Seja você a pessoa certa
“O sucesso do casamento é muito mais do que encontrar a pessoa certa; é uma questão de ser a pessoa certa.” –B. R. Bricker
O elemento mais comum no imaginário amoroso das pessoas do séc. XXI é, talvez, o da “pessoa certa” ou “the one”. Estou cansado de ouvir frases assim: “Ainda não encontrei a pessoa certa” ou “Será ele o cara certo para mim?”. A “pessoa certa” para quem, para o quê? Para o grande “eu”, foco de nossas atenções. Para a importantíssima “minha felicidade”, claro.
A pessoa certa é aquela cujos atributos se acoplam perfeitamente com todos os nossos desejos, hábitos, vícios e peculiaridades. Se sou carente, quero um superprotetor traumatizado (traído da última vez que ficou ausente). Se gosto de vinho, adoraria um homem que seja quase um sommelier. Se sou fascinado por peitos, uma mulher tábua não me serviria.
Tal lógica seria perfeita em um mundo intocado pela impermanência. O problema é que nossas preferências, hábitos e desejos mudam a todo instante. Já tivemos nossas fases gastronômica, carente, acadêmica, cultural, caseira… E assim fomos trocando de parceiros. A situação a que chegamos hoje é simples de resumir: além das relações líquidas, as que tentam ser duradouras dificilmente escapam de situações de traição, adultério e muita, muita dor.
O que aconteceria se invertêssemos essa lógica? Se, em vez de procurarmos pela pessoa certa, tratássemos de ser a pessoa certa? A seguir, vou rascunhar algumas possibilidades nessa outra direção. No entanto, só saberemos se pularmos, mergulharmos e incorporarmos essa outra lógica com nossos poros, retinas, veias. Quem pular nesse abismo, depois passe aqui e nos conte como foi.

A lógica do oferecer
Uma boa metáfora para contrastar as duas abordagens: se estiver em dúvida entre duas pessoas, não escolha a mais engraçada, mas a que ri de suas piadas. Ou seja, não escolha a que tem mais a lhe proporcionar, e sim aquela que mais pode se beneficiar com o que você tem a oferecer.
Em vez de focar suas energias em encontrar alguém belo, contemple seu próprio corpo e faça surgir beleza dele. Em vez de ficar esperando por alguém inteligente, apenas distribua sua inteligência para qualquer um. Seja a pessoa certa, sem esperar resultados ou retribuições de qualquer tipo.
Se você é mulher, não busque olhares. Irradie aquilo que você não precisa de espelhos para ter a existência confirmada. Se é homem, não pense que o amor é aquilo que você recebe. Seu amor é aquilo que você oferece. Isso ninguém tira, isso você leva junto para onde for.
Estava há pouco conversando com um amigo em conflito. Ele deseja vir trabalhar em São Paulo, mas tem uma namorada há 5 anos em sua cidade. Em um dos momentos, disse: “Posso ir a São Paulo, fazer sucesso profissionalmente e nunca encontrar um amor”. Ora, o amor ele trará junto, nunca será encontrado, só direcionado para outra. Se ele cultivar esse amor, é possível que consiga reconquistar a namorada atual quando voltar à cidade natal anos depois. Se ele voltar esperando receber amor, dificilmente conseguirá conquistá-la novamente.
Reconhecendo a impermanência (sem fugir ou ignorá-la), podemos amar com liberdade. Renunciamos a realização de nossos impulsos neuróticos, largamos os ganchos e oferecemos nossas habilidades para o deleite de nosso parceiro. Na verdade, é isso que sempre desejamos, sem saber como realizar.
Após um fim de namoro dolorido, nossa felicidade não surge quando descobrimos que podemos ser amados novamente. Sentimos a vida pulsar apenas quando descobrimos que podemos amar outra pessoa. É a capacidade para o amor que nos alegra. Nossa felicidade não vem do outro tanto quanto vem de nossa própria potência inata de amar e produzir felicidade em todas as direções.
O amor livre como um antídoto ao adultério
Algumas pessoas que já me ouviram falar em “desvincular o amor do amado”, ao propor algo que às vezes chamo de amor livre, reagem com um desconforto e defendem a fidelidade monogâmica – como se “amor livre” significasse poligamia ou justificasse o adultério. Pelo contrário, uma pessoa só trai porque se sente incapaz de reconstruir o amor, curar a relação, sentir-se viva novamente diante do outro e, assim, fazê-lo renascer diferente.
Na verdade, o amor é livre de fixações, livre de personagens, livre até mesmo dos parceiros que os manifestam. Se depender dos condicionamentos que o trazem à tona, ele terminará quando o casal afundar. Mas o amor oferecido não cessa, não é mesmo? Ele é amplo, vasto, todo abrangente. O amor recebido, este sim cessa.
Qual não é nossa surpresa quando percebemos que, logo após o fim, seguimos com a potência de trazer felicidade ao outro? O amor não cessa pois ele é essa abertura ao outro, essa capacidade de oferecer, oferecer, oferecer. Se podemos sempre oferecer, é sinal que sempre temos amor, mesmo quando parece que ele nos foi arrancado de dentro do peito.
