Quem aborta no Brasil?

No feriado do trabalho recebi uma dica da Lella, num comentário do post Parto anômimo, citando nota do G1 sobre matéria do Jornal Hoje que traçava um novo perfil do aborto no Brasil. Os números são alarmantes, não por considerarmos que se faz o aborto e sim pelo perfil das mulheres que optam por ele como “método de planejamento familiar”. Estranhou? Mas é assim que tem sido.
Ao contrário do que reza o senso comum (e o preconceito social), que imagina a opção do aborto sendo feita por mulheres solteiras, jovens demais, com múltiplos parceiros e poucas condições financeiras ou psicológicas para ter um filho, o perfil é quase oposto.
Mulheres mais velhas e com filhos são as que mais fazem aborto. Não se surprendeu ainda? Segundo levantamento feito por amostragem pela UnB e UFRJ são 4 milhões de mulheres fizeram aborto no Brasil nos últimos 20 anos. E mais da metade delas é católica.
O levantamento é fruto da análise de todos os estudos científicos publicados no país sobre o assunto nesse período e mostra que são mulheres de 20 a 29 anos, mais de dois terços já têm filhos e a maior parte optou pelo aborto como forma de planejamento familiar, já que têm relacionamento estável e o parceiro costuma participar ativamente da decisão.
As mudanças na forma de fazer aborto pesaram e agora ele parece menos obscuro, o que o tornou ainda mais comum, mas não menos arriscado para as mulheres. A partir da década de 90, em vez de procurar clínicas clandestinas ou aplicar injeções, se tornou mais comum o uso de remédios e de chás para interromper a gestação.
Tomar chás de ervas abortivas é técnica milenar de controle de natalidade e falo isso sem defender, mas para mostrar que é que uma prática enraizada e que devemos encarar de frente esta realidade e passar a oferecer condições reais para as mulheres planejarem suas gestações sem precisar chegar ao extremo de interromper uma gravidez.
Como lembrou Deborah Diniz, uma das coordenadoras da pesquisa, diante desses dados é preciso dar um novo enfoque à discussão do aborto. Não há como não concordar com ela e reflexionar que antes de definir se é correto ou não abortar, precisamos discutir a fundo o que leva as mulheres a praticarem o aborto no Brasil.
P.S. Questionados sobre o resultado da pesquisa, Ministério da Saúde e Conferência Nacional dos Bispos dos Brasil (CNBB) se disseram preocupados com essas informações.
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maio 5th, 2008 at 12:05
Sam… esta discussão é realmente urgente neste país!! É impressionante como existem muitos a julgas e poucos dispostos a ir na raiz do problema!!
Adorei o texto!!
estrelinhas pra ti
maio 5th, 2008 at 10:05
Pois é, Sá. Eu achava que aborto tivesse a ver com falta de informação e acesso aos métodos contraceptivos. Mas a pesquisa mostra justamente o contrário. E eu fico sem entender. Porque as pessoas não conseguem planejar os filhos que querem ter?
Porque, mesmo tendo acesso à informação e meios de se prevenir, as mulheres continuam abortando? Isso sem falar na camisinha, tão divulgada, tão recomendada, mas que a gente sabe que a maioria dos casais com relacionamento estável não usa…
Conheço casos de gravidez indesejada, onde mulheres com boa condição financeira e bom nível cultural disseram ter engravidado porque esqueceram um único dia do comprimido. Mas a gente não tem outros métodos hoje em dia (diu, implante subcutâneo, injeção), que nos livram deste tipo de situação?
Desculpe. Posso estar sendo chata, talvez seja vista até mesmo como arrogante, ou fazendo um julgamento precipitado das coisas, mas não consigo entender como é que pode ser este o perfil das mulheres que abortam.
Só consigo pensar que falta mesmo uma campanha muito forte de conscientização das pessoas em geral - não só mulheres, já que os companheiros participam da decisão.
Porque se arriscar tanto, porque arriscar sua vida, sua saúde, porque tirar a vida de um novo ser, indefeso, quando seria muito mais fácil planejar?
