Epifanias
Por vezes, quando estou no trem me dirigindo àquele lugar onde as pessoas fingem ser algo que não são (o trabalho, não o teatro), tiro da mochila um livro. Naquele momento, com a ajuda também de um MP3 Player no ouvido, me distancio e esqueço dos vendedores de amendoim e barras de chocolate. Foi o que fiz hoje, lendo Caio Fernando Abreu.
Suas “Pequenas Epifanias” me levaram para um mundo sensível paralelo ao dia-a-dia e à insanidade paulista. Caio F., como assina seus textos em homenagem a Christiane F., foi mais um grande escritor soropositivo, que morreu de amor. O amor intenso e desmedido daqueles que vivem caminhando a passos firmes, em busca de algo que nunca vão descobrir o que é.
Enquanto leio, tento compreender a necessidade e o culto à intensidade que a maioria de nós tem. Não basta amar, deve-se amar perdidamente, desmedidamente, de uma maneira ímpar e sem precedentes. Não basta fazer o bem, é preciso ser herói. Não basta ser feliz, é preciso alegria hollywoodiana. E buscamos esses extremos sem perceber que, ao alcançá-los, o outro lado da balança cai e o equilíbrio é quebrado. Dessa forma, um momento de nirvana muitas vezes é seguido de depressão, simplesmente porque não aprendemos a dosar os sentimentos.
É assim que o amor, o sentimento mais puro e belo que conhecemos, passa a se tornar vício, droga. Afinal, todos sabem que a linha fina que separa o remédio do veneno, é o tamanho da dose.
Não consideramos o amor como uma possibilidade cotidiana. O amor verdadeiro e puro não acontece de uma hora para outra, de repente, como o simples fato de você perceber seu cadarço desamarrado, ou o telefone tocar por engano. Ele precisa ser cultivado e construído com o tempo, com a confiança e com a aproximação. Não é um pacote de batatas fritas que você entrega a qualquer um na esquina.
É por isso que nos abalamos tão fortemente quando, sem preparo, depois de cultivar tanto um sentimento, o perdemos, seja para outra pessoa, para o acaso, ou para a morte. Mas temos que saber que o ser amado não é uma muleta que sustenta suas fracas pernas, mas sim alguém que pode tornar sua caminhada mais prazerosa.
Admiro a capacidade de cronistas como Caio de legendar sentimentos, de misturar duas palavras que nunca antes se encontraram para criar uma nova expressão. Mas depois de mergulhar nas suas epifanias, volto à superfície para tomar fôlego, inspirando um pouco de realidade.
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February 2nd, 2008 at 12:02
Caio F. tem dessas gentilezas ácidas para com a gente… Olha, pra falar a verdade adoro o mergulho mórbido no transporte coletivo, rs
Gosto de observar pessoas,,, captura sem copyright da urbaneidade descostruindo…
Belo, Tonobohn!
Abraços e reflexivas invenções!
February 2nd, 2008 at 12:02
Até hoje, nesse exato momento, esse é, dentre todos, o texto que mais gostei de ler nesse blog. Não sei se é o melhor - e não importa isso - só sei que é o que mais gostei de ler. Boa, Gabriel! Uma verdadeira epifania (dentre outras coisas, um pensamento inspirado e iluminante)! Obrigado.
February 2nd, 2008 at 12:02
Adorei o texto, maravilhoso, mesmo romantismo não sendo meu forte! Acredito no amor incondicional, puro, verdadeiro… Mas acredito que é tão difícil de encontrar quanto uma agulha no palheiro…
February 2nd, 2008 at 02:02
Pois… não é mesmo?
O amor que constrói é o mesmo que mata!
Mas, amor verdadeiro, na minha opinião, só se constrói no convívio … na possibilidade de dividir os bons e os maus momentos…
Assim, posso dizer que amo alguns companheiros de trabalho que me aturam há 15 anos… mas ainda não encontrei o amor na parceria diária….
Ces’t la vie!
February 2nd, 2008 at 03:02
Epifanias | Nossa Via: o conteúdo passa por aqui!…
Tohobohn parte de uma leitura de Caio Fernando Abreu para falar sobre a insaciável busca pelo amor perfeito, intenso e glorioso. Texto enxuto e que convida à reflexão na visão contemporânea desta busca que é uma das prioritárias na vida humana….
February 2nd, 2008 at 03:02
Gabriel, vou ser sincera em duas coisas: (1) não lembro de ter lido Caio F. e vou me redimir desta falha depois do teu texto e (2) eu sempre penso que foi o fato de eu desejar uma vida cotidiana a dois e uma vida com rotina de família (no que diz respeito aos filhos) e não perder tempo sonhando com vestido de noiva ou lindo parto natural quando adolescente que me trouxe a felicidade atual. Sem nada hollywoodiano - aliás, mais na realidade de seriadinhos do que de blockbusters- mas com muita intensidade.