Mostro abaixo, ao mesmo tempo que deixo um desafio a homens e mulheres nesse fim de ano, como o amor livre favorece a fidelidade (não o contrário) e diminui o impulso à traição.
Recado para os homens
Faça-me um favor. Descubra logo que você pode conquistar e amar qualquer qualquer uma. Seja você rico ou pobre, feio ou bonito, você tem tudo o que é necessário para fazer qualquer mulher feliz. Basta liberar seu amor, sem fixações, hesitações ou dúvidas. Enquanto não perceber que seu amor é livre, você continuará testando-o com várias. Enquanto sentir seu amor acabar, você terá de dormir com outras garotas para resgatar sua potência vital.
Uma vez solto, canalize tudo em apenas uma mulher (a menos que você realmente consiga fazer duas felizes sem causar complicações, o que hoje duvido ser possível em nossa sociedade). Depois, tome cuidado para não confundir foco com fixação. Seu amor nunca será dela para que sempre seja dela, momento a momento, em um processo incessante de escolha e liberdade.
Assim que você vincular seu amor a ela, ele parecerá surgir de fora e você o sentirá como vindo dela para você. É nesse momento que você pára de oferecer, ou seja, pára de amar. Quando a relação acabar, você terá a certeza de que ela levou seu coração, apagou o Sol e deixou a sala vazia, sem amor algum. É esse o outro lado da “pessoa certa”.
Sugestão para as mulheres
De uma vez por todas, sinta-se inteira como sendo o amor que você busca nos olhares e espelhos do mundo. Você já é aquilo que espera ouvir de um homem. Você já está na ilha paradisíaca de seus sonhos, abraçada e acariciada com declarações de amor. No momento em que você sente que precisa de amor, a carência inunda seu corpo até o ponto em que você precisará de outro olhar para voltar a ser bela.
Para você também: seu amor nunca será dele para que seja sempre dele. Enquanto você transpirar amor por todo lado, terá o que oferecer e portanto poderá ser totalmente dele. No instante, porém, que você precisar dele para respirar, você não mais conseguirá oferecer e terá de exigir o amor dele.
Você se lembra dos momentos em que mais foi feliz e aberta? Na maioria deles, havia um outro em cena? Sem querer, vinculamos todas essas sensações a uma ou outra pessoa. Se elas deixarem de proporcionar essas sensações, você será obrigada a buscar um outro que resgate todas as alegrias e toda a beleza que você já vivenciou. Um outro homem que veja beleza em você e movimente tudo aquilo que você desconfia da existência mas não sabe bem como encontrar.
Durante essa busca por amor, você fará muitos homens sofrer. O primeiro vai olhar e revelar beleza. O segundo revelará ainda mais. O terceiro a levará para locais que os dois primeiros nunca sequer vislumbraram. O quarto finalmente a fará mulher. O quinto ensinará todos os prazeres do sexo. O sexto… Até quando? Quando chegará o “The One”? Sinta agora seu corpo, inspire sua beleza, deite-se sobre a certeza de que você já é mulher. Totalmente, inteiramente, deliciosamente mulher. Como a face feminina do amor, ofereça-se ao mundo de corpo e alma. E se ainda quiser causar dor nos homens, produza um outro tipo de dor, if you know what I mean…
É esse meu desejo para 2008. Homens e mulheres completos, um oferecendo ao outro aquilo que nenhum precisa, aquilo que ninguém nunca quis ou pediu (como ensina Contardo Calligaris). Amor necessário é horrível. Amor bom é igual arte: inútil, completamente descartável… e belo.
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December 24th, 2007 at 04:12
[...] Texto de fim de ano para o portal NossaVia. Ficou como rascunho por mais de um ano aqui no Não dois, não um, hoje saiu meio vomitado.
Link direto: “Seja você a pessoa certa” [...]
December 24th, 2007 at 05:12
Seja você a pessoa certa…
Entre dois possíveis parceiros, não escolha o que tem mais a lhe proporcionar, e sim aquele que mais pode se beneficiar com o que você tem a oferecer….
December 24th, 2007 at 06:12
Muito bons seus textos Gustavo. Valeu!
December 24th, 2007 at 07:12
Ótimo texto Gustavo! Mais um daqueles que eu vou ter que imprimir e guardar na pasta N2N1, para poder ler com mais calma para absorver tudo :).
“Sentimos a vida pulsar apenas quando descobrimos que podemos amar outra pessoa”
Eu não teria dito melhor!
Abração e bom fim de ano para você!
December 25th, 2007 at 10:12
Rapaz!!!
Estou tentando…juro que estou tentando…
Mas dá uma canseira……………….
December 25th, 2007 at 03:12
éhhh Gitti: e vamu um aprendendo com o outro; ser é ser-com.
esse est coesse! ; )
December 25th, 2007 at 05:12
Nossa Gustavo!!! Mais um post maravilhoso que vc nos presenteia. Sempre encontro em seus textos a indicação de novos caminhos reflexivos que me tiram de encruzilhadas. Aquela idéia que vem no dia e hora certos. Mais do que um convite pra sermos pessoas inteiras, me parece que vc nos propõe um descentramento. É só qdo estou/sou um ser “completo” que consigo me doar dessa forma livre e despretenciosa.
