Anjo ou demônio?
A ida para o trabalho pode ser um estresse sem igual em São Paulo, tudo graças ao trânsito. Escrevo numa manhã em que o metrô teve problemas na linha norte-sul às seis da manhã (horário de pico) e motoboys fazem manifestações na Radial Leste até a ligação leste-oeste, além das marginais Tietê e Pinheiros. Estas tradicionais vias de trânsito rápido, invariavelmente congestionadas, tiveram tentativas de barricada desde antes das 7h da manhã, com grupos de 40 a 70 motoboys fechando o trânsito com sua baixa velocidade, fazendo o que eles chamam de “protesto”.
Claro que eles podem protestar e eu não deixo de me entusiasmar quando vejo a sociedade civil se reunindo em torno de uma causa- atitude rara no nosso país que considero “acomodado”.
Mas, como lembrou Gilberto Dimenstein na CBN, “eles não protestam contra a exploração que sofrem das empresas que os forçam a correr contra o tempo”, contra o executivo que reclama de sua imprudência no trânsito mas contrata seus serviços para pagar contas ou levar documentos em cima da hora. Infelizmente não é uma ação cívica: eles protestam contra mudanças que a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) tenta implantar na capital paulista para conter o aumento dos acidentes ( foram 380 mortes em 2006, número que triplicou em três anos).
A questão começou já nos primeiros dias do ano, com reações contra a obrigatoriedade do uso de faixas refletivas nos capacetes dos motociclistas e motoboys. A questão é simples, embora não justifique a reação deles. As faixas sumiram do mercado e as - poucas - que estão à venda são majoradas pela necessidade. Quem não usar assume o risco de levar multa e 5 pontos na CNH.
Não sei se as faixas realmente nos ajudarão a “ver” os motoboys. Como se diz no interior, eles são ladinos.
Na sua esperteza surgem repentinamente, transitando quase sempre entre duas fileiras de automóveis e acreditam que sua “buzinadinha” tem poder mágico de abrir o caminho para sua passagem… em verdade, eles simplesmente usam este “abra-te sésamo” como uma ameaça ao veículo que está à sua frente. O risco é atropelar “um deles” e ser linchado por 4o ou mais colegas. São comuns noticias de que eles param em bandos para fazer justiça com as próprias mãos, amassando e quebrando o carro de quem fere um motoboy no trânsito.
O que aconteceu nesta sexta-feira, 18/01, não é infelizmente problema só de São Paulo. Segundo li na revista Época desta semana medidas “pouco ortodoxas estão sendo testadas em vários Estados”. A reportagem cita exemplos no Rio Grande do Sul, Alagoas e Rio de Janeiro, cidade onde a questão tem sido encarada com gravidade como aqui. A questão, defendida pelo governador Sérgio Cabral, além da segurança no trânsito, envolve um desejo de vários municípios de probir a garupa, sob o argumento de que dificultaria a prática de crimes no trânsito, como os do apresentador de TV Luciano Huck no ano passado e mais recentemente o filho do médico Lídio Toledo.
Entender o motoboy pode ser um começo. Em 2003 o documentário Motoboys – Vida Loca (de onde tirei esta imagem de divulgação) nos permitiu ver o outro lado, uma condição para emitirmos qualquer julgamento. Infelizmente, continua atual. Em 2003, estimava-se que a frota paulistana estivesse entre 170 e 350 mil motos. Hoje fala-se em 652 mil motos em circulação na capital.
Como cidadã vejo que a questão primordial é fazer motociclistas, motoristas e (por que não) pedestres respeitem as leis de trânsito e convivam de forma segura.
Criar condições para que as atuais leis sejam cumpridas e que os infratores sejam efetivamente punidos será um passo na consolidação de uma sociedade menos violenta e, me arrisco a dizer, mais capaz de oferecer igualdade de direitos aos seus cidadãos.
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January 21st, 2008 at 09:01
Sá,
Excelente texto! Muito bem colocado.
Também acho que se todos respeitassem a lei, ficaria muito mais fácil a convivência no trânsito, para todos.
Mas, se os motoboys respeitarem a lei (especialmente o artigo 192 do Código de Trânsito Brasileiro), eles não vão poder mais passar entre os carros para “furar” os congestionamentos. E aí, como ficarão as entregas rápidas, não é mesmo?
Equação difícil esta de resolver… Mas ainda acho que devem ser buscadas solucões alternativas, pra tentar diminuir o grande número de acidentes que envolvem os motoboys, e também os outros motociclistas, hoje em dia.
O que não dá é pra vivermos no meio dessa guerra no trânsito, que resulta na perda da segurança e até mesmo da vida de tantos, pra que se resolvam o problema da falta de tempo de outros…
January 21st, 2008 at 09:01
Anjo ou demônio? | Nossa Via: o conteúdo passa por aqui!…
Personagem indefectível das grandes cidades brasileiras, o motoboy é o Ênjo%D que resolve os problemas da nossa falta de tempo e o Íemônio%D que raspa seu retrovisor e com sua buzina faz lembrar seu atraso e sua perda de tempo no congestionamento….
