Padre Anchieta
Anchieta, que padecia de “espinheira caída” chegou ao Brasil em 13 de junho de 1553 com menos de 20 anos de idade. Veio junto a outros padres como o basco João de Azpilcueta Navarro. Na ocasição o padre Manuel da Nóbrega, Provincial dos Jesuítas no Brasil, solicitou mais braços para a atividade de evangelização do Brasil (podendo ser fracos de engenho e até mesmo doentes do corpo), o Provincial da Ordem, Simão Rodrigues indicou, entre outros, José de Anchieta.
Anchieta ficou conhecido em sua época, como abarebebe que, na língua tupi, significa padre santo voador. A sua disposição em caminhar o levava percorrer, duas vezes por mês, a trilha litorânea entre Iriritiba, e a ilha de Vitória, com pequenas paradas para pregação e repouso nas localidades de Guarapari, Setiba, Ponta da Fruta e Barra do Jucu. Modernamente, esse percurso, com cerca de 105 quilômetros, vem sendo percorrido a pé por turistas e peregrinos, à semelhança do Caminho de Santiago, na Espanha.
No seguimento da sua ação missionária, participou da fundação do planalto de Piratininga, do Colégio de São Paulo, do qual foi regente, apenas 130 pessoas faziam parte da vila formada principalmente por Jesuítas.
O “Apóstolo do Brasil“, como ficou conhecido mais tarde, foi fundador de cidades e missionário incomparável. Foi gramático, poeta, teatrólogo e historiador. O apostolado jamais impediu Anchieta de cultivar as letras, o que o permitiu compor seus textos em quatro línguas: português, castelhano, latim e tupi – em prosa e verso.
Duas das suas principais obras foram publicadas ainda durante a sua vida:
- “De gestis Mendi de Saa” (”Os feitos de Mem de Sá”) impressa em Coimbra em 1563 - retrata a luta dos portugueses, chefiados pelo governador-geral Mem de Sá, para expulsar os franceses da baía da Guanabara onde Nicolas Durand de Villegagnon fundara a França Antártica. Esta epopéia renascentista, escrita em latim e anterior à edição de “Os Lusíadas”, de Luís de Camões, é o primeiro poema épico da América, tornando-se assim o primeiro poema brasileiro impresso e, ao mesmo tempo, a primeira obra de Anchieta publicada.
No poema de Anchieta, o Brasil está na fase do Paraíso perdido, que se mostra, dessa forma, em um ambiente de chuvas, tempestades, combates, próximo a Titanomachia, com os relâmpagos de Zeus, como o Dilúvio do Gênesis e das Metamorfoses de Ovídio.
Cristo ao chegar na colônia é o lumen inocciduum, a luz que não se põe, logo, a luz que vencerá a Hespéria, o poente, o Ocidente. Podemos fazer um paralelo entre a chegada de Cristo ao Brasil e a criação da luz no Gênesis.
Lumine depressi iam humentia sidera mundi
Splendidiore micant, clarumque per aethera currum
Phoebus agit, radiisque nouis fugat humida caeli
Nubila dispergit nebulas, multoque madescens
Imbre solum siccat, splendentique axe coruscus
Clara tenebroso diffundit lumina mundo.
Brilham com luz mais esplêndida, e Febo faz avançar o carro ilustre através do éter, e com novos raios põe em fuga a úmida neblina do céu, e dispersa os nimbos, seca o solo da grossa chuva, e fulgurante, pelo firmamento resplandecente, difunde as claras luzes do tenebroso mundo.
Entre os versos 1296a-1371, é narrada a idéia de natureza superlativa, em um momento no qual Anchieta descreve os primeiros trabalhos das missões jesuíticas. Estes versos igualam-se ao topos humanista da áurea aetas a Idade de Ouro clássica, das Fortunatae insulae, interrompendo-se para voltar a narrar outros combates contra os índios.
- “Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil” impressa em Coimbra em 1595 por Antonio de Mariz. É a primeira gramática contendo os fundamentos da língua tupi. Apresenta folha de rosto com o emblema da Companhia de Jesus. Desta edição conhecem-se apenas sete exemplares e vale lembrar que se trata da primeira obra dedicada a línguas indígenas. Sendo a primeira gramática do tupi-guarani - “A Cartilha dos Cativos”
O movimento de catequese influenciou seu teatro e sua poesia, resultando na melhor produção literária do Quinhentismo brasileiro. Entre suas contribuições culturais, podemos citar as poesias em verso medieval, dentre eles o poema De Beata Virgine Dei Matre Maria, mais conhecido como Poema à Virgem, com 4.172 versos merece destaque.
No Rio de Janeiro, redigiu carta datada de 9 de julho de 1565 ao Padre Diogo Mirão, dando conta dos acontecimentos ocorridos ali - tais escritos são considerados uma espécie de certidão de nascimento da cidade fluminense. Nela se encontram os seguintes trechos:
“…logo no dia seguinte, que foi o último de fevereiro ou primeiro de março, começaram a roçar em terra com grande fervor e cortar madeira para cerca, sem querer saber nem dos tamoios nem dos franceses.”
Mas o que eu gosto de enfatizar ao ter contato com os escritos de Anchieta é que ele foi mais que um Padre, pois ao se dedicar as letras, permitiu dar ao Brasil uma identidade. Sendo um dos primeiros a perceber que era preciso conhecer e respeitar a cultura e a língua local, enquanto a maioria preocupava-se apenas em catequizar os índios. Trouxe consigo o latim, o português e o castelhano e levou consigo o Tupi Guarani, é claro que deixou muito nessas terras, a língua portuguesa que falamos hoje é prova existência de seu legado…
Então vejo crescer o espanto ao observar que pouco se fala do homem que permitiu a literatura brasileira revelar grandes nomes a partir de sua escrita. Por mais importância que seus escritos tenham para a literatura brasileira, sua obra só foi totalmente publicada no Brasil na segunda metade do século XX e ainda assim é desconhecida da grande maioria dos brasileiros. Uma parte da história literária desse país que fica entre parênteses.
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