Escravo das próprias regras
Cybele Meyer para o Via Aberta
O homem cria as regras e depois acaba escravo delas. Sufocado por elas. E mesmo assim, não consegue desatar os nós, e se livrar delas.
Prega-se a criatividade e se obriga o aluno a ter um comportamento mecânico, sentando um atrás do outro, todos os dias, no mesmo lugar.
Há escolas que marcam o nome do aluno na carteira e caso ele queira mudar de lugar tem que entrar com um pedido junto a Direção.
Se o aluno não pode escolher nem o próprio lugar, e ao lado de quem ele quer se sentar, como agirá no momento que tiver que tomar decisões em sua vida!
O que estamos fazendo com nossos alunos?
Imagine que as regras para se poder jogar videogame seja a de que todos os dias se têm que, naquele mesmo horário, pegar o videogame, sentar no mesmo lugar sem poder escolher, enfileirado, olhando para a nuca do seu companheiro e que só pode começar a jogar quando soar o sinal. Novamente, a um novo sinal, tem que desligar o videogame, não importando a fase em que esteja.
Será que as crianças e os jovens jogariam com o mesmo entusiasmo e prazer?
Estamos vivendo a explosão digital. As escolas estão começando a aderir ao uso da Web como ferramenta de aprendizagem. Há escolas que já utilizam o computador em sala de aula, tendo um para cada aluno. É a inclusão digital. Porém, usam o laptop, sentados, enfileirados, um atrás do outro.
Posso exemplificar este comportamento com o daquela professora que “recita” a tabuada com seus alunos para que eles a decorem. É sugerido à professora que utilize o laptop como ferramenta de aprendizagem para trabalhar a tabuada. Ela então, prepara o material em Power Point , ilustra, grava em áudio e “recita” com seus alunos. A única diferença é que ao invés de ela apontar a tabuada na lousa com a régua, eles acompanham, cada um em seu micro, apontando com o cursor.
Isto é inclusão digital?
Está na hora de rompermos estas regras criadas na era industrial que massificam o indivíduo, que inibem sua criatividade e lhe roubam a livre escolha.
Tomemos como modelo o evento Campus Party que reuniu mais de 3 000 jovens sendo que praticamente 70% acamparam no Ibirapuera, durante toda a semana, juntamente com seus micros, videogames, muita interação e entusiasmo.
Estavam ali por vontade própria. Assistiam às Palestras deitados no chão, sentados em cadeiras ou no chão, em pé, cada um a seu modo, porém todos sintonizados na mesma freqüência.
Não foi preciso “fechar as portas do Ibirapuera” para conservar seu público e muito menos ficar arrecadando os jovens para assistirem as Palestras e Oficinas.
Tenho certeza, que ao final da Campus Party cada um levou em conhecimento e experiência muito mais do que se tivesse freqüentado um ano de qualquer curso tradicional sobre o tema.
Não quero que entendam que sou contra as regras de bem viver em sociedade, muito pelo contrário. O professor tem que ensinar e agir prezando os princípios da ética e exercendo a cidadania. Isso tem que ser cobrado sempre que necessário, afinal, um dos pilares da Educação é “aprender a conviver” (Jacques Delors).
Estou me referindo às regras ultrapassadas, que ao invés de contribuir, atrapalham a aprendizagem. São as regras que diante da realidade contemporânea tornam-se intimidativas.
Temos que ensina/aprender em clima de colaboração, cooperação, interação e não dá para se praticar isso sentado um olhando a nuca do outro.
* Cybele Meyer mantém o blog Educar Já e reune seus escritos no site Cybele Meyer.
Outras vozes, mesmo tema:
- O blog webduca foi produzido durante a Campus Party 2008, criado para ajudar os professores do projeto Escola Conectada a aperfeiçoar sua prática educativa em Blogs
- Internet e Web na Educação que objetiva claramente ensinar aos professores os atalhos para os diferentes usos da Internet e da Web na educação
- Web para Educadores atualiza e dá motivos para os educadores usarem a web diariamente
- Se internet e educação são foco de seu interesse, participe do grupo blogs_educativos
- Projeto Aspiras da Efigênia - que pretende apresentar ferramentas de mídia social a quem não é ainda usuário, partindo das escolas - no Boombust
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março 11th, 2008 at 08:03
“Não estamos definitivamente condenados a viver sob o autoritarismo e a hierarquia do patriarcado. Nossa propensão à servidão não é existencial e sim circunstancial (cultural). Se foi possível adquirir um modo de comportamento, é também possível modificá-lo. Isso não significa que conseguiremos fazê-lo, mas que se trata de uma escolha nossa. Cabe-nos decidir se queremos ou não continuar condicionados pelo modelo mental linear.” Humberto Mariotti
excelente texto, Cybele - tb me faço essas mesmas perguntas. vc conhece o trabalho do Mariotti?
descobri-o há pouco. foi dica d um casal amigo do Rio. vale a pena dar uma olhada. aqui é um bom lugar pra se começar:
http://www.geocities.com/pluriversu/portugal.html
bjs,
myla
março 12th, 2008 at 01:03
Olá Myla,
Eu não conheço, mas já acessei o endereço que você me indicou e vou ler com muito gosto.
Obrigada pelo carinho e pela indicação.
bjs
Cybele
março 13th, 2008 at 02:03
[...] P.S. Numa linha parecida, Cybele Meyer publicou um texto no Nossa Via: Escravo das Próprias Regras. [...]