January 21st, 2008 at 03:01
Sam, você sabe que aqui em Curitiba temos um trânsito razoável (ainda) embora tenha acabado de falar com meu marido e ele tenha me dito que levou 1 hora a mais para chegar ao trabalho hoje por conta das obras da Marechal (e uma hora no trânsito aqui de Curitiba você sabe é muita coisa), e justamente por nosso trânsito aqui ainda ser bom, acabo por considerar os motoboys “demônios”, aqueles que aparecem do nada na frente do seu carro, levam o retrovisor consigo…e em geral não respeitam as leis de trânsito, contudo, em uma cidade como SP, imagino que apesar disso eles sejam essenciais para cumprir as grandes distâncias da cidade, os horários de pico, as entregas urgentes e os horários apertados de uma grande metrópole. Assim como você acho importantíssimo que grupos da sociedade civil se organizem e protestem pedindo melhores condições de trabalho (exigências um pouco duvidosas na minha opinião) porém como tudo na vida, deveria vir com uma boa dose de bom senso. mas como tudo nesse país, parece que para alguém ser ouvido é necessário que muitas pessoas sejam prejudicadas. “O direito de um acaba onde começa o do outro” …enquanto isso aqueles que detém o poder de decisão devem estar usando seus helicópteros, e outros meios para não serem afetados diretamente por esse protesto!
excelente texto.
January 21st, 2008 at 03:01
[...] dia eu comecei a escrever sobre o tema e terminei ontem, postando no Nossa Via. Para você motoboys são anjos das entregas ou vilões do trânsito? Personagem indefectível [...]
January 21st, 2008 at 06:01
Oi Sam, adorei o tema de hoje e acho que realmente estamos, enfim, buscando algumas soluções para este trânsito caótico. O ” protesto” retrata um pouco a nossa cultura de se revoltar contra uma ordem extremamente necessária simplesmente porque muda os hábitos de pequenos guetos, que não estão dispostos a conviver com as diferenças. Mas, espero que a lei se cumpra e, no futuro, possamos conviver com menos regras, e mais educação!
January 21st, 2008 at 06:01
Definitivamente eu adoro moto - tenho uma Harley em casa (moto estradeira) mas não suporto motoboys - não gosto do abuso e tão pouco desse abra-te sesamo que eles usam. Aqui em São Paulo já virou mafia. Um caí na rua e surgem centenas do nada…
Recentemente li a respeito de uma empresa de ciclistas e existem regras - algo que não ocorre com relação aos motoboys. Fiquei surpresa em saber que a empresa começou com dois ciclistas e devido a aceitação - hoje já conta com mais de 50 ciclistas. Há rapidez, respeito e educação, o que visivelmente falta aos motoboys que dizem que o cliente exige sua rapidez - pode até ser, mas não exige que ele não respeite sinalização, leis de trânsito e pior, coloque em risco a vida de outras pessoas ou a própria vida na maioria das vezes.
Concordo com você quanto as leis mais rígidas para eles, mas há um detalhe que reflete a falta de organização da cidade - São Paulo não tem faixa exclusiva para ciclistas - e tem (infelizmente) umas das maiores frotas de veículos do mundo - um caos e vale lembrar que não são os motociclistas os únicos que não respeitam as leis - afinal, os acidentes estão aí para comprovar e se for observar as reações, todos se julgam conscientes de seus direitos e deveres.
Detalhe. A maioria os deconhece, tanta quanto as leis vigentes com relação a direção perigosa, entre outros. Por isso, acho que o assunto não se limita aos benditos motoboys.
Ps. Mas como sempre, seu artigo faz pensar e abre as portas para análises a respeito.
Abraços meus
January 21st, 2008 at 07:01
Oi Sam,
Sim, não é só nas cidades grandes. Falo daqui também! Como tem Motoboy!
Acho engraçado protestar por criar leis que os beneficiarão!
São imprudentes….
Beijos,Aline
January 21st, 2008 at 08:01
Não há medida que corrija esse problema sem uma atitude de toda a sociedade: CUMPRIR A LEI!
Motoboys são conhecidos por não cumprir lei de trânsito alguma.
Em São Paulo eles buzinam mesmo quando tem a trilha aberta, apenas e tão somente para irritar os demais motoristas e experimentarem alguma superioridade sobre os demais. Eles costuram o trânsito, mudam de faixa sem dar sinal, riscam e amassam os veículos alheios e não páram para assumir os danos que causam.
E isso já acontece em Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis e em todas as demais grandes capitais, porque, quando alguém descumpre a lei e ninguém faz nada, vira epidemia.
Enfim, para tentar solucionar isso é preciso fiscalização, multa pecuniária, apreensão da moto e julgamento dos que cometerem crimes… mas daí terá um monte de políticos demagogos passando a mão na cabeça dos marginais, dizendo que eles são injustiçados.
January 21st, 2008 at 08:01
Num país onde as leis são ignoradas, onde não há fiscalização, onde não a respeito e tolerância, todos somos “anjos ou demônios”.
