O monstro e a cartilha do amor
“Cada um de nós guarda o melhor e o pior da humanidade. Somos Hitler e Gandhi. Temos tudo pronto aqui dentro, sempre disponível.” –Gustavo Gitti [Nossa Via - Eu sequestrei e matei minha ex-noiva]
Essa noite acordei transpirando muito, assustado com os urros que eu mesmo emitira e que não acordaram só a mim mesmo, mas a todos na casa – saia eu de mais um pesadelo. Tenho “sonhos recorrentes” às vezes (não raro). Eles mudam de tempos em tempos e o sonho/pesadelo de hoje fôra mais um desses que vira e mexe me perseguem. Talvez o pior deles, o mais incômodo.
Um ser, uma entidade, um sei-lá-o-quê (um bicho ou um monstro) tentando sair de dentro do meu corpo – mas não ao estilo Alien… o bicho sou eu mesmo. Percebo nitidamente que sou o monstro e o corpo que ele quer deixar. Percebo ambas as personalidades. Uma resiste, embora pareça inerte – o corpo. Outra insiste, urra, tenta avançar em quem está comigo na cena. É sempre ameaçadora em relação aos demais presentes no quadro do sonho.
O monstro nunca venceu, mas já pregou tantos sustos nas pessoas que dividiam comigo o ambiente (o quarto) que chega a ser hilária a cena da minha ex-esposa me acordando de madrugada de trás de uma pilha de travesseiros, escondida pra não ser pega pelo troço que urra - rs.
Quem nunca teve sonhos recorrentes? Num que me perseguiu por muito tempo, eu não conseguia mais me por de pé, pois não tinha forças nas pernas. Sonhei várias vezes com isso! Deixei de tê-lo depois da minha primeira falência financeira, da qual tento me por de pé até hoje (custando a me aprumar “sobre as próprias pernas” - rs). Noutro, um maldito chicletes vai quebrando os meus dentes e quanto mais eu tento tirá-lo da boca, mais ele se agarra aos meus dentes. Noutro, ainda, eu posso levitar. Levitar não: voar. Livremente. Esse ainda tenho com muita freqüência e o adoro – nunca quero acordar.
Mas o sonho do eu-monstro dominado por mim mesmo me tira o rebolado. Lendo o texto do Gitti (mencionado aqui, no cabeçalho desse post), enxerguei o monstro do “pobre” Gilmar deixando seu corpo, e a “pobre” Evelyn, sem defesa, sucumbindo ao amor torto do ex-noivo. A abordagem corajosa e incômoda do nosso Gustavo Gitti tocou, de uma forma ao mesmo tempo suave e firme, no cerne da questão (acima, sim, dos evidentes entraves de todo nosso sistema social): o nosso corrompido amor.
A Myla propôs uma cartilha (vide comentário no texto do Gitti). Imaginem: uma cartilha que ensinasse nossas crianças, desde a escola, a amar! Porque é claro que não aprendemos quase nada a esse respeito ainda. Aprendemos? Você aprendeu? Onde? Quem lhe ensinou? De onde vieram seus conceitos de amor? Qual foi a definição que você gravou na sua cabeça? E no seu coração? E o que foi que você ensinou aos seus filhos? Como tem amado seu cônjuge, seus pais, seus amigos? Tá bom assim pra você? Você está feliz assim? Se sente igualmente amado(a) ou tem a impressão de que é menos amado(a) do que merece? Será que “os seus” não têm essa mesma sensação de serem pouco amados?
Vou lhes dizer um pouquinho de como tem sido talhado o meu amor:
Ele foi talhado, lá atrás, quando eu ainda lia cartilhas, em mim pelos meus pais – pobres e sábios –, mas eu só fui percebê-lo (tarde demais) quando perdi meu pai e, de repente, percebi que precisava fazer por mim mesmo coisas que era ele quem fazia, quando cuidava de mim com “a comida da sua própria boca” – que por tantas vezes eu julguei pouca e ruim, que hoje me faz tanta falta! Levei um tanto de tempo enorme pra entender aquela cartilha que meu pai escrevera e que hoje emprego com meus próprios filhos.