Belo texto. Parabéns!
maio 5th, 2008 at 11:05
Quem aborta no Brasil? | Nossa Via: O conteúdo passa por aqui!…
Ao contrário do que reza o senso comum que imagina a opção do aborto sendo feita por mulheres solteiras, jovens demais, com múltiplos parceiros e poucas condições financeiras ou psicológicas para ter um filho, o perfil é quase oposto….
maio 5th, 2008 at 12:05
Quem aborta no Brasil?…
Ao contrário do que reza o senso comum que imagina a opção do aborto sendo feita por mulheres solteiras, jovens demais, com múltiplos parceiros e poucas condições financeiras ou psicológicas para ter um filho, o perfil é quase oposto….
maio 5th, 2008 at 12:05
Não me surpreende a maioria ser católica, ser católico no Brasil não quer dizer muita coisa, a maioria das pessoas que eu conheço se dizem católicas, apenas porque foram batizadas ou para casar na igreja de véu e grinalda, porque não vão a missa, nem sabem nada de nada a respeito do catolicismo, a não ser que existe padre pedófilo.
Muitas mulheres das classes A e B fazem aborto porque acreditam que no corpo delas quem manda são elas, simples assim, nada tem haver com falta de cultura, educação ou dinheiro.
Bom texto.
maio 5th, 2008 at 12:05
Olá Sam e Andréa,
Realmente este é um assunto muito delicado e complexo.
Acredito que diante de toda a pressão da igreja e dos conceitos da nossa sociedade, deva ser muito difícil para uma mulher optar pelo aborto. Imagino o conflito que deva existir antes, durante e depois.
É uma opção que além de colocar em risco a própria vida principalmente por ser realizado clandestinamente sem oferecer os cuidados necessários caso ocorra uma emergência, coloca em risco a saúde emocional em razão do peso que esta decisão acarretará.
Temos hoje muitos recursos contraceptivos, mas também sabemos que já houve casos de pílulas placebos, de mudar o anticoncepcional e engravidar, de engravidar com o diu e tantos outros casos que a grande massa nem fica sabendo.
Não sei que medidas poderiam ser tomadas para diminuir esta imensa quantidade de abortos, o que sei é que é uma realidade muito triste.
Muito bom texto.
bjs
maio 5th, 2008 at 01:05
Muito interessante seu artigo Samantha.
Aborto é uma questão mas o que percebo é que as pessoas tem receio de discutir o assunto.
Ja li em um artigo cientifico antes, agora não me lembro a fonte. Mas a prática de aborto assim como a gestação na adolescencia está intimamente relacionado à falta de orientação sexual das pacientes.
O que me impressionou foi a faixa etária. Ja tive a oportunidade de acompanhar um serviço de obstetrícia em Uberaba MG e normalmente o que pude presenciar eram abortos provocados em mulheres um pouco mais jovens (15-20) anos. Realmente acho que o perfil mudou, e também depende do perfil da população analisada.
Não vejo outra forma para resolver essa questão do Aborto que não seja educar a população, incentivar o uso de métodos anticoncepcionais, e dar assistência para que as mães possam ter capacidade de criar os filhos e não ter que abortá-los. É uma realidade longe de nosso país.
Não sei se posso postar links aqui, mas em meu blog ja discuti alguns assuntos a respeito…
Opinião da população sobre o Aborto (dados DATASUS): http://www.blogdoredondo.com/artigos/aborto/
Anticoncepção e Métodos Contraceptivos:
http://www.blogdoredondo.com/artigos/anticoncepcao/
Polêmica e discussão - comparação de pesquisa com células tronco e aborto
http://www.blogdoredondo.com/artigos/celulas-tronco-2/
Parabens pelo artigo. Gostei muito.
maio 5th, 2008 at 02:05
Caros
arrisco-me a fazer um outro texto aqui, mas lá vai. Como vocês nos seus comentários eu não deixo de me perguntar:
* Será que ainda não chegamos num ponto em que seja possível evitar ao invés de se livrar?
* Como nós temos ajudado as mulheres que convivem conosco a ter uma atitude mais “pró-ativa” no controle da natalidade?
Acredito que uma das formas de trazer luz aos assuntos é falar deles. Você conversa com uma pessoa sobre o assunto e fala claramente do tema, sem vergonha, sem meias palavras, oferecendo-se para uma troca de idéias.
Outro dia eu estava na manicure e bati um papo incrível , quase uma entrevista, com uma obstetra, que serviu para elucidar temas para toda mulherada que estava lá. Mas precisamos conversar com os jovens, com nossas amigas, com os filhos (sim, se for o caso e a faixa etária) e não só com a médica. E se possivel, porque não escrever sobre o tema? Estas são formas de exercer a cidadania!
Passei por um aborto espontâneo antes de ter meus filhos e não provocaria um aborto. Mas não me julgo acima de ninguém e não me imiscuiria na privacidade dos outros, opinando e criticando. Discuto a postura da sociedade que finge que não vê que esta prática está se tornando tão freqüente e continua se negando a criar uma política aberta para debater o assunto. As famílias mudaram, as mulheres assumiram novos papéis sociais, mas continuam, infelizmente, arcando sozinhas com algumas responsabilidades e não se dão conta de que é hora de abandonar esta conduta por uma que lhes garanta mais direitos.
