Se eu disser que te amo você fica muito chateado?
Texto enviado pelo canal Via Aberta por uma leitora que identificou-se apenas como Katerina
Se eu disser que te amo você fica muito chateado?
- Rubem Fonseca: Vastas Emocões e Pensamentos Imperfeitos, p. 85

Por que eu sempre sentia medo de falar para ele que eu o amava?
E por que, como eu posso ver no livro que acabei de ler, não sou a única a quem isso acontecera?
Por que quase todo o mundo tem hoje em dia medo não somente de falar de amor mas ainda por cima sentí-lo?
Amor é uma sensação ruim?
Há alguma razão para reduzirmos o relacionamento ao ficar? (Namorar fica sério demais, não é?)
Há alguma razão para reduzirmos nossos sentimentos à paixão? (Amor não é fácil de tratar, é?)
Estou perguntando. Se eu escolher o caminho mais fácil de todos que se oferecem, isso vai me assegurar a vida boa e feliz, satisfeita e preenchida?
Será…?
“A via mais fácil ruma ao inferno.” - Bíblia Sagrada
Pois é. Fazer perguntas é fácil demais. O que é difícil é responder.
Então, vamos lá.
Eu o amava de verdade. Não é nada mau nisso, é? Ele me tratava muito bem, com muito carinho, ele me dava tudo o que eu precisava, tudo do que sonhava, muito mais no que esperava. Cresci ao lado dele. Ele também floresceu ao meu lado. Todo o mundo viu. Todo o mundo sabia. Aprendemos muito um com o outro. Ficamos felizes. Mesmo assim cada vez me senti culpada ao dizer: “Te amo.”
Ele nunca falou para mim. Eu sempre sentia uma estranha sensação de medo atrás do silêncio dele. Medo de que? Medo de falar de amor ou medo de mesmo sentí-lo? Medo de sofrer depois que o amor acaba? Parece ser assim. É até lógico. Homem não quer sofrer… Para evitar o sofrimento como uma consequência de alguma coisa, a pessoa tenta evitar a causa daquela coisa.
Como se pode evitar um desespero ao perder o amor senão por recusá-lo desde o princípio? Não vejo nenhum erro nesta lógica. Parabens! Nao há nada melhor do que ser racional, não é? Não, para mim não. Para mim, as emocões nos oferecem muito mais do que o raciocínio e a razão podem dar em qualquer instante. Por isso não estou entendendo este tipo de medo de sofrer de amor.
Porque para mim, amar é a coisa mais bela do mundo. Mas não é somente amar, o que é belo é saber disso.
Para voltar ao assunto é preciso dizer que não acho possível alguém conseguir recusar um amor. Amor não nos pergunta se
pode entrar. Ele simplesmente aparece sem podermos fazer qualquer coisa.
Então, como é que algumas pessoas, igual ele, sucedem? É simples. Amar é uma coisa, admití-lo diante de si mesmo e diante de outros é outra coisa. E daí? Admitir uma coisa é em nosso poder. Se a pessoa conseguir acreditar, que não ama, nunca vai sofrer tanto como a pessoa que sabia que amava. Na verdade, ambos nos amávamos. Mas ele sofreu menos do que eu quando decidiu acabar conosco. Ele lutava contra a realidade muito tempo, isso é verdade. Como eu o conhecia, não esperava nem por um minuto, que o nosso amor sobreviveria tanto tempo, apesar do oceano entre nós, impedindo-nos, com força, pegar a mão do outro, acariciar o seu rosto, abraçá-lo, beijar, fazer amor.
Naquela situação tudo fica muito mais complicado, sob aquelas condições um problema pequeninho, que normalmente se resolveria durante uns minutos, se vira uma causa grande e grave sem muitas chances para se resolver sem consequências.
Num momento da minha fraqueza, da minha insegurança, eu falei para ele: “Você me ama? Quero que você diga que me ama.” Foi isso o que estragou tudo. Ambos fomos culpados. Eu que deixara de acreditar nele e na pureza dos sentimentos
dele e ele que ficara com medo de admitir um amor tão grande, que um dia atravessasse o oceano e nos permitisse realizar os nossos sonhos. Mas agora é tarde demais.
