Faça suas próprias regras
Uma situação que sempre me volta à mente, quando percebo que estou sendo ?desobediente?, é a de minha mãe, me pedindo para parar de pular e calçar os chinelos, no dia em que menstruei pela primeira vez. Ela insistia para que eu ficasse quieta, pois estava menstruada e ?não podia?. Minha reação imediata foi pular mais alto ainda, e, claro, com os pés descalços, feliz da vida!
A transgressão sempre me deu agradáveis comichões e, apesar de ser uma ?boa menina? e me comportar de acordo com o que a nossa cultura considera ?normal?, até por uma questão de sobrevivência, nunca consigo deixar de questionar regras que todo mundo segue, mas que eu, às vezes, nem sei de onde saíram, nem qual a sua finalidade.
Há muito tempo que, observando o funcionamento das relações afetivas, questiono o casamento tradicional, a monogamia, o conceito de ?traição?, a eficiência do amor romântico, e outras tantas mazelas da nossa cultura. Quase ninguém, nesse meu mundinho, me dá bola.
ÿs vezes, quando toco nesses assuntos, mudam o rumo da prosa, com medo de que a coisa acabe mal. O que é bem possível, porque muita gente se ?ofende? quando apresentamos idéias diferentes das conhecidas. Parece-me que o consenso geral é de que mais vale ser hipócrita para se garantir ?um lugar ao sol? do que se expor e arrumar encrenca. Porque, sinceramente, não acredito que bem no nosso íntimo sejamos tão diferentes assim…
Pássaros em gaiolas, peixinhos em aquários (outro dia o da minha sobrinha se suicidou, pulando pra fora do aquário, magine a necessidade que ele tinha de sair dali!), feras enjauladas e seres humanos aprisionados em crenças extremamente limitadoras me dão agonia.
Há alguns dias, no programa ?Saia Justa?, da GNT, durante uma discussão sobre o porquê dos casamentos acabarem, uma das meninas, a Betty Lago, atribuiu a uma ?amiga?, cujo nome não disse (na verdade, achei que a ?amiga? era ela mesma, que não quis ?levantar essa bandeira?), a idéia de que ?transar com a mesma pessoa a vida inteira enjoa?. Márcia Tiburi, uma filósofa super pensante e que parece saber tudo sobre o comportamento humano, surpreendeu-se pela amiga ter tido a ?coragem? de fazer tal afirmação!
Mas, afinal, em que século estamos? Que raio de terceiro milênio é esse em que as pessoas não podem falar abertamente uma coisa tão óbvia? E mulheres tão modernas e inteligentes como as ?saias? ainda precisam se armar de coragem pra isso? Não fosse verdade essa afirmação, por que adolescentes que se dizem apaixonados pela namorada teriam tanta necessidade de ir pra balada ?pegar? alguém diferente? E por que pessoas casadas, que dizem gostar de seus parceiros, trairiam?
Ultimamente, em algumas ocasiões, tenho vislumbrado uma réstia de luz nesse céu de sentimentos tão nublado de hipocrisia. Outro dia, no Happy Hour, outro programa da GNT, Astrid, a apresentadora, conversou com Flávio Braga, que escreveu, junto com sua mulher, a sexóloga Regina Navarro Lins, o livro ?Fidelidade Obrigatória e Outras Deslealdades?. O casal defende a idéia de que ?todo mundo faz pacto de exclusividade e todo mundo transa fora do casamento. Todo mundo tem vontade de variar, sentir outro cheiro, outro toque, e ninguém diz isso?. Eles acreditam que ?a fidelidade obrigatória mina as relações ao longo dos anos?. Regina considera que ?ninguém é obrigado a ter relação extraconjugal, mas ninguém pode te impor isso?. Ela diz que, antigamente, 100% dos parceiros queriam exclusividade. Hoje, 80% querem. Mas acredita que a tendência é de que o jogo vire daqui a um tempo. ?O importante é ser desejado e amado. O que o outro faz quando não está com você não lhe diz respeito. Aos poucos o amor romântico vai dar lugar à busca pela individualidade?, aposta.