Abraços
Sam
maio 5th, 2008 at 03:05
Particulamente, sou contra o aborto. Claro, sempre haverão os casos em que esta, por mais cruel que seja, é a melhor opção. Como por exemplo, na geração de fetos anencéfalos. Pra que levar uma gravidez assim adiante? É uma contagem regressiva.
Mas a questão vai mto longe. Fico pasma enquanto mulheres como nós, ficam organizando a vida afetiva e finaceira, em prol do sonho da maternidade e outras saem simplesmente tendo filhos em busca da bolsa família.
Ainda esses dias comentava com um amigo que defendeu a teoria: “Temos que ter filhos. Mais que um sonho ou projeto de vida, não podemos deixar o mundo para esses que simplesmente nascem e não terão futuro, serão apenas estatísticas”. Infelizmente concordo, é essa a nossa realidade.
Tbm acho que existam caminhos para a melhora dessa condição, mas acredito, por mais duro que pareça, que maternidade deveria ser um direito para algumas, como em adoções. Radical? Pode ser, mas vc só adota se prova finaceiramente e psicologicamente que está apto, pq sair tendo filho indiscriminadamente é considerado socialmente normal?
Antes de pensar em aborto, penso em contra-concepção e educação. Infelizmente temos que encarar o “aconteceu”do povão mesmo sabendo que hj só fica grávida quem quer.
Oh my… esse assunto ainda dá mto pano p/manga…
maio 5th, 2008 at 04:05
Poxa… questão delicada!
É incrível que certas coisas ainda acontecem num tempo em que a informação é coisa corrente e disseminada!
É possível dizer que as pessoas não tem noção de planejamento familiar? Claro que não…
Me parece que isto tem mais a ver com posturas comodistas onde sempre se acha que o que acontece com todos não acontecerá “comigo”! Na questão das doençãs sexualmente transmitíveis tbm ocorre um síntoma parecido…
De qualquer forma, sou a favor da legalização do aborto… acredito (ainda) de que as pessoas tem que ter o direito à opção… e também para evitar os abortos ilegais que, como regra, terminam mal.
maio 6th, 2008 at 01:05
Engraçado ouvir falar de métodos contraceptivos - alguém já analisou o funcionamento desses medicamentos? A maioria deles são abortivos. O curioso é que abortar é crime.
Ou será que a vida só é vida a partir do momento que um feto está formado? Não, a vida é vida a pártir de uma simples célula - ou então não haveria continuidade, não haveria formação.
A igreja é contra os métodos contraceptivos justamente por isso. Porque a ação dele é abortiva tanto quanto as ervas, os métodos cirúrgicos.
Somos contra o aborto, mas a favor da prevenção. Não é curiosa a nossa atitude?
Eu acho que o aborto é um assunto pessoal, não é para ser discutido por padres ou juízes, deputados e senadores. Nem é um assunto que precise ser discutido.
Tenho vinte e poucos anos, uso métodos contraceptivos tidos como seguros e sou a favor do aborto sim. Porque se eu descobrisse uma gravidez hoje, seria um transtono, seria desconfortável e seria mais, algo totalmente indesejado. Ponto final. Faria um aborto sim, porque essa decisão cabe a mim e não ao mundo que está a minha volta.
maio 6th, 2008 at 01:05
[...] um texto para o Nossa Via levantando a questão: Quem aborta no Brasil? Leia também…Ciranda de Pedra on May 5th, 2008.A Jovem Coréia on May 5th, 2008Comentei repetidas [...]
maio 6th, 2008 at 01:05
Muito interessante essa postagem.
voltarei para colher sempre boas informações
bjoka
>.<
maio 6th, 2008 at 10:05
Eu sou contra o aborto, em não ter feito nenhum. Mas à favor da descriminalização.
Em relação ao resultado dessa pesquisa… a esses 4 milhões somam-se um número daqueles que não chegaram a um registro oficial. E não creio que só seriam de mulheres que moram em regiões pobres, longes de centros urbanos. Pois conheci pessoas que fizeram abortos e como não houve complicações, não foi preciso ir a Hospitais.
E fico na torcida de que assuntos como gravidez, DST façam parte do currículo escolar do Ensino Fundamental. Que não sejam só de vez em quando.
Sam, Parabéns pelo texto!
Beijo grande,
maio 12th, 2008 at 02:05
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