Ambos estamos aprendendo viver ao lado de outra pessoa que nos ajudaria esquecer do que aconteceu e que nos habilitaria acreditar, que o que aconteceu foi o melhor possível. Que não existia melhor alternativa. Que entramos no caminho que está nos levando para o futuro feliz, mais feliz do que o que recusamos. Será que um dia eu dou conta disso? Não. Sei que não.
E estou feliz por isso. Nunca quero terminar como um racionalista verdadeiro incapaz de render-se às emocões, atuando sob a influência de medo. Não tenho medo de sofrer. Acredito que a pessoa, cuja vida, cheia de sofrimentos – não os físicos, claro – está acabando, é muito mais feliz por vivê-la, do que a pessoa que nunca sofria na sua vida. Aquela pessoa não
sofrera, sim, mas não porque ela seria por toda sua vida feliz. Foi porque ela nunca estava feliz suficiente para poder sofrer de uma perda…
Aliás, o que é amar? Cada um possui uma definição diferente, não é? Talvez por isso amor é difícil de tratar. Então, o que é amar para mim?
Amar é querer passar o resto da vida ao lado daquela pessoa. É não sentir medo de encarar problemas e desafios junto a ela. É não sentir desejo por qualquer outra pessoa. É estar feliz ao imaginar estar envelhecendo mão em mão. E muito mais do que isso. É exatamente isso o que eu senti a respeito dele. E não vou ficar envergonhada por isso. Também não vou lamentar que um dia quis ouvir isto do lado dele. Tenho, todos temos, direito de ser amados. Mas primeiro, temos que amar - profundamente, de verdade, de mão aberta, sem brincar com os sentimentos de alguém. Assim que conseguirmos isto, a porta da felicidade vai ser aberta para nós. Não vai ser a vida sem sofrimentos… Com certeza não. Mas quem nunca sofreu, nunca era feliz. E vice versa…
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janeiro 9th, 2008 at 01:01
Katerina,
Muito belo o seu texto, e muito bela a relação de amor que você descreve.
Parece que hoje as pessoas realmente sentem medo de admitir que amam. Amar envolve entrega, né? E é realmente difícil, porque quando amamos, não partilhamos apenas momentos felizes, coisas boas, o “curtir a vida”. Mas partilhamos também responsabilidades, momentos difícies e até mesmo discordância de pensamentos, além de aceitar que o outro possui características que nem sempre nos agradam…
Só há uma coisa que eu gostaria de apontar no seu texto, quando você diz: “amar… é não sentir desejo por qualquer outra pessoa.” Acho que esta colocação tem muito a ver com a educação romanceada que (ainda) temos do que é o amor, do que são relacionamentos. Mas, na prática, na vida real, e principalmente para os homens, amar não tem nada a ver com desejar. Desejar é físico, amor vem do “coração”. E aí é que “trombamos” de frente com eles, não é mesmo? Que mulher gosta de admitir que seu namorado, marido, “ficante”, sente desejo por outra mulher? A grande maioria não gosta nem de pensar nisso… Mas acontece, e faz parte da vida real.
Isto quer dizer que ele a ama menos, porque sentiu desejo por outra? Não, de forma alguma: ele ama você, e é com você que quer ficar, mesmo que às vezes não o diga. Mas vai fazer a mulherada entender isso…
Pra nós, mulheres, sexo, desejo, (ainda) têm muito a ver com amor, com sentimento. Para eles, não. São coisas distintas.
Mas, com certeza, a relação é muito mais prazerosa e completa quando traz amor e desejo embrulhados pacote.
janeiro 9th, 2008 at 05:01
eu já havia comentado no não2não1 q ano passado foi um ano ultra precioso, por vários motivos - mas, sobretudo, por três grandes novas amizades. um trio d gente q me ensinou e ainda ensina sobre amar:
a remexer, tocar e saber bem cuidar,
a bem-querer, repartir, recriar,
a realinhar-me qdo acerto, erro ou sofro,
a (re)descobrir e (re)aprender a semear o amar.
uma delas, claro, é o Gitti; a outra é um d seus melhores amigos, descoberta daquelas tipo mais casual impossível e, por si só, já d nascentes tão fortes - e a terceira grande amizade é a Kate.
se ela aqui não quis se identificar melhor, não serei eu a fazê-lo, por mais q eu me desabroche d vontade. apenas repito, além d me dar um puta orgulho d ser sua amiga, ela me transforma numa aprendiz o tempo todo. perto dela, aliás, perto desse trio aí, eu vivo no chinelo….. ;0)
mockrát za to děkuji, vážený příteli!!! :0))))
janeiro 11th, 2008 at 08:01
Um amigo meu escreveu um comentário pelo e-mail. Acho bom colocá-lo aqui.