Ele foi talhado, o meu amor, nos meus guarda-roupas bem arrumados por minha ex-esposa, com minhas roupas bem passadas e cheirosas e macias; na comida quentinha no fogão – tão cheirosa que, quando eu chegava do trabalho à noite em casa, podia sentir seu aroma lá de fora, da rua, todas as noites, cansado; isso depois de ela mesma ter seu próprio dia de cão, cheio de trabalho e de responsabilidades mil, todas regiamente vencidas pela sua capacidade de cuidar primeiro de nós – seus filhos e marido – pra, só depois, cuidar de si mesma (quantas oportunidades perdi de fazê-lo por ela!). Ali estava o meu amor! Certamente. Ainda sou cuidado por esse monstro-gigante-do-amor chamado Rosângela, que passo agora dias sem ver, mas nem um único minuto sem amar e ainda me sentir plenamente amado – acreditem!
O amor foi posto à minha mais inteira disponibilidade em diversas outras oportunidades por pessoas que não saberiam escrever uma cartilha, mas que dominam o tema como ninguém. Meus filhos, que aprenderam sabe-se lá com quem (não foi comigo, pois eu mesmo ainda estou a aprender). Aprenderam com os avós, com a mãe, em vidas passadas, sei lá, só sei que aprenderam totalmente. Aprenderam e me ensinam todos os dias, que o cuidado que se tem com aqueles que são importantes pra gente é muito mais importante do que o cuidado que temos conosco mesmo. Que se cuidarmos do outro, liberamos o outro para que não precise cuidar de si mesmo, porque isso já está sendo feito por nós – e aí o outro terá a oportunidade de cuidar da gente. E isso funciona incrivelmente, como um círculo virtuoso!
O amor – o Verdadeiro Amor – é a única “entidade” capaz da vencer os nossos “monstros interiores”. A falta dele lhes serve de alimento.
“Em nossas ações cotidianas, em nossos pensamentos calados, contribuímos incessantemente para que aconteçam tragédias como a de Gilmar e Evelyn. Eles são o futuro do casal que teimamos em construir em nossas relações. O exemplo perfeito do que acontece quando amor vira apego, quando trancamos o outro para que ele possa enfim nos amar. ” (Gustavo Gitti)
Para o meu sonho recorrente no qual posso voar, tenho minha interpretação pessoal (eu não consigo fugir da tentação de interpretar meus sonhos como se fossem não premonitórios, mas avisos, toques de algum tipo de “espiritualidade amiga”):
Penso que se não nos preocuparmos conosco mesmo, deixando essa tarefa a cargo daqueles que deixarmos que nos amem (eles SEMPRE existem e provavelmente há alguém dessa “categoria” nesse exato momento pertinho de você, bem ao seu lado, olhe pro lado…) isso nos fará de tal forma leves e livres que poderemos voar – como anjos – numa viagem tão delirante e surreal quanto pode lhes parecer esse artigo. Eu, que sou editor e autor da categoria de Economia e Negócios desse portal, viajando assim no post do amigo Gustavo - rs.
Mas aqui no Nossa Via é assim que as coisas são.
Obrigado pelo artigo, Gustavo. Obrigado pela provocação, Myla. Aos demais citados eu agradeço pessoalmente – um pouco a cada dia, até o final dos meus dias e por todas as vidas futuras que hajam. Senão isso aqui vai ficar parecendo mais um verdadeiro “Momento Maguila“.
Grande abraço!
Wagner Fontoura
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November 21st, 2007 at 12:11
Heheheh… e é nesses momentos que a gente consegue perceber outras nuances de pessoas que estamos começando a conhecer por causa do trabalho.
Muito bom , wagner!
Que prazer poder desfrutar desta aventura com você e com os outros colaboradores!!!
November 21st, 2007 at 12:11
O monstro e a cartilha do amor | Nossa Via: o conteúdo passa por aqui!…
Penso que não nos preocuparmos conosco mesmo, deixando essa tarefa a cargo daqueles que deixarmos que nos amem, isso nos fará de tal forma leves e livres que poderemos voar….
