Oh razão, onde habitas senão em meu coração?

Há algum tempo, neste post aqui, eu coloquei a seguinte frase:
Não se trata aqui de falar do famoso embate razão/emoção. Visto que, em minha opinião, esse embate não existe (mas isso é assunto para outro post!)
E, o leitor Vava fez o seguinte comentário:
Você falou que não existe o conflito razão vs. emoção? Discordo totalmente de você, claro que existe, estou ansioso para ver esse tal post que explicará essa teoria?
Então.. vamos a ele:
Há muito tempo atrás, alguns caras que eram muito inteligentes, acreditavam que existia um “mundo das idéias”… um lugar onde nossas idéias habitavam e por um longo processo se tornavam reais através de nós. Esse mundo das idéias era um lugar onde poderíamos encontrar todas as imagens que habitavam nossos pensamentos, nosso repertório… ou seja, ao pensar numa “árvore” (por exemplo) ela primeiro seria a imagem que temos dela criada neste mundo ideal para só depois se materializar como “árvore-objeto” ao nosso alcance. Seria, mais ou menos nesse lugar, que habitaria a nossa razão! Do outro lado, nós teríamos as emoções. As “sensações”, as reações sensoriais ao mundo que nos cerca e que habitaria o nosso corpo. Nossa dimensão mundana e física. E, por alguma razão, que minha ignorância desconhece, esses mundos seriam divididos.
A partir de afirmações como essas, várias idéias foram sendo formadas. Uma delas, a que nos interessa neste post é a de que “razão” e “emoção” seriam coisas distintas e que haveria um “embate” entre elas no momento de nossas decisões. Como se ao tomarmos uma decisão apoiada sobre nossa emoção, deixaríamos de lado nossa razão ( e vice-versa).
Eu não acredito nisso!
Oras, de acordo com um pensamento mais oriental, nosso corpo e nossa mente habitam o mesmo espaço… ou seja, “nós”. Nós somos o substrato do que sentimos e do que pensamos, que de uma forma “integral” vão se alimentando, se provocando e nos formando. Nossa razão habita nosso corpo. O mundo das idéias habita nosso cérebro e o intricado jogo de reações nervosas que acontecem por lá (ou seria por aqui?)!!!
Peguemos o exemplo de uma pessoa em depressão que em um determinado momento deve correr (fisicamente!) para não perder um ônibus. Ao entrar no mesmo é possível perceber o estado de “excitação” ao qual ela é levada pelo exercício físico, puro e simples. Seu corpo está ativo e leve, pronto para realizar qualquer tarefa . Onde foi parar sua depressão neste momento? E, logo após, cinco minutos depois, “pensando” em todos os seus problemas, seu corpo volta a ficar pesado e sonolento novamente.
Dessa forma, pode-se dizer que existe sim uma “tensão” entre nosso físico e nossa racionalidade. Pode-se dizer que essas “forças” complementares estão a todo mundo influenciando-se e influenciando-nos em nossas escolhas. Mas não podemos chamar de “embate” visto que não há antagonismo entre as partes.
Todas as nossas escolhas baseadas em “razões” estão influenciadas, e por que não dizer “construídas”, por nossas emoções. Assim como nossa “emoção” está definida através das razões que nos levam a sentir dessa ou de outra forma.
O mundo é muito mais complexo do que essas “dicotomias” que nos são impostas no dia-a-dia… mas ao mesmo tempo é muito mais simples do que pensamos. Somos ÿNICOS, inteiros… agimos de acordo com nossa totalidade, embora na maioria das vezes façamos força para “tentar” separar as coisas.
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July 5th, 2008 at 07:07
E qual seria a razão para separarmos as coisas? Não encontro resposta no momento…me parece sem sentido.
July 5th, 2008 at 09:07
Cristina…
Eu não acredito que seja possível separar as coisas… mas tem gente que jura que dá!!!
Enfim….
July 6th, 2008 at 11:07
Max, meu amigo, sou adepta desta visão mais holística do mundo e dos seres humanos, talvez até por ser oriental, vejo-nos como um todo, resultado de vários fatores indissociáveis. Como você disse:
“Somos ÿNICOS, inteiros? agimos de acordo com nossa totalidade, embora na maioria das vezes façamos força para ?tentar? separar as coisas.”
Mas como aquariana, eu separo muito as coisas, naturalmente, sem forçar, mas acontece. Aqui entram outros componentes indissociáveis do DNA de cada um, não é? Adorei o texto e estou bem feliz que está voltando a nos brindar com suas reflexões! Você é um dos meus autores favoritos.
July 6th, 2008 at 02:07
oi Max,
tenho lido Ricardo Reis, então meu pitaco vai assim: somos I e II ao mesmo tempo ou em algum indeterminado tempo ao menos
(I) seria metáfora da razão; (II) seria da razão+emoção e além.
(I)
nada fica d nada. nada somos.
um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
da irrespirável treva q nos pese
da humilde terra imposta,
cadáveres adiados q procriam.
leis feitas, estátuas vistas, odes findas -
tudo tem cova sua. se nós, carnes
a q um íntimo sol dá sangue, temos
poente, por que não elas?
somos contos contando contos, nada.
(II)
para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui.
sê todo em cada coisa. põe qto és
no mínimo q fazes.
assim em cd lago a lua toda
brilha, pq alta vive.
July 7th, 2008 at 11:07
Muito obrigado pelo tópico e desculpa a demora em responder, realmente havia me esquecido.
Desculpe mas não vou entrar no mérito de Platão, não sou um filosofo, vou falar apenas sobre minha experiência de vida que me provou a existência dos dois…
Olha, realmente seus argumentos são interessantes, mas você foi ao extremo ao dizer que ao se crer na existência desse embate, esse embate ocorreria sempre…
Claro que não… Do meu ponto de vista a razão e a emoção podem e andam muitas vezes lado a lado, na verdade, com a maioria das pessoas, isso ocorre quase todo tempo…
Eu concordo com o argumento das duas habitarem a mente, realmente, as duas estão principalmente em nossas mentes, embora parte da nossa emoção seja representada ou sentida através de nosso corpo.
Entretanto… ÿ racional uma mulher apanhar todo o dia de um marido? ÿ racional duas pessoas que nunca poderiam se dar bem juntas, mas que se amem, continuar namorando? ÿ racional entrar num prédio em chamas, mesmo que seja para salvar a vida de seu filho e sem ter certeza de que ele está vivo?
ÿ sobre isso que estava falando… Algumas vezes, precisamos tomar decisões, onde nossa razão e nossa emoção se conflitam, por mais que estejam indiretamente interligadas…
No caso da mulher ela poderia continuar por carência ou por amar demais o marido, mas ela poderia ter a decisão racional de se separar dele… No caso dos namorados, ficar se enrolando só tornaria a situação pior… Então ou eles chegariam às ultimas consequências por amor cego, ou tomariam a decisão racional de terminar… Por aí vai…
Sei que a emoção e razão são interligadas… Por exemplo, uma pessoa acha (razão) que alguém que leia muito é uma pessoa incrível… Esse pensamento racional, poderia levar a pessoa a se apaixonar (emoção), se encontrasse alguém que seja um grande leitor ou talvez um escritor, se essa pessoa for do sexo oposto (ou do sexo pela qual se sinta atraído).
Gostei muito do seu tópico, mas infelismente esses argumentos não me convenceram de que o embate não exista.