O homem em conflito

CARGADO VOY DE MÍ: veo delante
muerte que me amenaza la jornada;
ir porfiando por la senda errada
más de necio será que de constante.Si por su mal mi sigue ciego amante
(que nunca es sola suerte desdichada),
ay! vuelva en sí y atrás: no dé pisada
donde la dio tan ciego caminante.Ved cuán errado mi camino ha sido;
cuán solo y triste, y cuán desordenado,
que nunca ansí le anduvo pie perdido;pues, por desandar lo caminado,
viendo delante y cerca fin temido,
com pasos que otros huyen le he buscado.viiiAutor. Francisco Quevedo
CARREGADO DE MIM ANDO NO MUNDO
E o grande peso embarga-me as passadas;
Que, como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.Não é fácil viver entre os insanos,
Erra quem presumir, quem sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.O prudente verão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, ó mar de enganos,
Ser louco c’os demais que ser sisudo.Autor. Gregório de Mattos
No poema, Gregório fala da vontade do novo, dos novos caminhos e a vontade de seguir adiante. Afinal, tudo era novo e promissor naquele tempo no Brasil. A produção açúcareira estava no auge e fazia da Bahia um estado rico que segue se desenvolvendo a todo vapor.

Diferentemente da Europa, que vive uma crise existencial e que leva muitos a acreditar que não há mais porque seguir adiante, continuar como mostra claramente a poesia de Quevedo. O caminho não parece mostrar nada de novo. Se antes a crença em Deus era determinante, a ciência parecia limitar o homem a ele mesmo, abandonando-o, deixando sozinho.
O século XVI foi marcado pelo envolvimento do homem com as teorias filosóficas e científicas - tudo era experimental porque o homem estava aberto as possíveis descobertas que o levavam lentamente de encontro a um conflito muito maior que ele.
Galileu Galilei (1564 – 1642) completou a teoria heliocêntrica de Copérnico – descobrindo os satélites de Júpiter, as manchas solares, os anéis de Saturno e deduziu a partir de suas pesquisas que a Terra girava sobre si mesma (movimento de rotação) e ao redor do Sol (movimento de translação). O cientista foi condenado pela Inquisição e foi obrigado a negar publicamente suas idéias. Foi a forma que a Igreja encontrou de evitar que seus dogmas fossem invalidados pela ciência.
Descartes (1596 – 1650) ficou famoso por atribuir o princípio: “penso, logo existo” e por considerar a razão como sendo o único meio para o homem atingir o conhecimento em sua forma plena. Pois se ficasse preso e limitado pela fé, o homem, segundo seu ponto de vista, estaria condenado a um espaço delimitado das coisas.
Newton ( 1642 – 1727) provou a teoria da gravitação universal – a matéria atrai a matéria na razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das distâncias. Ele não negava a idéia de deus, mas eliminava totalmente a possibilidade da intervenção de um deus no cotidiano do Universo, comprovando que este, funcionava de acordo com suas próprias leis, sem a interferência de outros.
Leibniz (1646 – 1716) provou que o tempo e o espaço eram relativos e que o éter era o meio através do qual a luz do Sol era transmitida a Terra. Suas conclusões abriram espaço para que filósofos aplicassem essas leis naturais a religião, a política, indo de encontro às aspirações burguesas que só tinha um objetivo: aumentar cada vez mais suas riquezas.
Partindo desse princípio, o homem precisava decidir se limitava-se a existência de um deus que controlava todas as coisas ou deixava de crer no que talvez não existisse e que fora criado apenas para manipulá-lo ou ainda se fincava seus pés na razão e permitia que está o levasse ao real conhecimento de todas as coisas.
Tal conflito pode ser verificado de forma plena e absoluta através da literatura desse período que nos mostra claramente esse momento de dúvida, de questionamento, de oposição entre o céu e a terra, entre a fé e a razão, entre o religioso e o profano.
O escritor utiliza-se de várias figuras de estilo, que vão representar o dualismo ideológico em que se encontra o homem barroco: a conciliação do espiritualismo medieval com o racionalismo renascentista.
Duas tendências se destacam nas produções literárias desse momento: o conceptismo e o cultismo.
O primeiro é marcado pelo jogo de idéias, através de um raciocínio lógico e o segundo, pelo jogo de palavras, através de uma linguagem bastante culta. Podemos verificar que a realidade é para ser trabalhada através dos sentidos. Porém, dentro da consciência caótica do escritor desse período, sua percepção evidencia temas como: o desejo da salvação, a fugacidade do tempo, a descrença e a corrupção.
É justamente aqui que observamos o quanto atual é a literatura barroca, o homem atual vive o conflito das idéias sobrepostas a ele. O desejo de salvação diante de uma possibilidade da destruição do planeta – a fugacidade do tempo que se mostra cada vez mais soberano sobre suas atitudes e pensamentos. A descrença nas formas de religiões existentes que faz com que o homem busque novos caminhos, onde diferentes formas de Deuses auxiliem sua compreensão.
Percebemos que depois de todos esses anos, o homem tenta abandonar sua maior conquista: a razão para então buscar uma vez mais a fé - mas não porque desistiu da razão e sim porque não pode simplesmente culpar a si mesmo pelo evidente fracasso em sua busca pelo conhecimento. Por fim, vale acreditar que uma forma superior a ele, uma espécie de Deus o salvará de si mesmo.
Verifica-se ainda um retorno as origens, quando o fantasioso, o divino se sobrepunha as ações do homem. O Barroco marca esse ponto de forma perfeita, como sendo o centro da dúvida e das questões que não necessariamente tenham respostas.
Últimos posts de Lunna Guedes
- O barroco brasileiro...
- Em busca de uma identidade...
- Tudo se copia?
- Os caminhos da escrita...
- O Brasil das Missivas...
Popularity: 14% [?]
Posts Releacionados
-
No related posts
