Mais uma vez, adorei a leitura! E tendo ela sido feita nessa tarde de natal, teve um sabor prá lá de especial.
Bjs,
Rumo a 2008 em busca de me tornar a pessoa certa! rs
December 25th, 2007 at 07:12
Adorei essa inversão, esse desafio. Vou experimentar e depois te conto. Só de ler me sinto mais livre e só de pensar nessa possibilidade de partir de mim, mais amorosa.
“oferecendo ao outro aquilo que nenhum precisa, aquilo que ninguém nunca quis ou pediu”
Parabéns Gu
bjs
Alê
December 26th, 2007 at 08:12
Boa Gu!
Excelente texto!
Um grande abraço!
December 26th, 2007 at 11:12
Isso aí Gustavo! Excelente.
Temos o costume de pensar no parceiro como “a outra metade” da nossa vida, da relação. Eu nunca gostei de pensar assim. Prefiro ver como dois inteiros, que podem muito bem existir e serem felizes sozinhos e estão juntos apenas parar oferecer, como você disse, aquilo que nenhum precisa, aquilo que ninguém nunca quis ou pediu.
Grande abraço!
December 28th, 2007 at 12:12
assobios, palmas e etc…. muito bom….sem mais
December 29th, 2007 at 03:12
Gú, esse texto teu fala de tudo aquilo em que acredito:
- quando a gente se ama, o amor do outro vem naturalmente;
- quando a gente não tenta prender, a pessoa fica, prazerosamente;
- quando a gente não precisa, tudo o que vem é lucro, e é muito bom!;
- o amor muda quem ama, e não quem é amado;
- quando a gente dá, o universo devolve.
Mais uma vez, acertou em cheio!
Quero aproveitar pra te agradecer por todas as boas dicas que você me deu durante o ano, principalmente sua sugestão para que eu fizesse um blog! Ele já me deu, em tão pouco tempo de trabalho, algumas alegrias inesquecíveis!
Espero que você entre em 2008 com o mesmo enorme carisma que teve em 2007, e que seja muito feliz, profissional e pessoalmente!
Beijão!
Analú
January 4th, 2008 at 01:01
Olá, interessante sua proposta.
Quando estava lendo ficou martelando na minha mente a palavra “foco”. Acredito que para ser a pessoa certa, precisamos manter o foco em nós mesmos. Sobre a Liberdade do Amor, concordo, mesmo porque esta é a Liberdade mais cara. Um forte abraço,
January 4th, 2008 at 02:01
Oi Leila, entendo sua posição, mas eu diria o contrário: para ser a pessoa certa o foco é no outro, nas necessidades e nas possibilidades do outro. O que faz o outro brilhar, se abrir, amar?
January 5th, 2008 at 08:01
[...] 5, janeiro 2008 no final do ano passado, um amigo meu falou que eu devia mesmo ler esse texto, por conta de algumas coisas que andavam acontecendo aqui na minha vida. na hora confesso que não [...]
January 7th, 2008 at 10:01
Oi Gustavo, mas no que as necessidades do outro me ajudaram a ser a pessoa certa? Talvez só se estas possibilidades me auxiliem a crescer junto..é isso que quer dizer?
January 7th, 2008 at 02:01
Leila, as necessidades e desejos do outro são os critérios que decidem se o que você tem a oferecer pode fazê-lo feliz. Veja o que eu escrevi:
“Entre dois possíveis parceiros, não escolha o que tem mais a lhe proporcionar, e sim aquele que mais pode se beneficiar com o que você tem a oferecer.”
Abs!
January 7th, 2008 at 04:01
Q alma vc tem Gustavo!
January 8th, 2008 at 07:01
Oi Gustavo… amo tudo q vc escreve!! Parabéns!!
Bjs da priminha
January 18th, 2008 at 05:01
aaaaaaaaaaaaaaai, que textos mais perfeitos por aqui!!!
aprendi mt coisa…e vou refletir ainda mais com as coisas que escreves…adorei, mesmo!
bjs..
January 23rd, 2008 at 02:01
Fantástico o post. Achei que seria mais dicas de auto-ajuda, que eu tenho tanta antipatia, mas nao, me surpreendi, vc disse coisas coerentes durante todo o texto. E nao pareceu impraticável, como costuma ser as palavras sobre esse assunto!
Muito bom, parabens
February 13th, 2008 at 06:02
Gustavo,
Adorei o texto, mas, é difícil observar e descobrir essas tais necessidades do outro para completá-lo, eu mesma costumo não demonstrar as minhas próprias necessidades, talvez por medo, autoproteção, sei lá, será que é por isso que não completo ninguém e não consigo deixar ninguém me completar? rsrs, tô rindo más é sério, não consigo encontrar a pessoa certa, mas vou continuar lendo o seu blog para não desanimar, pois quando leio vejo até uma luzinha no final do túnel.
beijos
June 17th, 2008 at 07:06
caraca que lindo vc esta de parabéns
amei seu lindo texto!!!!!!