Blogs e jornalistas: quem ganha e quem perde

Quem ganha e quem perde com a nova linguagem digital?
Essa foi a pergunta inicial do debate entre jornalistas e editores de blog no Campus Party, segundo li no blog Oito Passos para o Conhecimento. E as respostas mais corretas para ela são tão inconclusivas que mais valeria a pena que ela não tivesse sido feita.
Creio que a primeira coisa que surgiu na cabeça dos participantes foi: “quem perde? nós ou eles?”. Talvez até na sua, tenha surgido algo do gênero, meu caro leitor.
Não é bem assim.
Sempre que surge um novo meio de propagação de informações imagina-se quanto tempo os meios anteriores levarão para desaparecer.
Surgiu o rádio. Perguntaram quanto tempo levaria para o jornal impresso desaparecer. Surgiu a tevê. Mesma coisa sobre o rádio. Depois os portais na internet. E os espertalhões indagaram o que aconteceria com todos os outros anteriores.
Quanto tempo os jornais impressos levaram para desaparecer, cara pálida?
E a resposta é: eles não desapareceram.
Nem o rádio sucumbiu à tevê.
Nem a tevê sucumbiu à internet.
As mídias não se substituem. Elas coexistem e até se completam. Em algum momento podem até se fundir.
Mas falávamos de outra coisa. Falávamos de blogs e jornalismo. Do ponto de vista em que se coloca o atual debate, podemos encarar os dois lados - que não são bem dois lados - como formas, linguagens como foi expresso na pergunta. Como jeitos de comunicar.
E cada um dos dois jeitos tem suas subformas.
O jornalismo com a crônica, com a reportagem, com a cobertura diária, com artigos de opinião e tantas outras possibilidades. Os blogs também, com infinitos jeitos diferentes de se blogar.
Pois o que acontece com os meios acontece também com as formas. Elas convivem. O caderno de um jornal impresso demonstra isso: na mesma página há uma crítica, uma coluna de notas, uma matéria e uma lista dos principais ativos econômicos.
Um bloco do Jornal Nacional prova isso, misturando reportagem, matérias diárias e, às vezes, até opinião.
Um portal como o UOL prova isso: ele tem seções jornalísticas - feitas por jornalistas, é claro - e tem blogs. Que não poucas vezes dividem o espaço da capa com as tais seções jornalísticas.
Então o ponto em que quero tocar - e é tão óbvio que fico corado por ter de dizer isso - é: blogs cada vez mais fortes e formadores de opinião não significam que o jornalismo como o conhecemos hoje venha a desaparecer. Definitivamente: não.
Mas, por outro lado, jornalistas não são tão simplesmente melhores que blogueiros porque levam mais tempo apurando informações e dias fazendo uma matéria. E, portanto, os blogs também não devem sucumbir a suposta superioridade da imprensa diplomada.
Na verdade, quem acha que blogueiros devem fazer isso - levar dias apurando uma matéria (matéria? tem certeza que alguém usou esse termo?) - não entendeu nada.
Primeiro, nas redações enxutas de hoje, ter dias para fazer uma matéria não é exatamente a regra. Talvez no Estadão, na Folha, em O Globo ou no Jornal do Brasil, que, suponho, ainda têm grandes equipes com repórteres com liberdade para escrever o que quiserem do jeito que quiserem.
Segundo, um blogueiro pode fazer uma matéria. Mas tenha certeza de que se ele a fizer, vai se colocar dentro dela. ÿ isso o que o leitor de blogs quer: quer saber como alguém como ele, leitor, se posiciona no mundo. Sem o intermédio de um repórter, sem as aspas das declarações jornalísticas. Por isso, creio que a Blogagem Inédita trará resultados muito interessantes.
A força dos blogs está em sua pessoalidade, a possibilidade que se tem de tratar com um humano falível e não com a pretensa verdade em forma de celulose.
Existe uma palestra de José Miguel Wisnik em que ele analisa o livro As Ilusões Perdidas, de Balzac, e mostra como os jornais passaram a ser um recorte da realidade, mais real que o real.
Enquanto o leitor, no jornal, precisa saber lidar com um meio que por hábito ou necessidade, se diz porta-voz da verdade, no blog ele deve exercer seu lado crítico, o debate e a dúvida. E mais. No blog ele pode fazer isso ativamente: o contato com o autor é direto.
Se o leitor ainda não é esse leitor crítico que se espera é porque em algum lugar ele aprendeu que tudo o que estava impresso ou escrito em uma tela era a exata fotografia da realidade. Onde? Onde? Em alguma reportagem sobre a Escola Base, talvez?
Além disso, esteja certo de que os blogs que passarão na prova do tempo, aqueles que permanecerão, serão os mesmos que checarão as informações que publicam. Pois embora não sejam os donos da verdade, eles - os blogueiros éticos - têm compromisso com uma verdade. Uma das muitas possíveis.
Acredito que o futuro da informação - nas formas jornalísticas e bloguísticas - seja uma união das duas coisas. O modo de agir, de escrever, de se relacionar com o leitor e com as fontes, de buscar dados, de produzir textos e imagens. Tudo isso passará por uma grande transformação. Já está passando.
Antes poucos tinham acesso à informação. Depois - com os meios de comunicação e com o jornalismo atuante - todos tinham, mas poucos podiam propagá-la.
Agora até a propagação está acessível a um maior número de pessoas. Até mesmo a autoridade de propagação está mais próxima de qualquer um. Não é preciso um diploma para tê-la, basta a confiança do leitor.
O fato é que jornalistas não precisam ter medo. E blogueiros não precisam ter medo também. Todos sairão ganhando no final das contas. Mas por certo que muitas coisas serão perdidas.
ÿ assim nas mudanças.
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