Direitos para um mundo mestiço
A revista Época trouxe um perfil do “candidato a candidato” democrata Barak Obama. Interessante, confesso que me identifiquei com ele. Vejam, não sou eleitora norte-americana e nem me aprofundei no programa de governo dele, me identifiquei com ele mesmo, a pessoa que é. Filho de mãe branca (do Kansas) com pai negro (do Quênia), que se casaram e o tiveram no Havaí, tendo vivido alguns anos na Indonésia com o padrasto (que era de lá) e depois crescido com os avós brancos, ele é uma síntese da mestiçagem.
Uma mestiçagem rara em seu país, que envolve várias religiões, etnias, continentes, mas que se assemelha à história familiar de muitos brasileiros.
Dizem que não há diferenças substanciais entre ele e Hillary Clinton quanto à ideologia e que a magia, a Obamania, é que faz a diferença. Acredito que a grande diferença está na sua luta franca e aberta por esta identidade que, por outro lado, Hillary insiste em provar que já tem. Todos nós já tivemos fases em que buscávamos nos encontrar em algum grupo, como ele fez com a comunidade negra do sul de Chicago. E podemos nos ver na crítica à inocência que Obama faz - afirmando que inocência é o oposto da sabedoria - e na sua ênfase em afirmar que não podemos simplesmente nos livrar das nossas raízes e da história e inventar uma vida nova para si próprio.
Reinventar tudo parece tentador, mas é uma ilusão. No entanto, alguns tentam e até obtém sucesso. Recentemente li um texto em que o autor tratava das várias faces, das reinvenções pelas quais passou Zé Dirceu desde 1968. Lembrei-me dela quando, no dia seguinte da propalada renúncia do ditador cubano Fidel Castro, escutei-o falar na CBN sobre Cuba, sobre as lutas, sua realidade atual e sua provável nova relação com o mundo.
Um mundo no qual, ao contrário do que muitos pensam, não vai caber mais a imagem inocente dos jovens intelectuais portando armas e tomando um país, não caberá mais a inocência de um povo acreditando empreender uma nova Guerra Santa contra o Terror, não caberá mais a divisão dos seres humanos como bons ou maus. Já não temos mais o idealismo cego de quem, como alguns personagens da minissérie Queridos Amigos, acreditava que o mundo ia mudar e os “maus” seriam tirados do poder pelo povo.
A escolha é do povo, mas é feita pelo que há de humano em cada um. Nossa miséria nos aproxima ou distancia e nesta miséria é que uns escolhem Obama, outros Hillary.
Ricardo Neves também tratava de Obama em sua coluna, discutindo a promessa de “esperança de mudança” que ele personifica e que, apesar de ser difícil acreditar hoje, Fidel e Lula representaram a seu tempo. A mesma esperança Tony Blair levou à Grã-Bretanha em 1997. O que eles estas figuras públicas têm em comum? Creio que o traço que vemos a Rainha Elizabeth insistir em negar na personalidade de Diana durante todo o filme A Rainha, o carisma e uma capacidade de fazer o público (ou os eleitores) enxergarem neles o ideal que lhes vai na alma.
Há quem pense que Lula tem apoio popular por ser nordestino ou pelo bolsa-família, ou que Obama pode ser o candidato dos negros ou das minorias, mas para mim parece que cada um vê neles o “mito salvador” com poder para lhes libertar. Alguém que, como o também mestiço e defensor das minorias pobres Bob Marley, nos chame à razão clamando:“Get up, stand up, stand up for your right (…) Don’t give up the fight (…) You can fool some people sometimes, But you can’t fool all the people all the time “. (leia letra e tradução aqui)
P.S. Para quem tem interesse em acompanhar as eleições norte-americanas em português, indico o Blog Casa Branca, mantido pelo jornalista Jefferson Guedes Oliveira. Nele há, claro, uma explicação do complicado sistema eleitoral. Soube no Imezzo. Nuno Gouveia mantém o blog Eleições Americanas de 2008, onde faz um estudo para dissertação em mestrado.
