O avesso da metrópole
Janela Aberta - um olhar que se perde em meio a paisagem da cidade. Lá fora o vai e vem de passos - a pressa por tuas esquinas, o silencio que falta em tuas ruas. Trânsito parado - rádio ligado. No ônibus lotado seguem seus sonâmbulos ausentes que não te descobrem - não te sabem…
Essa cidade é um mistério que paira por trás de casa desenho que se forma pelo caminho. O desavisado que vai mais adiante, nem imagina quem foi o tal Brigadeiro Luis Antonio. Não percebe tua história esculpida em cada prédio, estação, mercado, loja erguidos ao longo dos anos, em linhas e contornos de um desenho cheio de vazios…
Em minha janela, eu me perco em tua história. A pequena “Vila” abandonada, esquecida, preterida por aqueles que viram aqui grandes espaços vazios! Ah! Se soubessem o que eu sei…
Tantos anos não sendo muito mais que uma vila. Mas teu destino estava nas mãos de homens fadados a te detruir - te rasgar ao meio, reinventar teu desenho, ampliar seus horizontes, romper com seus caminhos e divisas, dando a ti o valor da grandeza de teu nome.
Cidade de tantos corações pulsando mais forte! Cidade - metrópole - capital do café - da riqueza que te fere - capital dos negócios - mundo insólito que te destrói e te obriga a uma modernidade injusta, ingrata que te impõe ilusões de concreto edificado sobre os ombros de teus marechais. Cidade - que vejo do alto - de assalto - sem medo - de onde imagino meus passos por suas ruas… Essa cidade sem identidade - pedaço do mundo por onde seguem ausentes o passo de tua gente estrangeira.
Que cidade é essa que vai dormir um dia “Vila” e desperta cidade a bordo de seus 454 anos que não lhe conferem uma só verdade - como disse o poeta que se disse paulistano antes mesmo de ser brasileiro:
“Quando eu morrer quero ficar,
Não contem aos meus inimigos,
Sepultado em minha cidade,
Saudade” (…)
Cidade de poucas palavras - de silêncio pouco ou nenhum - de ironias várias. Andar por tuas ruas é descobrir que teu passado é recente e o teu futuro é agora. Quem espera o amanhã em teus contornos de espaços vagos perde o bonde de tua história. Já disseram em teu coração “essa via irá te conduzir ao teu grandioso destino” - é certo que não sabiam o que hoje eu sei - mas talvez a ilusão dessa cidade soprasse devaneios nos ouvidos de teus heróis que seguiam teus contornos naturais e esboçavam novos horizontes - cenários que se permitiam o novo - o moderno - o inesperado - o criticado pelo pouco que eras… Nem todos visualizavam o muito que serias um dia!
E assim, casualmente, aconteceu essa Cidade - do sonho do desbravador - dos homens que fizeram dessa “Vila” um sonho feliz (?) de cidade que se fez Capital e se reinventou na medida imprecisa de quem não sabe bem para onde vai - apenas vai e no contrapasso do mundo conquista, despreza, repudia, afugenta, espanta, agarra e deixa bem claro “não é qualquer um que aqui fica” sempre foi assim - desde o teu começo de Vila de Ipiratininga até hoje, solo estrangeiro que abriga essa gente estrangeira de idiomas vários…
E eu fecho minha janela com um sorriso inquieto na face e revisito tuas paisagens - te reinvento em minhas palavras, não te faço mais ou menos. Tento não te descontruir - destruir como tantos já fizeram… Tento ver apenas a tua realidade feito ilusão nas minhas margens. Poderias ser qualquer cidade, mas não é - como disse Baudalaire.
“A forma de uma cidade muda mais depressa, lamentavelmente, que o coração de um mortal”
* O trecho do poema “Quando eu Morrer” é de Mário de Andrade , poeta paulistano.
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Lunna Montez´zinny Guedes é italiana, mas tem alma paulistana. Escritora e curadora, dedicou-se especialmente a vasculhar a história de São Paulo nos últimos meses para escrever seu último romance que se passa numa fazenda paulista. E desde 10/01/08 Lunna publica em seu blog 15 artigos escritos por ela que irão abordar a cidade de São Paulo, sob o ponto de vista distinto de quem não é daqui e não está preso pela tradição ao olhar a história de nosso país. Em O avesso de uma Metrópole Lunna organizou recentemente ensaios, poemas, contos e devaneios sobre a maior cidade do Brasil sob a ótica de vários autores.
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January 25th, 2008 at 02:01
Engraçado os textos dessa autora, mostram uma cidade perfeita, como se São Paulo fosse mesmo assim. Mas cadê a periferia? A cidade verdadeira dentro dessa ilusão descrita aí. Porque lendo o texto parece que São Paulo é uma cidade perfeita, sem podridão, sem insegurança, sem medo.
