Eu seqüestrei e matei minha ex-noiva
Ontem à tarde liguei a TV e tomei um susto: homem mantém sua ex-noiva refém por 12 horas, atira contra a cabeça dela e se mata logo a seguir. A tragédia aconteceu na Praia Grande, litoral de São Paulo. Há alguns meses ele foi preso por fazer a mesma coisa. Saiu da prisão em um mês para dessa vez conseguir ir até o fim. Os dois morreram.
Problemas sociais são fáceis de apontar. Nosso sistema carcerário é inútil – não pune nem transforma. Não há ninguém prestando atenção nas pessoas que mais precisam de cuidado, afinal Gilmar precisava de um tratamento psiquiátrico. O “jeitinho brasileiro” muitas vezes torna-se um entrave: se a pena para seqüestro ou cárcere privado é de 3 anos, por que ele saiu em um mês? E assim por diante…

Na dimensão subjetiva, contudo, a lógica não é tão simples. Cada um de nós guarda o melhor e o pior da humanidade. Somos Hitler e Gandhi. Temos tudo pronto aqui dentro, sempre disponível. Eu já feri várias pessoas, quis matar outras, agredi, planejei crimes, me confundi, fiz besteira de todo tipo.
Ora, Gilmar sentia o mesmo amor corrompido que conhecemos bem. Ele se revoltou com o término do namoro, assim como já fizemos várias e várias vezes. A partir daí, ele seguiu nossos pensamentos e desejos secretos. Pegou uma algema, uma arma, foi até a farmácia onde a ex-noiva trabalhava, trancou-a, se algemou a ela. Gilmar tentou seqüestrar a felicidade, aprisionar o amor. Será que isso é mesmo tão estranho ou surpreendente?
Após o fim do namoro, lembro de uma noite na qual liguei umas 20 vezes para minha ex. Por educação, ela atendia, ouvia. Eu não tinha nada para falar. Queria o impossível, o retorno de algo que havia morrido. Só faltou coragem para eu seqüestrá-la.
Não só no fim, mas durante o namoro somos também Gilmar e sua algema. Nosso desejo não se contenta com a felicidade do outro. Queremos a felicidade do outro conosco, por nossa causa, ao nosso lado. Você já viu alguém terminar o namoro ao perceber que o outro merece mais? “Ah, eu amo aquela garota, não queria o fim. Mas acabei tudo quando vi que não a estava fazendo tão feliz”. Esse sim seria um fato extraordinário, uma notícia que eu gostaria de ver estampada na TV!
Os tiros de Gilmar são a expressão última de nossos impulsos autocentrados. O estrondo ouvido pelos policiais é o som de nossos desejos no limite. Muitas vezes pensamos: “Se ele não quer ser feliz comigo, então não quero mais saber dele”. É algo tão medíocre que não conseguimos admitir para nós mesmos. Quando reprimido, esse desejo brota como alegria ao ver o outro se dar mal longe de nós. Vemos uma foto recente no Orkut e sorrimos ao ver que ela está mais gorda, mais feia, em uma cidade pior, ganhando menos. Por inúmeras vezes, eu já senti essa satisfação perversa.
Cada um de nós tem a sua própria farmácia, seu modelo sutil de algema, seu revólver invisível. Em nossas ações cotidianas, em nossos pensamentos calados, contribuímos incessantemente para que aconteçam tragédias como a de Gilmar e Evelyn. Eles são o futuro do casal que teimamos em construir em nossas relações. O exemplo perfeito do que acontece quando amor vira apego, quando trancamos o outro para que ele possa enfim nos amar.
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November 19th, 2007 at 09:11
SOCORRO! Eu seqüestrei e matei minha ex-noiva…
Hoje, na Praia Grande, Gilmar fez com Evelyn algo que todos nós fazemos diariamente com nossos parceiros….
November 19th, 2007 at 10:11
[...] escrito para o NossaVia, sobre a tragédia de hoje na Praia Grande. Link abaixo: Eu seqüestrei e matei minha ex-noiva Escrito por Gustavo Gitti nas categorias: Nossa Via Salve ou [...]
