O mendigo do parque
Essa é a história de um amigo meu, Thales, e um mendigo do parque, Michel.
Logo em frente ao prédio onde trabalhamos meu amigo e eu, há um pequeno parque com algumas poucas árvores, bancos e uma quadra poliesportiva ao canto. Um parque por menor que seja é sempre habitato por algumas “figuras”. A velhinha que mora sozinha com seu cachorro e alimenta os pombos. O Seu Edison vendedor de cachorro-quente, combustível primordial para os dias em que trabalhamos até tarde. O guri que toma conta dos carros e o seu companheiro, talvez o mais imperceptível deles, Michel.
Ele passa o dia sentado ali à beira do parque, sem rumo. Ninguém nunca teve a curiosidade de saber a sua história, de onde veio, o que viveu, etc. É só mais um mendigo, oras.
Um dia Thales estava conversando com o guri dos carros e dizia algo do tipo; “a gente vai lá e ….”, quando foi interrompido:
- “Nós vamos” é o modo correto de dizer – era o mendigo entrando na conversa.
A pequena demonstração de conhecimento de forma culta despertou o interesse do meu amigo, que o incluiu na conversa. Começaram conversando sobre coisas cotidianas, nada demais. Depois falaram sobre a prefeitura, sobre o caos paulistano, etc.
A conversa foi se alongando e o velho se mostrava muito inteligente, ligado nas atualidades e até bem culto. Foi aí que meu amigo, já curioso, perguntou sobre a história da vida dele e porque ele estava ali agora.
Michel veio para o Brasil quando criança, de família senão rica, com muito dinheiro. Fala três línguas: árabe, francês e português (e até um pouco de inglês). Foi três vezes campeão paulista de xadrez, vice-campeão brasileiro. Tinha uma vida pela frente, mas o vício falou mais forte. Por causa do álcool se afastou da família e de todos.
Uma história incrível. Se é verdadeira ou não, eu não sei. É bem capaz que não seja. Também é bem capaz que não seja assim tão simples: bebida, vício, expulso da família, morador de rua. Na verdade isso não interessa.
Enquanto começava a escrever esse artigo, fiquei me perguntando o porquê dele. Onde eu queria chegar? Porque tanta vontade de contar a história dele? O fato é que todos os dias vemos pessoas a nossa volta e não consideramos muito aqueles desconhecidos como parte da nossa vida.
Basicamente, o mundo se resume naqueles mesmos 50 ou 60 conhecidos seus. São eles que você sempre encontra no shopping, nos bares, no metrô, na padaria da esquina. Eles que modificam sua realidade, que tem participação direta.
Quando você senta no trem ou em outro lugar cheio de pessoas, você coloca um fone e começa a pensar na vida. Vai longe, até o mundo da Lua, pois prefere ficar lá do que voltar ao mundo cheio de pessoas que você simplesmente não quer considerar que existam. Você não quer reconhecê-las como indivíduos, pelo menos não naquele momento. Talvez seja um meio de nos protegermos também. Como encarar os milhares de assassinatos e mortes pelo mundo diariamente, sem ser com indiferença?
Todos os outros 6 bilhões de pessoas são meros figurantes no nosso universo. Acho que às vezes é bom lembrar que mesmo o mendigo do parque ou a senhora que dá milho aos pombos têm uma história tão ou mais grandiosa e complexa que a sua.
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abril 4th, 2008 at 10:04
Só pra constar.. a mulher do cachorro e pombos também é conhecida como Mumm-Ra..
bjos
abril 5th, 2008 at 01:04
Não podia deixar de comentar! Parabéns pelo texto, realmente, nós sobestimamos a capacidade das pessoas, apenas por sua aparência ou pelo cargo que ocupam.
Uma boa lição para aplicar ao nosso dia-a-dia!
Abraço!
abril 8th, 2008 at 11:04
[...] Os gordos que tentam enganar a si mesmos - Emagrecer Amigos de primeira infância - Trivial O mendigo do parque - Nossa Via MÓRBIDO?????!!!! (NÃO) - Letícia Coelho POR QUE ANTIGAMENTE NÃO SE VIA TANTA [...]