Eu não gosto daqui, moro aqui porque não tenho opção. Mas não saio nas ruas a noite e não consigo verificar essa poesia toda. Aliás, essa cidade não tem poesia, só mesmo uma pessoa que vem da Europa para enxergar poesia nisso aqui. Já fui assaltado várias vezes. Toda vez que saio na rua sou revistado e isso não é poetico.
January 25th, 2008 at 02:01
Ah, Felipe, a poesia não está nos lugares, esses por natureza frios porque coisas, mas no coração das pessoas.
Conheço gente que em Pasárgada ainda seria infeliz.
Morei por 6 anos em Sampa (e não vim da Europa) e AMEI essa cidade, o seu povo, cada uma das suas esquinas, suas oportunidades, suas opções de tudo, sua beleza cinza, sua enormidade cosmopolita, enfim…
Viva São Paulo!
PS: Engraçado, a Lunna parece se referir ao “avesso da metrópole” à qual você se refere, notou?
January 25th, 2008 at 03:01
[...] >> veja o texto na integra aqui [...]
January 25th, 2008 at 03:01
Sou suspeito (e como - segundo a autora) li o texto na madruga em que ela estava compondo e percebi que mudou o final porque não havia gostado do que havia escrito.
Esse avesso de cidade que os poetas percebem é o que faz de São Paulo algo interessante, porque a gente só enxerga o que está lá e precisa que alguém nos mostre o outro lado, a outra face. O texto mostra que é preciso uma atenção até da própria escritora quando ela diz “Tento não te descontruir - destruir como tantos já fizeram… Tento ver apenas a tua realidade feito ilusão nas minhas margens.”
January 26th, 2008 at 12:01
Aniversário do Blogue não. Aniversário de São Pau…
[Hoje, excepcionalmente ela também publica no NOSSA VIA]…
January 26th, 2008 at 12:01
Lunna, as palavras que você deu de presente para a São Paulo aniversariante, chegaram a mim através de doce garoa… As vistas das infinitas janelas da cidade são a paisagem de um lugar onde tudo é possível. Parabéns pelo belíssimo texto. Obrigada - beijos.
January 26th, 2008 at 10:01
O avesso da metrópole …
Nos 454 anos da cidade de São Paulo, a escritora Lunna Guedes presenteia os leitoires com um resumo de 15 artigos publicados sobre a cidade, numa pesquisa histórica que só alguém isenta (por ser “estrangeira”) e apaixonada pela cidade pode fazer….
January 26th, 2008 at 12:01
Adorei o texto, deu pra visualizar a ilusão dessa cidade (como você diz). Mas eu acho que as pessoas tem uma idéia estranha da poesia porque pra mim a poesia não é apenas beleza, você tem vários cenários, muitas possibilidades. Eu gostei desse texto que lembra bastante um dos poemas da Lu sobre a cidade.
January 27th, 2008 at 12:01
Me emocionei!
Amei a forma como Lunna fala da minha tão amada terra natal. Me senti ao seu lado, debruçada no parapeito, respirando todo este encantamento.
Com certeza, como diz Lunna, é a cidade de tantos corações pulsando forte e que seguem ausentes por este chão, pedaço do mundo.
Essa é a São Paulo que amo pelo direito e pelo avesso, do avesso, do avesso. (Caetaneando)
January 27th, 2008 at 10:01
Excelente o texto, aliás, escrever sobre São Paulo, com toda certeza é uma forma de vislumbre, porque essa cidade permite tantas possibilidades. Há tantas formas e essencias inseridas em suas ruas que só poderia findar num texto como este. Belo. Parabéns a autora e gostei mais ainda do detalhe quanto a identidade italiana, afinal, essa cidade recebeu tantos estrangeiros e a maioria fez exatamente isso, exaltou a cidade. Abraços
January 28th, 2008 at 04:01
Sempre indaguei-me sobre alguns centros urbanos e São Paulo está na minha lista. E quanto ao comentário feito pelo Felipe, creio que ele deveria preocupar-se consigo mesmo, há uma necessidade de identificar o que vem a ser poesia, porque a poesia está nas coisas mais duras, mais sólidas, mais rispidas, mais ou menos humanas. Depende apenas do sentir e do olhar. Poesia não é meia duzia de versos perfeitos e acho que a perfeição (conforme citada em seu comentário) é uma questão interessante, o que vem a ser perfeição/
January 30th, 2008 at 10:01
Continuo sempre muito mais suspeito, mas fazer o que? Não resisti ao segundo comentário depois de ler os escritos pelo Felipe. Concordo em gênero, número e grau com as simpáticas e objetivas palavras da eficiente Hellen.
Beijos do “bambino”
April 11th, 2008 at 04:04
[...] à equipe de autores do Nossa Via. Lunna já escreveu aqui um texto no aniversário de São Paulo, O Avesso da Metrópole, e é sempre interessante ver nossa história e cultura contada por um estrangeiro. Meio [...]