Quantas pessoas existem em você?
A pergunta do título é capciosa. Mas não é minha. É da Lunna Guedes - no post O que pensa a psicologia sobre isso? - onde ela discorre sobre uma mania de criar outras pessoas, num post em que revela partes de um conto antigo seu sobre Alvaro de Campos e Alberto Caeiro. Como ela, eu também li que Fernando Pessoa, que criou e viveu estes escritores (Ricardo Reis e outros) sofria de um distúbrio que agora se populariza, o transtorno bipolar. Mas não sou da área biomédica, não vou falar de saúde.
A questão que levanto é outra. Trata-se das pessoas que inventamos e reinventamos para sermos e das outras que os outros insistem que devemos ser.
Há alguns dias eu conversava com Max Reinert, do Pequeno Inventário de Impropriedades e No Ghetto, sobre os tipos que os outros vêem em nós. Teclávamos sobre isto porque Max é das poucas pessoas que senti começar uma conversa comigo sem expectativas preconceituosas sobre minhas posturas. O fato de eu ser mãe, casada, balzaquiana, “politicamente correta“, nada disto fez com que me tratasse com expectativas irreais, tampouco de minha parte houve isso sobre ele estar no teatro, ser solteiro e gay. Isso é raro, pensei.
Na verdade, sempre convivemos com os outros com expectativas, as premissas que vamos guardando, como cookies da navegação por determinada página que podem se tornar viciados e corromper o layout atual. Parece que ficamos eternamente “lendo o outro no Google Reader”, sem saber que ele evoluiu, incorporou widgets legais, ampliou as tags”.
Confesso que, apesar de atualmente ser uma pessoa só (risos), me divirto com as “diferentes pessoas” que os outros vêem em mim. Elas mostram as qualidades e defeitos que o outro - aquele que me impõe os rótulos e me coloca em algum estereótipo - considera importantes - de forma negativa ou positiva - e eles falam muito de si. Conheço as pessoas que estão nos outros através daquelas que eles vêem em mim e acredito que somos sempre personagens, de alguma forma representando algo, transmitindo algum valor, pertencendo a algum enredo.
Como acontece com quase todo mundo, quando adolescente eu antevia para mim um futuro absurdamente distante do que tenho hoje. Mesmo diferente, aquela pessoa seguiu seu caminho, continuou, posso vê-la em paralelo à minha vida e continua sempre livre para escolher quem e o quê será no momento seguinte. Lembro-me de uma cena do filme Minority Report na qual uma vidente contava aos pais de uma criança já falecida seu possível futuro. Cenas daquilo que ele poderia ter sido, imagens e possibilidades que existem para todos nós. Há por aí uma senhora sozinha e voltada ao trabalho com as letras que não sabe desta mãe e esposa aqui, mas que, ainda assim, sou eu.
E você, quantas “Pessoas” estão aí?
[update] Gustavo Gitti, do Não Dois Não Um, me avisou que postou sobre assunto semelhante hoje, numa delícia de texto: Sobre máscaras, rótulos e essências. E se você também já falou sobre isto, não deixe de me contar! ![]()
Últimos posts de Samantha Shiraishi
- Conexões urbanas
- Dia nacional de combate ao fumo
- Quem paga a conta da conta da violência?
- Nova classe média
- Web events
Popularity: 15% [?]
Posts Releacionados
-
No related posts
























março 17th, 2008 at 01:03
Como eu já disse anteriormente, na época em que era Mário de Sá Carneiro:
Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.
Até porque, as relações sempre acontecem “entre”… quando aceitarmos isso, saberemos que não somos nem quem pensamos, nem quem pensam que somos!!!
março 17th, 2008 at 02:03
Quantas pessoas existem em você? | Nossa Via: o conteúdo passa por aqui!…
Samantha há muito se tornou uma das minhas principais referências de conteúdo na blogosfera. Pra mim ela é o Inagaki de saias. Apresenta aqui um texto que é a sua cara. Uma deliciosa leitura para qualquer leitor de carne e osso e razão e sensibil…
março 17th, 2008 at 02:03
Sam, acabei de escrever sobre isso também! Leia quando puder:
http://nao2nao1.com.br/sobre-mascaras-rotulos-e-essencias/
março 17th, 2008 at 09:03
É isto. Sempre inventamos personagens para conviver. Para mim isto não dá muito certo. Não sei representar. Esqueço a fala. Começo a rir sem parar porque errei o texto, digo o nome errado e coisa e tal. Quer saber? Vou variando o assunto, mas a pele é uma só…
março 18th, 2008 at 01:03
oi Sam, se somos muito mais impermanentes do q gostaríamos d acreditar, a coisa, talvez, nem tanto seja se somos, nós mesmos, poucos ou muitos - e sim tentar viver - cada vez mais - por menos substitutos.
e, na vida, pra essas coisas realmente importantes, não há cartilha. é a gente batendo cabeça do jeito q pode e aprendendo aos poucos sobre nossos auto-enganos: os substitutos a q recorremos - q dificilmente resultam ou têm a ver com lições d moral ou com o politicamente correto.
digamos assim: a gente bate a cabeça e fica com ela mais leve, rs
março 18th, 2008 at 10:03
Olá Sam,
Como as águas do rio que passam por baixo da ponte, sou hoje o que não fui ontem e não serei amanhã.
Sempre me rotulam como “imprevisível” e eu acatei este rótulo e ao invés de me prender a ele vivo em liberdade por ele. Quando faço algo que surpreende os que ao meu lado vivem, ouço: ela é mesmo imprevisível.
Quando tenho atitudes convencionais, surpreendo pois pensavam que eu iria agir de forma diferente e dizem: ela é mesmo imprevisível.
Na verdade não acho que sou imprevisível, nem diferente e nem que deixo habitar em mim várias Cybeles, porém acredito que seja exatamente como vc disse acima: as pessoas é que enxergam várias cybeles em mim.
Valeu, Sam!
Adorei!
bjs
março 24th, 2008 at 10:03
[...] acabo entrando um pouco na discussão que a Samantha já comentou antes sobre as pessoas que existem dentro de você. Essas pessoas dentro de você vivem cada uma com sua intensidade e é por isso que se torna tão [...]
março 27th, 2008 at 11:03
Postei sobre algo parecido no dia 11/02/08:
http://karynemlira.hitechlive.com.br/a-ocasiao-faz-o-ladrao/
bjoks
março 30th, 2008 at 04:03
Acredito, por experiência, que na verdade somos nuances temporárias (evolucinárias) das “várias pessoas” que gostaríamos ou poderíamos ser, como mostra no seu artigo.
A maioria das pessoas (externas) comprendem apenas a imagem o som e a atitude q vendemos. Portanto, como em comerciais bem intencionados e articulados, somos para os demais quem podemos ser (Engenheiros do haiaii, lembra?)
Achei tudo desse artigo muito interessante e real, concordo com (quase) tudo. Gostaria de conversar + com vc. Sua forma de pensar (escrever) me atraiu.
Moro em Goiania-GO, trabalho em são paulo (onde estou nesse período). 40 anos, divorc., nascido no CE (1968), criado no RJ, civilizado em SP.
abril 2nd, 2008 at 03:04
Muito legal este texto.
Eu as vezes me sinto um “Monstro do Dr. Frankstein” - pego várias características de diversas pessoas agrego a minha personalidade.
As vezes dá certo, outras viram um pesadelo.
maio 18th, 2008 at 10:05
adorei o texto
me vi nele pois tambem, crio personagens e sou em especial
um para cada situação, me divirto horores