Excelente texto, que bom que está cada dia mais nesta “tag”…
February 3rd, 2008 at 12:02
seu texto me lembrou esse poeminha aqui, irremediável:
when you love
it’s not your love anymore
you never know
what the outcome may be
where it reaches.
the love you gave me
made me love other more than i used to love
and want to share it
when i share this love
people feel it immediately
they love more
sometimes sharing with just one person
is enough for the love to travel around the world
so my dear,
believe me,
your love has already transformed to many things
you may not recognize that it’s the love you gave
when it comes back to you
but believe me,
it came from your own heart
and it’s a big love.
by Tijen Inaltong
February 3rd, 2008 at 08:02
As vezes amamos tanto que nos tornamos egoístas e deste sentimento devemos fugir.
Abraço.
February 3rd, 2008 at 10:02
Avisa aí que o feed não tá exibindo acento.
February 4th, 2008 at 12:02
[...] em Epifania tratava da intensidade que exigimos do amor romântico na atualidade. Vi a atualidade nas palavras [...]
February 4th, 2008 at 10:02
Olá pessoal,
Obrigado pelos comentários. Vamos por partes:
Alex, poucas são as vantagens de fazer uso do transporte coletivo, mas essa é uma delas, aproveitar o tempo que seria “perdido”, experimentando sutilezas literárias como Caio F.
Wagner, foi um dos que mais gostei de escrever também hehe
Kaká, discordo de você! A começar que o amor não deveria ser incondicional. Ele ainda tem suas condições, mesmo sendo puro e belo. E também não seja que seja assim tão difícil de encontrar, a não ser que você pense que o destino te reservou apenas 1 pessoas realmente interessante, num mundo de 6 bilhões
Max, talvez você já tenha encontrado vários desses amores e não percebeu rsss
Sam, seu comentário daria outro post! Há quem ame mais as simbologias prescritas pela sociedade
Myla, é bacana esse poema pq mostra que o amor não é uma fonte esgotável de energia. Você não o doa, mas compartilha!
Paulo, não sei qual o tipo de amor que nos torna egoístas, só se for um falso amor.
Lancelotz, tem razão, vamos dar uma olhada
Abraço!
February 4th, 2008 at 07:02
Gabriel, meu comentário se transformou em outro post mesmo. Agora eu deixo o convite para você ler e opinar!
February 4th, 2008 at 07:02
Definitivamente, amor Não é um pacote de batatas fritas que você entrega a qualquer um na esquina.! A melhor definição…
Esse lance da intensidade me lembrou duas coisas: 1. aquela música do kid abelha, Grand’Hotel e 2. o texto da Martha Medeiros, que mtos atribuem ao Quintana, o Felicidade Realista
Muito bom o texto!
Um gde abraço.
February 6th, 2008 at 10:02
Muito bom. Até que enfim encontro alguém que fala a minha língua e compreende exatamente o que quero dizer. E quer saber, este negócio de sapato desamarrado…TVE Bahia.
Adorei seu texto. Muito bom. A Samantha me recomendou.
Até mais.
February 6th, 2008 at 11:02
“Ele precisa ser cultivado e construído com o tempo, com a confiança e com a aproximação. Não é um pacote de batatas fritas que você entrega a qualquer um na esquina.”
Adorei isso.
Compartilho muito com as suas idéias, que bom que mais alguém reflete sobre o “lado b”, sobre a dismitificação dos sentimentos.
Não conhecia a obra do Caio Fernando de Abreu mas fui buscar sua biografia, e descobri uma coisa linda sobre ele, que contém gde significado pra mim e talvez encontre a essência do seu texto.
“Caio Fernando Abreu retorna a Porto Alegre, onde volta a viver com seus pais. Põe-se a cuidar de roseiras, encontrando um sentido mais delicado para a vida. ”
Vc tem um blog seu? Gostaria de conhecer mais seus textos.
Prazer,
Alessandra
February 6th, 2008 at 02:02
[...] textos sobre relacionamentos que li e mereceram minha reflexão no final de semana. Tonobohn em Epifania, me fez pensar na intensidade que exigimos do amor romântico na atualidade e Nospheratt me fez [...]
April 2nd, 2008 at 10:04
Olá!
Gostei muito do seu texto! Estava pesquisando sobre epifanias e veio seu texto.
Parabéns pela sensibilidade e pela forma romântica, porém bem contemporânea, de falar de amor!
Também costumo escrever e já publiquei algumas coisas mas não sou tão corajosa quanto vc de publicar na internet assim. Talvez um dia eu perca a vergonha! rsrsrs
Bem, sucesso pra vc! Continue assim! Mas não esqueça: é preciso mais que falar de amor, é preciso amar!
April 3rd, 2008 at 01:04
Olá pessoal,
Alê, tenho meu blog pessoal, oitopassos.com que falo sobre tecnologia. Textos sobre comportamento só aqui no NossaVia, por enquanto. Nesse link você consegue ver todos meus textos:
http://www.nossavia.com.br/author/gabrieltonobohn
Izabella,
Obrigado pelos elogios, e pode deixar que eu não esqueço! rsss
Se tiver coragem de publicar seus textos, mande pra mim!
Abraço
April 15th, 2008 at 07:04
-
amei seu documentário !
estava procurando fontes para uma pesquisa e aqui
encontrei tudo o que procurava.
Bejoo ,