November 19th, 2007 at 11:11
Acho que a sua interpretação do fato pode ser real em alguns casos. Mas só em alguns casos. Basear-se somente nas suas experiências e na sua índole, acredito eu, não é o melhor caminho para analisar um caso como esse.
Eu já senti muito apego a pessoas, já quis muito que elas nunca saíssem de perto de mim, mas nunca quis seqüestrar nem matar ninguém. Isso nunca sequer passou por minha cabeça.
O normal, nesses casos e sofrer a separação e superar depois de um tempo. Qualquer comportamento que se diferencie disso, no meu ponto de vista, é um comportamento anormal.
Ele precisava de tratamento, como você mesmo mencionou. Devia ser uma pessoa, com baixa-estima, pertubada…um desequilibrado.
Não enxergo nenhuma relação de um comportamento desse tipo com a minha pessoa. E acredito que a maioria das pessoas também não.
November 19th, 2007 at 11:11
Não creio que eu seja melhor que qualquer um aqui, mas eu confesso não entender esse sentimento de posse que permeia as relações de tanta gente, de todo tipo de cultura, escolaridade ou grau de consciência. No meu muy humilde entendimento de vida, não há gaiola no mundo que seja um lugar feliz, por mais que ela seja feita de ouro e forrada de veludo. E mesmo que sejamos nós os carcereiros.
November 20th, 2007 at 12:11
Pois é… você coloca as coisas de uma maneira muito interessante, mas…. sempre tem um “mas”… existe algo que nos separa de Gilmar…. enquanto nós temos o “impulso” destrutivo, normal, comum e saudável, ele levou este impulso até a realização… É essa linha tênue que separa as pessoas que constroem das que distroem…
November 20th, 2007 at 03:11
Olá Gustavo,
sou sua leitora no não2não1 e, ao vir conferir o seu texto aqui no Nossa Via, me lembrei de um post que também escrevi há não muito tempo inspirada pelo filme “O Passado”, de Hector Babenco. Se tiver tempo e curiosidade, te convido a visitar (o link é
http://mulher-solteira.blogspot.com/2007/11/humana-demasiado-humana.html).
Beijos,
Cris.
November 20th, 2007 at 08:11
Olá, Bruno. Bem legal seu blog! Em relação ao seu comentário: esse é o pensamento mais comum, criticado pelo meu texto.
É justamente por vermos o Gilmar como “anormal” e por não sentirmos “nenhuma relação” com ele, que isso continua acontecendo. Com esse distanciamento, somos incapazes de compaixão, somos incapazes de curar isso socialmente pois sequer detectamos essas doenças dentro de nós.
…
Oi Marcos! Ah, cara, vejo nos seus textos uma pessoa bem desenvolvida…
Já saiu mundão afora? Só tem Gilmar por aí… Por isso dediquei um texto a não excluirmos e encaixotarmos esses comportamentos dentro da cela rotulada como “anormalidade”.
…
Max, é isso mesmo. Só que a maioria de nós não admite esses impulsos. Somos freiras queimando prostitutas. Elas queimam o externo para tentar acabar com os impulsos sexuais interiores que sempre tiveram.
…
Oi, Cris. Li seu post e já deixei um comentário. Concordo totalmente, claro.
Bom te ver por aqui tb. Beijos!
November 20th, 2007 at 12:11
Gustavo,
Transmissão de pensamento ! Estava justamente imaginando os sentimentos deste rapaz ao ter tal atitude. Não conheço o caso, mas certamente ele não permaneceu preso por faltarem requisitos formais para isso (nossa lei é exigente no que tange a manter alguem encarcerado - o que não a exime de equivocos horrorosos).
Abs
November 20th, 2007 at 01:11
acho q a gente deveria pôr nas cartilhas escolares muitas coisas importantes q absurdamente ainda faltam. uma delas seria a ensinar a amar. qualquer gotinha d ensinamento nesse sentido já seria um ganho social e tanto. os menininhos não aprendem a escovar os dentes; não fica todo mundo em fila, segurando as escovas na mão? então, por que não poderíamos ensinar q, sim, amar é algo q se ensina e se aprende?