“Penso que todos os indivíduos que sao capazes pensar nos sentimentos sabem que o mais difícil é falar deles. Toda a gente sente que é muito vulnerável e frágil com as suas emoçoes. E, de certeza absoluta, é assim. Abrir-se a alguém é a coisa mais perigosa porque a outra pessoa pode depois muito facilmente e duro usar que contra voce (até sem querer). Mas é sem qualquer dúvida também a coisa mais fantástica porque quando uma pessoa reconhece (nao só por raciocínio, mas sobretudo pelas
suas impressoes) que pode confiar em alguém de maneira quase absoluta, é a razao para viver. Mas a gente tem que aperceber isso. Para alguém é mais fácil, para alguém mais difícil, mas para ambos é necessário. É necessário saber falar das emoçoes, é necessário pensar e saber das emoçoes e é necessário dar saber delas ao outro. E nada disso é fácil
para qualquer indivíduo no mundo (no caso de pessoa fala frnaco).
O sofrimento que faz sempre parte de todas as relaçoes pessoais nao se de certeza diminui por nao dizer ou por nao admitir uma emoçao. Toda a gente sabe e sente apesar de todas as tentativas de tirar os sentimentos para trás. As emoçoes sempre ficam na base e quando se ignoram elas
próprias saem a superfície e depois é ainda mais doloroso.”
janeiro 11th, 2008 at 09:01
Andréa,
obrigada pelo seu comentário, e também por iniciar a discussão sobre desejo e amor e onde é que se divergem. Você tem razão ao dizer: „Desejar é físico, amor vem do coração.“ Mas o que eu quis mesmo dizer por „amar é não sentir desejo por qualquer outra pessoa“ é que quando amar, não sinto a menor pena de não poder „experimentar“ outros homens, sabe? Ao contrário, quando ficar com alguém, com qualquer um, sofro ao imaginar que aquele sujeito deitado ao meu lado devia estar o último… É clara a diferença? Não é o desejo que sente cada um de nós (acho que as mulheres pensam nisso igual os homens) na base quase diária (é um pouco exagerado, sim), e sim o desejo compreendido de longo prazo, o desejo por qualquer outra pessoa que apareceria na nossa vida.
janeiro 11th, 2008 at 09:01
Andréa,
obrigada pelo seu comentário, e também por iniciar a discussão sobre desejo e amor e onde é que se divergem. Você tem razão ao dizer: „Desejar é físico, amor vem do coração.“ Mas o que eu quis mesmo dizer por „amar é não sentir desejo por qualquer outra pessoa“ é que quando amar, não sinto a menor pena de não poder „experimentar“ outros homens, sabe? Ao contrário, quando ficar com alguém, com qualquer um, eu sofro ao imaginar que aquele sujeito deitado ao meu lado devia estar o último… É clara a diferença? Não é o desejo que sente cada um de nós (acho que as mulheres pensam nisso igual os homens) na base quase diária (é um pouco exagerado, sim), e sim o desejo compreendido de longo prazo, o desejo por qualquer outra pessoa que apareceria na nossa vida.
janeiro 14th, 2008 at 02:01
Katerina,
Acho que entendi o que você quis dizer: que ao escolhermos aquela pessoa, tenhamos certeza de que é com ela mesma que queremos passar todos os dias de nossa vida, não é?
Acho que aí também concordo, e acho que os homens, aqueles que encontraram as parceiras com quem são realmente felizes, também pensam assim. Tenho muitos amigos, casados, que são muito felizes em seus casamentos e que dizem saber que suas companheiras são as mulheres que eles realmente desejam ter por todos os dias ao lado deles - ainda que possam sentir atração sexual por outras, não tem jeito, faz parte da natureza masculina.
Quando li sua resposta, lembrei de um texto muito belo do Stephen Kanitz, intitulado “O contrato de casamento”. É uma colocação interessante, diferente daquelas que estamos acostumados a ver, ouvir: Se quiser ler, o link é:
http://www.kanitz.com/veja/contrato.asp
Abraço,
Andréa