November 21st, 2007 at 06:11
sabe, uma vez o Gitti lançou ao ar uma analogia maravilhosa, daquelas poucas q grudam na gente e viram saber encorporado: uma espécie d movimentação, liberdade.
o viés, então, era outro; d enfoque adjacente, mas, acho, aplica-se muito bem em seu texto, nesse inspirar melhor o nó da garganta conscientemente frouxo: para um ser humano, não amar, não saber amar, não saber praticar o amor - e não me dirijo apenas à uma relação a dois - “é como tentar acabar com a eletricidade tentando apagar todas as lâmpadas do mundo”. pointless.
esse início d século segue a toada do século anterior, nunca se falou tanto sobre amor e felicidade e nunca nos encontramos tão perdidos sobre o que seja essa dupla misteriosa, ao mesmo tempo tomada d forma tão subentendida e desatenta. em matéria d entendimento, a gente ainda apenas tateia.
logo, alguns pontos válidos pra essa cartilha poderiam ser, primeiro, fazer entender a todos q amor não é penhor - não é algo passível d penhora, de mensuras, de trocas-à-mesma-medida, d olho-por-olho no dar e receber.
da mesma forma q eletricidade, amor é energia circulante e, quanto mais presa, menos se dissipa. e a recíproca poderia ser o ponto dois dessa cartilha, qto mais amor despendido, menos se perderia. se conservado, aí, sim, a perda se consubstancia.
não é sair por aí submisso, aceitando tudo, oferecendo a outra face, nada disso. ora, estar presente ao outro, presente naquele momento d fato e de coração, é a melhor forma q sabemos amar. por ex., se estou conversando com vc, ponho todo o resto d lado e ofereço-me: minhas idéias, ações, meu ser, minhas vivências, insights, meu tempo, e tudo mais q puder. assim, ao me dissipar, a troca, o tal amar, acontece naturalmente. dou e recebo. e isso é coisa q se sente, imponderável, no talho dos belos exemplos q vc compartilhou aqui.
o problema é que, como vem da gente, a gente mal se acostuma e se assenhora. achamos q somos donos: dou o que quiser, a quem e quando quiser e exigo retribuição imediata, na mesma intensidade. erro primogênito.
qto aos seus sonhos, é mesmo coisa q carrega sempre uma sabedoria. e seu relato me lembrou dum trecho q me é muito querido pq o acho d cristalina-essência, vale até anotar:
“a única ameaça à minha segurança em ser reside em mim mesmo: na falta d fé na vida e em minhas forças produtivas; nas tendências regressivas; na indolência íntima e na disposição a que outros dominem a minha vida”. - ter ou ser?, erich fromm.
abraços - parabéns pelo texto!!! - e se até o valor do dólar é composto do pensamento coletivo das pessoas, não apenas dos elementos econômicos objetivos, fica-nos cada vez mais claro que ser é sempre ser-com: esse est coesse. ;0)
November 21st, 2007 at 06:11
e, inteiramente longe d querer ser dona da verdade ou, pior, d soar como alguém q fala e age adverso: em matéria d amor, seremos sempre aprendizes. sem pieguismo e frases-feitas. ponha-se aí tb na cartilha, pra cada um se inteirar: “sou aprendiz, venho aprendendo d forma prévia, concomitante e subseqüente. e assim é q é!”
bjs.
November 21st, 2007 at 10:11
Wagner, registro aqui publicamente o que já falei para você: fiquei MUITO feliz ao ler seu relato.
Abração!!!
November 21st, 2007 at 10:11
Max,
Prazer, pra mim também, define bem essa nossa “aventura”.
Myla,
Suas novas contribuições pra “nossa cartilha” me lembraram de uma cartilha mais antiga um pouco em que alguém já dizia “Feliz aquele que ama, porque não conhece nem a angústia da alma, nem a miséria do corpo; seus pés são leves, e vive como que transportado para fora de si mesmo.”
Isso me dá uma boa noção da enorme distância entre o meu objetivo como aprendiz e as minhas parcas “conquistas” nesse campo.
November 21st, 2007 at 02:11
Belo texto, Wagner. E interessante a analogia da cartilha. São tantas coisas que as crianças e jovens deviam aprender bem aprendido que às vezes nos vem a questão: porque ninguém escreve cartilhas para ensinar coisas como respeito pelo próximo e pelo mundo, finanças e economia doméstica, puericultura, pequenos consertos ou gastronomia de guerra a esses aprendizes?
