Maria do Matué - Uma estória do Rio São Francisco

“Compositor do primeiro time brasileiro, cantor e instrumentista dos melhores, Tavinho Moura pode se orgulhar de uma carreira artística que prima pelo rigor estético, coerência e fidelidade a si mesmo e ao caminho escolhido. Sua contribuição para nossas vidas ultrapassa mesmo o prazer de ouvir suas belíssimas canções: ele tem sido um infatigável pesquisador, descobridor e divulgador da cultura mineira, e, com isso, tem nos despertado para a enorme riqueza, variedade, e possibilidades desse patrimônio maior de Minas Gerais, sua gente e a cultura que dela se origina.”
Assim define Leonardo Magalhães Gomes a Tavinho Moura, autor do livro Maria do Matué - Uma estória do Rio São Francisco que está sendo lançado hoje (20h) aqui em Florianópolis (no Teatro Álvaro de Carvalho) dentro da programação do Floripa Instrumental. E eu, junto com a atriz da Cia que integro, teremos o imenso prazer de estar partipando deste lançamento. Denise da Luz fará leitura de partes do belíssimo livro durante o show do mineiro, enquanto estarei fazendo a iluminação.
Mas, acima do trabalho artístico, está a satisfação por poder ler esta biografia imaginária, a história dessa mulher, essa “explosão de mineiridade, brasilidade e humanidade que se fixa em nossas retinas como cinema, literatura nova e sabedoria“, como diz Fernando Brant na contracapa do livro.
Um livro belíssimo, carregado de poesia e de uma escrita que cativa pela simplicidade e profundidade de suas letras. Na vida contada na primeira pessoa vemos diversos aspectos da vida de muitos brasileiros, vemos diversos aspectos de nós mesmos. Não que tenhamos passado pelas mesmas estórias, mas porque encontramos nesse movimento de uma vida, diversos movimentos que fazemos na tentativa de encontrarmos nosso lugar no mundo.
“Sempre chefiei minha vida; nenhum tropeço, ninguém, nem nada me tomou das mãos a rédea. Ando assustada com o que o tempo desfaz. Quando incomodada, fico encantoada, jururu feito passarinho na muda. Sempre fui cercada de muito respeito , mas querem me incutir a caduquice. Dizem que não sei falar direito as palavras, que sou Maria do mato, matueira, Maria do Matué, que fui parida numa lapa, junto à sujeira dos esqueletos na pedreira do Sangradouro do Gato. Onde se ajunta muita gente a pessoa perde valor, tem medo de ter opinião formada, é aí que o diabo se esbalda. ÿ lugar pra ter cachorro amarelo, mulher azucrinada, criada na fala alta, para aborrecer a cabeça da gente. (…)
Estou dentro dos meus noventa anos, não posso me levantar de susto nem deitar de uma só vez; um descuido, cochilão pega. ÿs vezes durmo no início da noite, acordo dentro dela. Fico beliscando essa fábrica de mim mesma, que está comigo há uma centena de anos. Ouço rumores, escuto meu coração; ainda no escuro, gosta de falar sozinho. Sinto, vejo, muita coisa vem na direção dos meus sentidos, até que a manhã clareia o dia e tudo esfumaça.”
Junto com o livro acompanha um CD intitulado Rua do Cachorro Sentado que, junto aos trechos do livro, é a base do show apresentado esta noite. O CD segundo as palavras do autor não é trilha sonora para a história de Maria do Matué: ?O CD é um universo paralelo, mas as canções falam sobre coisas de rio… Acaba sendo uma outra coisa dentro da mesma coisa?, explica o compositor. O nome do álbum foi baseado no antigo nome da rua onde Tavinho tem seu rancho, onde morava Maria do Matué.
E esta Maria do Matué existiu? Sim, seu nome também é Maria e viveu no rancho pesqueiro de Tavinho Moura em Barra do Guaicuí e faleceu em 2004, aos 94 anos. ?ÿ uma homenagem a esta senhora detentora de toda uma cultura de subsistência, uma coisa que está praticamente em extinção. Seu marido morreu quando era muito nova e foi ela que criou os filhos, ela que plantava, roçava e fazia tudo. Ela também detém um aspecto cultural porque toda a mitologia do rio (São Francisco) está presente na vida dela? explica o autor.
Outro aspecto que merece menção são as belíssimas ilustrações de Jorge dos Anjos que integrada ao projeto gráfico da Hardy Design, complementa brilhantemente o trabalho.
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