November 20th, 2007 at 01:11
Seu comentário daria um post, Myla… um post não, um livro (uma cartilha)!
November 20th, 2007 at 02:11
Boa Wagner!!! A Myla é querida. Taí, vc está intimadaça a enviar um post pro NossaVia (”Via Aberta”) com o inicio dessa cartilha.
Pode ser o sumário dela tb, com as descrições dos capitulos. Que tal?
O Wagner e eu aguardamos, né Wagner?
Abs!
November 20th, 2007 at 07:11
E a cartilha do amor começa com duas mortes… grande Gustavo! Lindo texto.
bj
November 20th, 2007 at 07:11
Taí, Gustavo. A Cartilha do Amor (da Myla) daria uma boa 1ª “coluna” no Nossa Via…
November 21st, 2007 at 12:11
[...] “Cada um de nós guarda o melhor e o pior da humanidade. Somos Hitler e Gandhi. Temos tudo pronto aqui dentro, sempre disponível.” –Gustavo Gitti [Nossa Via - Eu sequestrei e matei minha ex-noiva] [...]
November 21st, 2007 at 01:11
O melhor da blogosfera…
O problema de Veja, em Pedro Doria | Weblog.
Eu seqüestrei e matei minha ex-noiva, em NossaVia.
O grande problema da web como plataforma, em Techbits.
Anotações sobre o BlogCamp MG, em BlogCamp Brasil.
Haicai, em Ter Par Pra Trepar.
P…
November 21st, 2007 at 08:11
“Se eu pudesse, matava!”
“Mas porque um cara desses não morre!”
“Bandido bom é bandido morto”
“Por ele (ela) eu mato e morro”
“Morro de amores”
“Linda de morrer”
São só exemplos.
Morte em vida, como forma de expressão seja de ódio ou amor estão sempre na boca de todos nós.
Que atire a primeira faca aquele que nunca se expressou nesses termos…
É como você disse, temos Hitler e Gandhi dentro de nós, ali, espreitando a oportunidade de se expressar.
Grande abraço
November 21st, 2007 at 09:11
[...] Festas de casamento: cinco bons motivos para se casar (ou não) - Pensar enlouquece, pense nisso! Eu seqüestrei e matei minha ex-noiva ; O segredo é a batata - Nossa Via Ainda bem… - sinceros receios Darkness ’til Dawn - Chá [...]
November 21st, 2007 at 03:11
Gustavo, chego tardiamente, pela repercussão, pois ontem foi feriado aqui. Aliás, um feriado que causou discussão como este seu post e que para mim alcançaria a paz com o remédio citado pela Myla: amor. Mas amor com respeito ao outro, né?
Somos Hitler e Gandhi e devemos sempre agradecer a Deus pelo livre-arbítrio que nos permite, a cada pequeno ato, escolher ser um ou outro. E pela chance de, mesmo errando, podermos ser humildes e voltar atrás, nem que seja depois do vigésimo telefonema.
Vou te contar uma coisa sobre relacionamentos, já que é um tema que lhe atrai: passei por telefonemas, flores e presentes em um mês que “dei um tempo” do namoro com o Gui, há uma década e meia. Ainda bem que ele insistiu.
November 21st, 2007 at 03:11
Eu seqüestrei e matei minha ex-noiva | Nossa Via: o conteúdo passa por aqui…
Gustavo Gitti comentou no Nossa Via o caso do rapaz que matou a ex-namorada em Eu seqüestrei e matei minha ex-noiva. Ele dizia: somos Hitler e Gandhi. …
November 21st, 2007 at 06:11
[...] manhã e indico. Gustavo escreveu no Nossa Via sobre o caso do rapaz que matou a ex-namorada em Eu seqüestrei e matei minha ex-noiva. Comentei tardiamente, já envolvida na repercussão do texto, tanto nos comentários quanto na [...]
November 22nd, 2007 at 09:11
Ei!
