabéns, você está fazendo um belo trabalho; os cartazes estão certinhos, bem colados e sem rugas”. Ele agradeceu e estava ansioso para sair dali e continuar seu trabalho. Contudo, a Dona Adélia continuava a sorrir para ele e seria uma grosseria virar as costas para um adulto, mesmo sendo da UDN. Ela colocou a mão no seu ombro e disse:

- Você bem que poderia pregar uns cartazes para mim, eu pago bem.

- Não posso Dona Adélia, eu tenho que pregar os cartazes de meu avô. Ele vai ficar uma fera se eu fizer o que a senhora me pede.

- Você pode fazer em outra hora e ele não precisa saber. Eu já observei e vi que você levanta sempre muito cedo, antes de todo mundo. Você poderia pregar os cartazes bem cedinho e ninguém vai saber. Eu pago adiantado.

As suspeitas de que ela o estava espionando há algum tempo estavam se confirmando. De fato, criado na fazenda, ele estava acostumado a se levantar às 4 horas da manhã para ajudar o pai na ordenha das vacas leiteiras, e não perdera o hábito. Na cidade, ele se levantava cedo e ia cuidar do jardim e do canteiro de sua avó. Ele gostava de ver a alegria da avó olhando as flores e hortaliças bem cuidadas.

Mas voltemos à conversa entre o garoto e sua vizinha da UDN. Ela estendeu a mão com algumas notas e moedas: “Aqui está a metade de seu pagamento; a outra metade eu pago em uma semana”.

Sem querer, mas querendo, o garoto fez uma conta rápida do que ela estava lhe oferecendo. Com aquele dinheiro, ele poderia completar seu álbum de figurinhas os “Grandes Craques do Futebol Brasileiro”. Faltavam algumas figurinhas difíceis, que alguns garotos de sorte vendiam por 10, 20 ou mesmo 50 vezes o preço de venda na banca de jornal. Ele poderia comprar as figurinhas do Ademir e do Danilo e completar o time de seu querido Vasco da Gama, o Expresso da Vitória. Bem negociado, poderia também comprar as figurinhas do Bauer e do Pé de Valsa do São Paulo Futebol Clube.

Não resistiu e aceitou. Nos sete dias seguintes, com o coração acelerado pelo medo de ser pego, trabalhou uma semana no serviço extra para o inimigo.

Com o passar dos anos, pelos exemplos e pelas palavras, ele aprendeu com o avô que há muitas coisas que não podemos colocar à venda, seja qual for o valor da oferta. Entre elas estão a lealdade para com a família, amigos e parceiros e a fidelidade ao partido e aos ideais que abraçamos.

Se tivesse persistido na política e cultivado aquela precoce fraqueza de caráter, hoje o garoto teria todos os defeitos e desvios de caráter requeridos para qualificá-lo como postulante à presidência do Senado.