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February 25th, 2008 at 10:02
excelente texto!!!! AMEI!!!! bjs
Veri,
não tinha a menor dúvida de que o assunto lhe atrairia e sinceramente fico feliz que gostou, pois seu conhecimento do tema é maior que meu porque morou por lá - e eu só passeei.
Abraço
Sam
February 25th, 2008 at 01:02
Direitos para um mundo mestiço | Nossa Via: o conteúdo passa por aqui!…
A revista Época trouxe um perfil do Ìandidato a candidato%D democrata Barak Obama. Interessante, confesso que me identifiquei com ele, fruto de uma mestiçagem rara em seu país, se assemelha à história de familia de muitos brasileiros. …
February 25th, 2008 at 01:02
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February 25th, 2008 at 03:02
olá Sam!
Sabe que essa é a primeira eleição americana que estou acompanhando, e entendendo…aliás, o processo seletivo dos pré-candidatos me parece muito melhor e democrático que o nosso, até mesmo pela não obrigatóriedade do voto dos cidadãos. Mas pelo que tenho lido, superficialmente, não sou eleitora americana como você comentou, mas é uma decisão que pode nos afetar muitíssimo, mesmo com as boas relações que o Itamaraty mantém com o mundo…mas vejo o Obama como um candidato das massas, dos estudantes, dos jovens, dos que vivem à margem, diferente por exemplo da Hillary, que tem no marido seu grande manipulador.
Candidatos populares nem sempre são os melhores, sabemos bem disso, a história recente não nos deixa esquecer afinal quem não lembra do presidente caçado, que era conhecido pelas mulheres de meia idade como o presidente bonitão? e que no fim virou aquele que tomou seu dinheiro… ou aquele que veio dos trabalhadores, que está trabalhando por eles (não posso negar) mas que no fim não conseguiu mudar tanto assim sua linha de governar? Não estou fazendo campanha, mas com certeza ainda iremos ouvir falar de um certo candidato de MG, neto de um certo presidente…
Mas mudanças são necessárias sim e ninguém melhor para realizá-las do que aqueles que saem do tradicional e entram no comum, no cotidiano…no popular. òtimo texto, desculpe se divaguei muito!
Simone
eu acompanhei outras eleições americanas, afinal Gui gosta até de TV Senado! Ainda não me convenci de que é muito mais democrático, mas me parece sempre muito interessante, especialmente pelo tempo que se tem para escolher, votar, forçar os representantes a um voto condizente, etc.
Uma das passagens interessantes do texto do Ricardo Neves que citei falava justamente que o bom candidato nem sempre - ou raramente - vai ser bom no cargo. Veremos como será com Obama e com o neto do Tancredo, dentre outros.
Abraços
Sam
February 25th, 2008 at 04:02
O fato dos EUA contarem com uma campanha que tem Mcain, Obama e Hillary significa que a sociedade americana cansou dos neocons e suas imposições conservadoras, que já não guardam relação com o mundo em que vivemos.
É um mundo mestiço mesmo, não há mais raças definidas e Obama poderá ser o primeiro presidente negro, mas seria algo tão relevante quanto a primeira presidente mulher ou o primeiro republicano afastado das idéias ultra-conservadoras que permeiam seu partido, cuja base ainda é rural.
Mas penso que a eleição de um Obama ou Hillary ou mesmo Mcain pouco mudará os EUA, basicamente porque a tradição democrática daquele país impõe mudanças graduais e vagarosas, as vezes um pouco aceleradas ou freadas dependendo de uma indicação para a Suprema Corte ou de uma ou outra política pública diferenciada.
De qualquer modo, os EUA nunca elegem um “messias”. Aliás, o que faz daquele país uma democracia fulgurante é justamente essa fuga ao messianismo. Quando Roosevelt morreu, o Congresso tratou de impedir reeleições consecutivas e hoje, há um comentário insistente segundo o qual há certo desconforto em ver Hillary Clinton candidata, porque se ela fosse eleita e reeleita, duas familias teriam gerido os destinos do pais por duas décadas, sem contar que George Bush ainda foi vice de Reagan por 8 anos, e os Dole, que também sempre têm representantes nas altas rodas.
