Apenas uma vez

Hoje me dedico à sétima arte, mas não por acaso. O filme em questão trata exatamente de música. Apenas Uma Vez, apesar de ser classificado como musical, ao meu ver, não se encaixa totalmente nesse gênero. As músicas, mesmo fazendo parte da narrativa, se tornam na verdade um complemento à história vivida pelos cantores-atores Glen Hansard e Marketa Irglova.
Glen – cujo personagem estranhamente não tem nome, o que eu só percebi bem depois - vive de esmolas em uma rua de Dublin, tocando seu violão velho e descascado. No vai e vem de tantas pessoas, Marketa é quem mais fica curiosa pela voz do desconhecido. Coincidência ou não, além de Marketa ter a mesma afinidade musical (uma bela pianista, fruto do aprendizado com seu pai), ela descobre que Glen também tem o dom de consertar aspiradores de pó.
O interesse comum pela música - e o aspirador quebrado de Marketa que ela leva no dia seguinte para Glen consertar - é apenas o começo para ilustrar uma amizade repentina e, acima de tudo, o medo da solidão. Hansard parece não ter superado o término de seu último relacionamento e Marketa sofre com a distância de sua terra natal – e também de outra notícia que surpreendeu, ao mesmo tempo em que decepcionou, seu recente amigo. Talvez a carência afetiva seja um dos motivos que cruzaram o destino dos dois, mas nenhum outro foi maior para aproximá-los do que a experiência de expressar seus sentimentos através da música.
O que mais impressiona (e emociona também; confesso que quase chorei) é a simplicidade com que o filme foi produzido, desde a atuação dos cantores – cuja naturalidade quase faz você acreditar que é um documentário sobre o início de carreira de uma banda – até o figurino dos personagens. As paisagens irlandesas dão seu toque final para incrementar a delicadeza do filme. Foi com essa simplicidade, além de muita humildade (o orçamento não passou dos 160 mil dólares) que eles levaram para casa o Oscar de melhor canção desse ano.
Como você pode notar, música é a palavra mais usada até agora; e não é à toa. John Carney, diretor e roteirista do filme, foi baixista do The Frames entre 1991 e 1993, banda liderada por ninguém menos que Glen Hansard. As principais canções da trilha sonora, Falling Slowly (que ganhou merecidamente a estatueta), Lies e When Your Mind’s Up fazem parte do álbum solo de Glen, “The Swell Season”, lançado no mesmo ano em que Apenas Uma Vez.
Vá assistir enquanto é tempo, pois está com cara de que vai sair logo. Na cidade de São Paulo, o filme está em cartaz em apenas uma sala de cinema.
Serviço:
- Apenas Uma Vez (”Once”, 2006)
- Cine Bombril
- Avenida Paulista, 2.073 – Conjunto Nacional - Fone: (11) 3285 3696
- Horários: 14h – 16h – 20h – 22h (Dia 13/05, terça-feira, não haverá as sessões das 20h e 22h)
- Dica para seu bolso: aproveite a sessão popular, às 14h, de 09 a 15/05/2008. O ingresso custa apenas R$ 4,00.
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