A discussão rolou com enorme naturalidade, obviamente pela competência da apresentadora, o que já representa um avanço considerável quando se trata de assunto tão polêmico.
Semana passada um conhecido meu, extremamente conservador, veio comentar comigo, muito empolgado, uma matéria que lera, no jornal, a respeito do ?poliamor?, um termo que começa agora a ficar conhecido, e que, resumidamente, é estar aberto para a possibilidade de gostar de mais de uma pessoa ao mesmo tempo, e se propor a viver isso com responsabilidade, honestidade e compromisso entre os envolvidos. O conceito não tem nada a ver com adultério. Segundo o ?poliamor?, fidelidade não se refere à posse do outro, de seu corpo ou de seu coração, e sim à confiança mútua no envolvimento dos parceiros.
Aliás, as transgressões só podem existir quando há alguma regra para ser quebrada. Se ninguém tivesse criado a bendita da regra, não existiria a transgressão. Se a monogamia não tivesse sido imposta até por lei, a poligamia não teria nada de errado.
No mundo todo, há uma variedade imensa de formatos de relacionamentos. E todos podem funcionar, todos podem trazer alegria, desde que estejamos abertos para isso e que nosso cérebro não esteja engessado de tanto ouvir que ?só isso é o certo? ou ?só isso é o errado?. Acredito que se não passássemos por essa verdadeira lavagem cerebral desde que nascemos, as pessoas não carregariam tanto sentimento de culpa, o mundo teria menos crimes passionais e menos mulheres mutilariam seus maridos para castigá-los por uma traição. Quanta desgraça poderia ser evitada!
Finalmente, ontem, no ?The Oprah Winfrey Show?, vi uma família constituída por um marido e três esposas, esbanjando felicidade! Eles são dos Estados Unidos, e moram num lugar onde essa prática é rotineira, e passa de geração em geração. As pessoas nascem nesse meio e, convivendo direto com isso, acham absolutamente normal. O marido se dizia agraciado por Deus, por ter o amor de três esposas maravilhosas. As esposas se diziam plenamente felizes e livres para sair do relacionamento no momento em que quisessem. E garantiam que, nesse sistema, o casamento é mais feliz porque, entre outras coisas, as esposas se ajudam entre si, não dependendo exclusivamente do marido, e a expectativa em cima do outro acaba sendo menor.
Oprah me pareceu indignada durante quase toda a entrevista, pois não conseguia conceber em sua mente um mundo onde não houvesse ciúme, onde várias mulheres ?dividissem? entre si a atenção e o amor de um só homem, e também onde um homem conseguisse satisfazer três esposas sem magoar uma ou outra o tempo todo. Os entrevistados juravam que são pessoas normais, e que têm sentimentos iguais aos de todo mundo, apenas administram melhor isso. E, claro, como tudo é
de comum acordo, não há traição, então ninguém se sente traído.
Tenho que admitir que, apesar de já ter teorizado muito a esse respeito, até em mim tudo isso causou uma grande estranheza. Mas acredito que seja porque nasci nesse nosso sistema e também tenho o meu cérebro parcialmente engessado.
A verdade é que o amor é, talvez, a única coisa nessa vida que podemos produzir incessantemente, desde que nascemos até morrer, e podemos distribuí-lo, sem mesquinharia, porque ele não se acaba. Podemos dividir nosso amor entre pai e mãe, entre inúmeros filhos, entre uma legião de amigos.
Por que, ao se tratar de amor que envolve sexualidade, temos que nos restringir a um só companheiro, ?até que a morte nos separe?? E lidar, assim, com uma frustração que acaba transformando o outro num empecilho? São as regras, acredito eu. Alguém as inventa, e todos as seguem.
Isso me fez lembrar de uma história engraçadinha que li, sobre Chicão, o filho da Cássia Eller, essa maravilhosa mulher que fazia suas próprias regras. Certo dia, Chicão, ainda bem pequenininho, convivendo desde que nascera com a mãe, Cássia, e sua namorada, Eugênia, ao ver Cássia se machucar, disse:
- Mãe, você tá machucado! ? Cássia, como toda boa mãe, o corrigiu:
- Machucado não, filho, mamãe é mulher, é machucada. O menino, meio confuso, disse:
- Mas você namora com ela… mulher não namora com mulher… Ao que Cássia respondeu, com toda desenvoltura:
- Namora sim, filho, eu namoro com a Eugênia… E o menino, depois de pensar um pouco:
- Ah…
ÿ isso aí. Quem tiver cabeça boa, que faça suas próprias regras.