É que hoje, quem deveria ensinar essas coisas às crianças, por atos e palavras, não tem saco, não tem paciência, não tem tempo. Somos nós, pais e parentes. Você está certo quando despreza a cartilha formal. Ora, nós somos a cartilha. Eles aprenderão do que somos.
Abraço.
VP.
November 21st, 2007 at 02:11
* esta vida é de cabeça-para-baixo, ninguém pode medir suas perdas e colheitas.
* quem sabe direito o que uma pessoa é? antes sendo: julgamento é sempre defeituoso, porque o que a gente julga é o passado.
* Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.
* é preciso sofrer depois de ter sofrido, e amar, e mais amar, depois de ter amado.
todos, ensinamentos d Grande sertão: veredas. acho que seriam uma boa fonte, também, pra nossa cartilha. sabe, não dá pra falar d amor sem passar pela literatura, música, cinema: pelas artes. nesse campo, a gente já anda um pouco melhor.
p.s.: na sua última frase, do comment acima, enorme distância é q deveria ter vindo entre aspas.
no mais, Wagner, it’s all about ladybugs! ;0)
November 21st, 2007 at 02:11
Marcos,
Alguém me disse um dia que há muitas crianças vazias porque há poucos adultos transbordando. Sábia verdade!
Acredita que sou do tempo em que se ensinava puericultura na escola?! Rs
Apesar do meu pai resmungar que “aquilo não era coisa pra se ensinar pra meninos”, eu bem que fiz bom uso quando nasceram os meus 2 filhos. Dei muito banho, curei umbigos, aproveitei demais!
November 21st, 2007 at 05:11
Waguinho,
ao ler o seu texto fiz uma viagem…Confeso que foi difícil conter as lágrimas e o nó na garganta. Senti-me no contexto e também me lembrei muito “daquele que algumas vezes chamávamos de rabujento e implicante”, mas que sempre cuidou de todos nós e que foi o primeiro a descobrir que você “já lia um jornal intreiro”… Ele sempre foi meu “monstro-gigante-do-amor”; e, especialmente hoje, a minha “espritualidade amiga”.
Bjos
November 22nd, 2007 at 06:11
Wagner, lindo texto que nos faz refletir muito sobre todos aqueles que nos amam e que nos cercam… []’s
November 22nd, 2007 at 04:11
[...] já envolvida na repercussão do texto, tanto nos comentários quanto na coluna do Wagner O monstro e a cartilha do amor. Explico: ontem foi feriado aqui e fui mãe de família, não blogueira viciada. Mas bloguei à [...]
November 26th, 2007 at 12:11
[...] cometidas por seus cidadãos. Nós reagimos mal ou -perdoem o trocadilho- mal reagimos. Fora uma ou outra voz, a maioria cala, mesmo quando é alvo da [...]
November 28th, 2007 at 10:11
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January 7th, 2008 at 02:01
Lindo o seu texto, Wagner!
O amor é tema para uma vida, para muitas vidas e para todas as vidas! Portanto, o amor é o que não se corrompe, mesmo, nem em última instância!
Quero falar sobre amor! Falar de amor, dizem, é tão bom quanto fazê-lo, motivo que me faz querer continuar ad eternum…
A beira do abismo do amor é o tempo, inimigo do que, muitas vezes, equivocadamente elegemos como amigo, o tempo que nos transporta distantes de nós mesmos e para além de nossa maior capacidade: amar, amar o amor primeiro, nós mesmos…
Responderia isso a dúvida que você coloca em seu texto (dúvida retórica, claro!) e que jamais quer calar? Onde aprendemos a amar e onde primeiro amamos? …(retórica novamente a reprodução da pergunta)…
Mas, conforme costumam atestar os especialistas em Educação, só aprendemos com repetição, quero continuar enunciando sobre Amor! Permita-me!
Só desta maneira, este blog e todos os outros terão incidência continuamente renovada e gradualmente expandida…
Espero que isto em si já justifique o meu desejo de cá escrever, escrever e escrever, que é também uma forma de amar…