Motoboy não é nenhuma coisa nem outra, é apenas mais um, lutando pela sobrevivência num país onde a desigualdade social é abertamente ignorada!
January 21st, 2008 at 08:01
oi Sam, a coisa é mesmo complicada. nossa atual economia anda fomentando um incremento cada vez mais crescente e significativo - como já vem acontecendo desde o ano passado, em q houve um boom d venda d motos, principalmente por aquela faixa da população q não consegue comprar um carro mas encontra meios d comprar uma moto. além disso, tb cada vez mais pessoas, favorecidas pelo mesmo cenário, estão comprando mais carros. ou seja, a frota tende só a aumentar e as ruas, em sua maioria, continuam/continuarão as mesmas, mantendo o mesmo fluxo d vazão.
o jeito, talvez, estaria em melhorar o serviço d transporte: busu e metrô, principalmente. oferecendo uma frota d veículos em boas condições e com segurança, englobando-a em uma logística bem planejada.
assim, se isso fosse feito, as pessoas inevitavelmente começariam a ver que ir p o trabalho d metrô/busu sai mais barato e é mais seguro q de carro. o q entope o trânsito - e já há várias pesquisas q constataram o mesmo - é a enorme quantidade d carros q trafegam com uma pessoa apenas - estimativa d 70 a 80% dos casos, nos grandes centros.
veja só, se parte desse pessoal adotasse o transporte público e claro, na nossa hipótese, ele seria um d qualidade e eficiência - o trânsito seria outra coisa - p todo mundo, tanto p o pedestre qto pro motorista e, principalmente p as vítimas d acidentes. medidas q salvariam vidas e mais vidas todos os dias…
no entanto, esse é apenas mais um exemplo: um problema contornável q fica à espera da boa vontade política p ser executado pq a literatura, os estudos, pesquisas, já apontam alternativas super interessantes d se ir contornando a questão.
beijos - achei o assunto super relevante!
January 21st, 2008 at 11:01
Um assunto que toda cidade grande enfrenta hoje em dia. Não é possível ignorar.
January 22nd, 2008 at 11:01
Mesmo sabendo que nas motos estam mais vulneráveis, insitem em competir com carros e caminhões. Mas eu não ando de carro nem de caminhão, o que sei de motoqueiros é que jogam as motos emcima da gente pedestre por diversão.
Não foi uma ou duas vezes que me fizeram isso. Sozinha, já tenho pavor quando vejo um motoqueiro vindo. Tenho que pensar para onde vou me jogar dessa vez. Para atravessar a rua nem se fala.
Agora me digam, o que querem que eu pense sobre eles? E trabalhador, todos nós somos. Mas eles não me respeitam, nem minha mãe com 65 anos, eles respeitam. Como querem apoio?
January 22nd, 2008 at 11:01
Esse é um pequeno instantâneo da nossa situação. Cada um por si, quem pode mais chora menos; cada um apenas vê o seu próprio problema, e o resultado é a revolta coletiva de uns e a revolta individual de quem não se considera parte do problema, apenas válvula de escape da raiva alheia.. Recomendo “O cobrador” como leitura de cabeceira.
January 22nd, 2008 at 01:01
Acho que enlouqueceria se Recife tivesse a mesma quantidade de motoboys das grandes capitais! Com carteira de habilitação a menos de um ano e super neurótica na direção, nem sei como seria pra mim.
Mas convenhamos, realmente é uma relação de amor e ódio: nos dias atuais é inimaginável sair de madrugada para comprar aquele remédio que acabou quando temos essa facilidade de entrega, feita pelos mesmos vilões, a nossa disposição.
Beijos
January 22nd, 2008 at 02:01
Motoboy, assim como os antigos despachantes, são todas profissões quebra-galho para driblar as carências administrativas no Brasil. Existe alguma entrega rapida que possa justificar os riscos que estes rapazes correm e que fazem os outros correr? Eles deviam obedecer às leis do trânsito como todo mundo, sera que é a lei da selva? Muito bom este artigo, Sam, parabéns.
January 22nd, 2008 at 02:01
Sam, acho um absurdo os motoboys reclamarem de benefícios para eles mesmos, mas acho também que o brasileiro deve aprender á respeitar e a seguir as Leis, assim como deveríamos
tem um transporte melhor.
Beijos
January 23rd, 2008 at 12:01
[...] >> leia o texto na integra aqui [...]
January 23rd, 2008 at 12:01
O que me incomoda é o fato de que já virou uma mafia aqui em São Paulo e isso de reunir centenas de motoqueiros em volta de um motorista que na maioira das vezes nem tem culpa do que aconteceu.
Muito bom artigo esse seu.
January 23rd, 2008 at 07:01
Texto perfeito! Sem mais.
June 21st, 2008 at 01:06
[...] raspa seu retrovisor e com sua buzina faz lembrar seu atraso e sua perda de tempo no congestionamenhttp://www.nossavia.com.br/comportamento/motoboysRaspa, Nick1955- Picture, biography, performances, and works.http://members.aol.com/njrmuse/Alex [...]