Conciliando informatas e filósofos: o pensamento otimista de Pierre Lévy - Pack Teórico II
Para quem ainda não foi apresentado a este pensador, Pierre Lévy tem se destacado como um dos mais proeminentes pensadores da área da tecnologia da informação e comunicação, com ênfase em trabalhos pioneiros que exploram o ciberespaço e a cibercultura. Em outras palavras, para nós que gostamos de internet, é referência obrigatória.Neste segundo Pack Teórico, pretendo extrair de sua vasta obra alguns conceitos que irão reformular a relação entre informatas e filósofos. Tenho como objetivo iluminar como Pierre Lévy caracteriza e depois concilia essas duas figuras, no sentido de afastar uma separação muito comum (técnica separado de conteúdo) e limitadora que atrapalha os debates culturais que envolvem os debates sobre o futuro da internet e seus impactos na área cultural. A obra que nos serve de base e que recomendamos vivamente é As Tecnologias da Inteligência.
O Cego e o Paralítico
De início, é interessante observar como Lévy caracteriza essas duas figuras, esses dois extremos: o informata e o filósofo.
A distinção aparece no momento em que Lévy analisa a possibilidade de sucesso da elaboração de um programa.
O conhecimento das entranhas de uma máquina ou de um sistema operacional será então usado com o objetivo de
tornar o produto final amigável. O virtuosismo técnico só produz seu efeito completo quando consegue deslocar os eixos e os pontos de contato das relações entre homens e máquinas, reorganizando assim, indiretamente, a ecologia cognitiva como um todo. Separar o conhecimento das máquinas da competência cognitiva e social é o mesmo que fabricar artificialmente um cego (o informata ?puro?) e um paralítico (o especialista ?puro? em ciências humanas), que se tentará associar em seguida; mas será tarde demais, pois o danos já estarão sido feitos.
O Cego, informata puro, sabe tudo dos códigos, mas não se vê inserido numa discussão que envolve a ciências humanas como um todo, não percebe a sua responsabilidade cultural e cognitiva de sua atividade.
O Paralítico, habituado a discutir as questões teóricas, despreza as questões técnicas que condicionam e influenciam a sua atuação, bem como é desprovido do conhecimento que dá concretude aos seus projetos.
A separação que estamos acostumados.
_Vamos fazer o seguinte: você cuida da parte técnica, que nós iremos cuidar do conteúdo….
_ E o Ari, qual será a função dele no nosso projeto?
_Ah, bem, ooooh Ari… o Ari pensa as questões, sabe, esses lances filosóficos…
Existe uma dicotomia de que poucos duvidam hoje que separa em campos bem demarcados os profissionais da área da informática, os da comunicação e os das ciências sociais em sentido amplo. Essa divisão não é algo que possa ser apontado com clareza, porque ela não é uma barreira visível. As divisões estão distribuídas em muitos detalhes e disseminadas em diversos pontos, como questões profissionais, sociais, econômicas, políticas e epistemológicas.
Em grande medida, a divisão tem a sua razão de existir. ÿ o caminho reconhecido da divisão do trabalho e das especializações profissionais crescentes. Porém, essa distância entre as áreas, em muitos casos, revela suas limitações.
Um exemplo ocorre quando abordamos a expansão da informática e da internet em nossas sociedades. A revolução informática atual é bastante recente do ponto de vista histórico, aproximadamente 50 anos, pouco em vista dos nossos mais de dois mil anos de evolução.
No campo do debate das ciências humanas, o que está em jogo é a discussão central sobre o papel da técnica em nossa sociedade. Evidente de que desde a revolução industrial ela se torna central, mas agora podemos nos perguntar em que grau a técnica se transformou, em que velocidade ela vêm evoluindo, e com que tipo de efeitos para as demais esferas da vida social.
A técnica - a nossatécnica - o Computador
A técnica, como se percebe, não se limita apenas ao mundo da produção e do mercado, mas se expande para todos os setores das sociedades humanas. Em velocidade cada vez maior ela se infiltra na cultura como um todo, nos modos de administração e controle político dos Estados, nos processos de comunicação, no desenvolvimento e transmissão do conhecimento, na produção artística, nas formas de entretenimento, etc.