Texto enviado por Ana Lucia Sorrentino Garé para publicação na nossa Via Aberta. Você também pode escrever para o NossaVia! Para tanto, é só preencher este formulário com o texto que você quer publicar aqui, juntamente com a categoria que ele faz parte, e torcer para ele ser selecionado! Participando, você pode ser convidado a fazer parte da equipe de editores fixos. Lembrando que o texto tem que ser inédito, ok?
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November 26th, 2007 at 02:11
Parabéns pelo post, Ana Lúcia!!!
Abração!
November 26th, 2007 at 03:11
Fazer suas próprias regras requer, sem dúvida, alguma coragem.
Questionar as regras já estabelecidas demanda um coração inquieto, em permanente busca por um ideal. Mas que ideal é este?
Do mesmo jeito que os barcos enfrentam o mar revolto também permanecem dias e dias ancorados - e continuam sendo barcos.
Tudo é questão de momento. Agora, você está no mar.
Boa sorte,
beijos,
Cris
November 26th, 2007 at 03:11
Belo post, caríssima. Concordo com tudo, menos com o “cérebro parcialmente engessado”. Querer pensar as coisas sob novas perspectivas já é um belo sinal de liberdade.
E também gostei do termo “poliamor”, apesar de achar que é apenas um eufemismo para “casamento aberto”.
Abraços.
VP.
November 26th, 2007 at 03:11
Muito bom MESMO Ana!!!
Sem querer cutucar ninguém, mas temos que lembrar que boa parte dessa nossa “sociedade engessada” deve-se à religião. Aliás, é o que acaba acontecendo na maioria do mundo, as leis seguem a religião da maioria do país. Ai, quando acontecem coisas como o Estado permitir e “homologar” uniões homossexuais e coisas do tipo, algumas pessoas viram e dizem que aquilo é um absurdo - por que? Não sou homossexual, mas tenho amigos e os respeito e gosto tanto quanto meus amigos que não o são - não há diferença alguma, com quem eles estão não tem nada a ver comigo. E porque deveria?
Mas eu me desvirtuei do assunto rs… Eu também pensava, até um tempo atrás, que amor significava exclusividade. Quer dizer, pensava não, sentia. Mais recentemente comecei a pensar exatamente como você diz num pedaço: se produzimos amor o tempo todo desde nascer até morrer, se o dividimos entre familiares e amigos, porque pra esse caso deve haver exclusividade? Porque não podemos dividir?
Seria bom ter mais pessoas com cabeças assim… Mentes abertas sempre ganham mais idéias dividindo-as =)
De novo, parabéns pelo texto!
November 26th, 2007 at 10:11
Gustavo: Obrigada! E, mais uma vez, obrigada pelas dicas! Sou muito exigente, e acabo sempre querendo arrancar mais de você! Mas, vamos nos adaptando…
Cris: Tudo, na vida, requer coragem e tem conseqüências. Mas o exercício de questionar é delicioso. Se pudermos testar, empiricamente, nossas teorias, melhor ainda. O sofrimento ou alegria que vierem junto, virão acompanhados da certeza de que sabemos do que estamos falando, não apenas acatamos o que nos foi ensinado. Muitas vezes, ancorada, me sentia em pleno mar revolto. Se for pra voltar a ficar ancorada, quero que minha âncora seja bem levinha, e não chumbada ao fundo do mar.rsrsrs…
Obrigada, Marcos! Mas, com certeza, deve haver várias partes do meu cérebro que ainda estão, pelo menos, precisando de uma boa fisioterapia! rsrsrs… Quando ao termo, é bacana, mas, na verdade, deveria ser simplesmente “amor”, não é mesmo?