June 17th, 2008 at 01:06
Estou aqui aguardando você chegar, enquanto isso leio seu texto que ficou bom mesmo com sua crítica constante, sigo aprendendo um pouco mais sobre o Barroco. Gostei, principalmente dos detalhes que encontrei quanto ao “deus” em minúsculo, diante de uma Terra e Universo maiúsculo. Defendeu bem o que pensa a respeito da fé, da razão e do homem.
June 18th, 2008 at 12:06
[...] >> http://www.nossavia.com.br/comportamento/o-homem-em-conflito [...]
June 18th, 2008 at 01:06
Sinceramente acho que seu texto disvirtuou o barroco, de onde tirou essa teoria absurda de que o homem vivia em conflito? Você abordou questões que não fizeram diferença alguma sobre esse movimento. O barroco é um estilo pobre e sem nada marcante, mas você quis deixá-lo mais interessante.
Desde quando os ciêntistas fizeram diferença na literatura? Acha que eles tiveram grande idéias para que escritores escrevessem sobre o fato da terra girar em todo dela mesma e do sol? Claro que não, a ciência e a literatura são coisas totalmente diferentes e você deveria lembrar isso ao escrever seu texto.
E escreveu Deus com letra minúscula num meio do texto e no final usou letra maiúscula. Ou você acredita nele ou não.
June 18th, 2008 at 01:06
Que tal ler escritores que falaram do assunto com propriedade e não ficar apresentando assuntos que em nada reflete o que foi realmente este movimento? Serve como exemplo Francisco Maciel Silveira.
…” o barroco é um fenômeno artístico cronologicamente limitado, sem grandes influencias e com pouco a dizer para a literatura moderna. Se investigarmos mais detalhadamente esse movimento, vamos perceber claramente que não teremos base para maiores estudos ou abordagens pois fundamentou-se sobre alicerces fracos e sem conteúdo. A abordagem literária é praticamente inexistente, tanto que em cada canto do mundo, o barroco ganhou um nome especifico porque cada artista se fazia expressar de forma diferente, por esta razão nem podemos considerá-lo como ou enquanto estilo de uma epoca.” …
June 18th, 2008 at 01:06
O autor Francisco Maciel Silveira é Crítico literário, ficcionista, poeta e grande conhecedor da lingua portuguesa, tanto quando da literatura brasileira e portuguesa. Professor, ele obteve seus títulos de Mestre e Doutor com trabalhos sobre a oratória sagrada do século XVII, especialmente sobre os maiores expoentes do Barroco português, Padre Antônio Vieira e Padre Manuel Bernardes.
June 21st, 2008 at 09:06
Olá Lunna, seus textos são interessantes porque sempre abordam um ângulo diferente e mostram o que normalmente não é citado na história da literatura. Você está certa, porque a produção literária e a ciência possuem ligações entre a razão e a emoção e inspiraram poetas e escritores a várias produções, assim como os poemas que já se fizeram em homenagem à bússola e à rosa dos ventos, por exemplo. E por falar em Barroco, eu, particularmente aprecio a poesia desse período, principalmente de Gregório de Mattos. Certa vez, quando participei de um curso com o poeta Frederico Barbosa na Casa das Rosas, ele disse que gostava muito da arte de Gregório.
Beijos.