Achei muito interessante tudo isso, principalmente por vc ter exposto algo que nós continuamente tentamos negar: a parte negra, sóciopata e psicopata que todos nós temos lá no fundo, nem que seja algo que só aflore nos momentos mais extremos e imprevisíveis.
Há duas semanas, aqui em BH, aconteceu caso semelhante que na minha opinião foi muito mais dramático, mas como tudo que não acontece no eixo SP-RJ não mereceu atenção da imprensa. Um estudante de direito matou com 13 tiros a ex namorada que tinha terminado com ele após 7 anos de namoro, foi para a faculdade e pulou da janela da biblioteca, do 9º andar.
Foi algo tão monstruosamente chocante, tão próximo, todos nos perguntávamos como algo desse tipo era possível, e como, em 7 anos de namoro, ela não soube reconhecer o maníaco, com necessidades de ajuda psiquiatrica que era ele.
Lendo seu post acabo me perguntando: e é possível conhecer de antemão esse lado negro das pessoas que nos cercam? Conhecemos bem nosso proprio lado negro? Não que eu acredite que qualquer um possa chegar a essas vias de fato, mas me pergunto se sabemos, realmente, até onde podemos chegar.
November 22nd, 2007 at 10:11
Sensacional Gustavo!
É difícil a gente ver coisas tao lúcidas sobre uma notícia tao chocante. Sabe, vi casos de violência doméstica com três pessoas próximas e posso te assegurar que em nenhum dos casos a gente podia “prever” que isso fosse acontecer, o agressor realmente era uma pessoa adorável em outros contextos ou até mesmo com a vítima antes de que acontecesse o episódio de violência.
E concordo com você que enquanto a pauta for apenas sobre a consumaçao do fato esse tipo de violência vai seguir, porque precisamos ver que esses padroes estao em nós se queremos mudar algo. A discussao tem que ir mauito além de definir culpas e mandar para a cadeia. Outro dia vi um documentário que falava sobre uma experiência que fazem em Israel sobre isso e onde a tentativa é de tratar realmente o agressor para que ele entenda os processos e nao repita esse padrao de comportamento. Nao adianta só punir.
Bom, isso aqui já virou um mail, vou ver se encontro a info do documentário e te passo.
Até logo.
November 22nd, 2007 at 11:11
Posso só acrescentar um fato que não justifica o assassinato mas nos faz entender o cara ainda mais? A ex-namorada visitou (intimamente) o namorado durante os três meses em que ele esteve preso. E ele foi solto porque ela escreveu uma carta em defesa dele.
E, sim, os apaixonados sempre acham que existe uma chance. Ainda mais quando a outra parte lhe dá motivos, certo?
November 22nd, 2007 at 01:11
Texto FODA!
(Não consigo dizer mais…)
Beijos.
B.
November 26th, 2007 at 12:11
[...] cometidas por seus cidadãos. Nós reagimos mal ou -perdoem o trocadilho- mal reagimos. Fora uma ou outra voz, a maioria cala, mesmo quando é alvo da [...]
November 27th, 2007 at 02:11
Oi
Cheguei tarde ao post…enfim…acontece!
Bom esse teu outro blog.
Olha só vou repetir o que uma vez escutei de minha defensoria pública orientadora durante meu estágio na Defensoria Pública do RJ. Ela disse após um assistido sair da sala: “todos nós somos capazes de matar pelos motivos mais torpez e insignificantes possíveis. Apenas poucos, muito poucos, são capazes de estuprar”
É isso…
December 3rd, 2007 at 12:12
[...] pensa que o mundo não é tão simples assim. (Aqui mesmo na NossaVia, o Gustavo Gitti escreveu um texto brilhante sobre isso.) Além de criar uma relação equivocada com o conceito de [...]
December 10th, 2007 at 01:12
[...] pensa que o mundo não é tão simples assim. (Aqui mesmo na NossaVia, o Gustavo Gitti escreveu um texto brilhante sobre isso.) Além de criar uma relação equivocada com o conceito de [...]