Johnny:
Realmente, se você analisar essas regras rígidas e esses comportamentos engessados, quase sempre você vai cair nos mesmos motivos: religião e capitalismo (de preferência selvagem). Cabe a nós, que gostamos de questionar, passar esses questionamentos pra frente. Mas, é verdade, tem algo mais mesquinho do que enquadrar o amor?
Beijos!
Analú
November 27th, 2007 at 12:11
somos ensinados, desde pequenos: se agirmos conforme papai e mamãe querem, seremos premiados com brinquedos, mimos e amor. se agirmos contrariamente, não receberemos nada ou ficaremos d castigo uma hora, um dia, uma semana, um mês…
é raro o pai/mãe q ensina ao filho que ele lhe será amado independente da escolha de suas ações externas, independente d acatar ou não as vontades dos pais.
acho q muito do problema está aí, o de crescermos entendendo que a validação do outro ou d uma situação externa seja mais importante do q a nossa própria, q vem d dentro. essência intrínseca.
ótimo texto e belíssima aquela sua poesia que está no you tube!!! :0)
parabéns!!!!
November 27th, 2007 at 01:11
Compartilho com os seus sentimentos, a cultura desvirtuou o significado de amor, usou o de diversas formas para condicionar as pessoas(engessamento) para tentar dar ordem as coisas, se não, poderia ser uma anarquia geral, mas as coisas tem consequências, as intenções eram boas, mas hoje ,eu, outra geração, tenho consciência disso e acredito lidar com essas quebras de dogmas mais facilmente.Para quem já casou e viveu esse tipo de realidade pode ser mais dificil, não é facil aprender que tudo o que te ensinaram está errado, ou talvez um pouco deturpado, acho que este termo é melhor, afinal, depois de repensar em toda essa filosofia sobre amor, casamento e etc, é melhor começar a repensar o que é o certo e o errado?ÿ tudo relativo….
beijos…a sobrinha do peixe
November 28th, 2007 at 12:11
Myla: além desse treinamento “seja boazinha senão ninguém vai gostar de você”, tem o fator exemplo, que acho que conta mais do que qualquer coisa. Obrigada pelo comentário! E se vc gostou da poesia, no Nossa Vitrine tem mais sobre o meu trabalho como escritora. Beijo!
Paulucha! Sabia que vc viria! Espero não ter te deixado triste por lembrar do peixinho! Mas, é mesmo, o que é certo, e o que é errado? Talvez devêssemos escutar muito mais nosso coração, que é o nosso cérebro sábio, pra tomarmos nossas decisões!
Beijão!
Analú
November 29th, 2007 at 01:11
oi Ana, obrigada pelo carinho. vou te procurar lá no Nossa Vitrine.
beijos,
myla
December 13th, 2007 at 02:12
Olá Analú,
Gostaria de te parabenizar pelo post, apesar de eu não concordar com a poligamia (risos), tudo que você relatou foi muito bem pensado, muito bem analisado!
Quanto a fazer as próprias regras, sim as pessoas seriam mais felizes quando se preocupassem mais em fazer o que elas querem, do que o que os outros esperam que elas façam…
Beijos.
Parabéns novamente!
Andressa
October 4th, 2008 at 11:10
Concordo com tudo Analú,
Acho que a idéia principal deste texto é que se nós podemos amar várias filhos, vários amigos, vários familiares, porque não amar várias pessoas com relação a sexualidade?
Você definiu muito bem.
A sociedade deveria refletir mais sobre isso.
Esse lance de fidelidade nada mais é do que uma hipocrisia inventada pelo homem devido sua incapacidade de lidar com o egoísmo, com o desejo de posse absoluta e com a dificuldade de compartilhar.
Ciúmes é um defeito! Ao invés de tentarmos combatê-lo, o que fizemos?Criamos uma regra (Cada um terá sua própria e única esposa ou seu próprio e único marido) que por si só auto-preserva este sentimento imaturo e impede uma maior evolução emocional.
Quem ama de verdade não acorrenta, apenas liberta, não sufoca, apenas alivia, não provoca brigas ou lágrimas, apenas sorrisos, e por fim não está interessado em ser o único correspondido, mas sim no bem estar de seu amado(a).
Bjo