Assumindo a importância e o poder atribuídos à técnica, podemos então perceber dois pontos chaves que se sucedem do discutido. Num primeiro momento é possível notar que a figura do computador preenche cada vez mais o espaço criado pela técnica. ÿ como se o computador fosse a síntese da técnica, ou de todas as tecnologias que acumulamos ao longo do processo, ele é uma espécie de pacote que faz convergir todos os nossos progressos técnicos, e os transforma numa única ferramenta.
O segundo, mostra como todas as esferas de poder, os mecânismos de saber e os processos de produção e acumulação de cultura passam, em algum momento, por questões técnicas, de modo a atingir profissionais de todas as áreas, transformando e reformulando campos e arranjos sociais. Nesta parte, acima de tudo é importante perceber que o que institui a racionalidade científica como parâmentro das técnicas e dos saberes instrumentalizados é uma questão cultural, que tanto pode ser pensada pelo cientista de exatas como pelo da área de humanas, ou mesmo pela fusão dessas duas áreas, uma vez que postulamos que a técnica, ela mesma não conhece essa distinção.
ÿ justamente nessa confluência que irá lançar seu foco de análise o pensador Pierre Levy. Tomando como exemplo o computador, e mais especificamente, as interfaces dos programas de computador, Lévy mostra que a interface dos programas é uma espécie de cristalização de formas de saberes, saberes estes que não estão limitados apenas às questões técnicas. Quando nos encotramos diante de um formulário de banco de dados, diante de interface de aplicativos de escritório, de programas que gerenciam nossas tarefas e informações do dia-a-dia, estamos diante de algo mais do que simplemente janelas programadas, mas as janelas são a superfície dos nossos saberes culturais que acumulamos que nos informam como organizar nossos negócios, nossas atividades e nossas informações pessoais.
De outra forma: no momento em que desenvolvo um programa, realizo ao mesmo tempo uma questão técnica (que viabiliza a aplicação) e também uma questão cultural-cognitiva: crio um novo campo de acumulação e gerenciamento de informação que pode se disseminar e transformar nossas relações sociais.
Por isso, não podemos ser totalmente cegos e discutirmos a técnica pela técnica.
Nem paralíticos, acreditando que a crítica da técnica e de seus efeitos pode ser feita sem uma incursão, um conhecimento e um enfrentamento das questões específicas que ela apresenta.
O mais interessante desta abordagem de Lévy é que no momento em que compreendemos o seu pensamento, todos nós, técnicos ou não, nos tornamos programadores.
Finalizo o Pack com as palavras de Lévy.
Retomemos a comparação entre informática e arquitetura ou urbanismo. Em vez de estruturar o espaço físico das relações humanas e da vida cotidiana, o informata organiza o espaço das funções cognitivas: coleta de informações, armazenamento na memória, avaliação, previsão, decisão, concepção, etc. Os arquitetos estudaram a resistência dos materiais e a mecânica, conhecem todas as propriedades do cimento. Mas seus conhecimentos, como todos sabem, não se limitam à vertente objetiva de sua profissão. Que diríamos de urbanistas que não tivessem nenhuma noção sobre sociologia, estética ou história da arte? Entretanto, a maioria dos informatas se encontra hoje em situação análoga a esta. Eles intervêm sobre a comunicação, a percepção e as estratégias cognitivas de indivíduos e de grupos de trabalho; apesar disto, não encontramos em seu currículo nem pragmática da comunicação, nem psicologia cognitiva, história das técnicas ou estética. Como acordar os futuros informatas para a dimensão humana de sua missão? Somos forçados a constatar que o ensino superior produz hoje, na maioria dos casos, ?especialistas em máquinas?.
Ao se aproximar dos etnógrafos e dos artistas, os criadores e os analistas de sistemas descobrirão a ética que falta a sua jovem profissão. Talvez a informática vá enfim tornar-se uma técnica.
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November 24th, 2007 at 07:11
Cara, genial sua abordagem!!! ÿtimo post!!!
Lévy é fodaço, acompanho sua obra há uns 5 anos. Até quando escreve sobre suas próprias experiências, o cara é bom (leu O FOGO LIBERADOR?).
Gostei muito dessa idéia aqui:
“De outra forma: no momento em que desenvolvo um programa, realizo ao mesmo tempo uma questão técnica (que viabiliza a aplicação) e também uma questão cultural-cognitiva: crio um novo campo de acumulação e gerenciamento de informação que pode se disseminar e transformar nossas relações sociais.”
Abraço e keep on the good work!
January 23rd, 2008 at 02:01
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