Penso que eleito qualquer um dos 3, será apenas um passo adiante num projeto de longo prazo para uma sociedade realmente multi-racial e multi-ideológica, que seguirá um passo para trás, dado com a eleição de George W.Bush.
Fábio
se você não tivesse comentado eu ia te pedir oficialmente sua opinião por e-mail. Lembro de suas posições quando escrevi sobro Eleições americanas no dia 08/02 e tenho pensado sobre seus elogios ao sistema eleitoral americano.
Não os vejo como eleitores de messias, foi mais uma autocrítica, vejo os brasileiros como fiéis deste sistema paternalista que cria condições para os “salvadores da pátria” surgirem. Na verdade quero crer que “éramos” assim, do mesmo modo que você diz que eles “eram” conservadores. Estaremos todos progredindo? Será este pleito de 2008 o início de novos tempos?
Agradeço a “visita”. Continuo esperando para ver textos seus no Nossa Via.
Sam
February 25th, 2008 at 05:02
Confesso que não acompanho com “profundidade” as eleições americanas, mas nem por isso deixo de acompanhar o noticiário e assistir alguns debates. Admiro Barak Obama muito antes dele ser candidato democrata à presidência dos EUA, tanto que me surpreendi quando o mesmo anunciou que seu interesse pela presidência americana. Sempre que assistia entrevistas com Obama, ele declinava a possibilidade, ao contrário de Hilary Cliton que nunca chegou a negar, pelo contrário… Acho Obama ótimo, suas ideologias, suas crenças e tudo mais o que sua candidatura representa para milhares de americanos. Entretanto confesso que me decepcionei um pouco ao assistir os debates… não sei , acho q senti falta da experiência! Uma coisa é certa, adoro ver a disputa entre Hilary e Obama e a possilidade de um deles assumir a presidência de um dos países mais influentes do mundo! Isso só já representa tanta coisa… Gostei muito do seu artigo! Parabéns.
February 26th, 2008 at 12:02
Eu entendi que você não quis chamar ninguém de “messias”, mas eu quis fazer um contraponto à nossa experiência brasileira, onde sempre procuramos um messias e não um administrador público, como, aliás, você entendeu perfeitamente né?
Agora, não acho que os neocons acabaram. Os EUA são vários países dentro de um só e quando houver muita divisão de opiniões nos centros urbanos, os neocons sempre voltarão, porque os estados rurais votam maciçamente neles.
Mas eu sempre repito: Nos EUA não há medida provisória e os cargos chave de uma administração passam pelo crivo do Congresso. As eleições são feitas antes dentro dos partidos e depois com o eleitorado em geral, o voto não é obrigatório e não é feriado no dia do pleito. Lá, escândalos causam investigação imediata e as coisas ficam pretas para quem estiver envolvido.
Temos muito o que aprender com os EUA, aliás, é bom que os brasileiros acompanhem a campanha americana, aprenderão um pouco sobre a democracia dos EUA, que é internamente fulgurante, mas externamente, falha.
March 10th, 2008 at 07:03
[...] das semanas: Direitos para um mundo mestiço , O conflito entre jornalistas e blogueiros NÃO existe, “Blogagem Inédita” - [...]
March 12th, 2008 at 03:03
[...] há tempos, sempre que ouve uma notícia sobre Obama e Hillary - e isto inclui meu animado texto Direitos para um mundo mestiço - de que John McCain ia passar a perna nos dois e chegar lá, porque tem um perfil mais digerível. [...]
June 7th, 2008 at 11:06
[...] americanas aqui: Eleições americanas , McCain, Obama, Hillary ,A Mulher é o negro do mundo , Direitos para um mundo mestiço [...]