As armas de Jorge
Foi Hugo Carvana, o ator, quem disse em uma entrevista, que o problema com a crítica cultural brasileira era que ela só elogiava aqueles artistas que considerava gênios, os top-de-linha, os fora-de-série, os Chicos, os Tons, os Caetanos, e que a arte era mais que isso. A arte mediana é reverenciada no mundo inteiro, é parte do dia-a-dia, é o arroz com feijão. Na literatura, por exemplo… não é todo dia que nasce um Proust ou um Joyce, mas aqui no Brasil, escritores como Conan Doyle e Sidney Sheldon, que são reverenciados como celebridades mundo afora, são chamados de literatura menor, isso quando são incluídos entre os “verdadeiros” escritores. E isso acontece em todas as áreas da arte. Porque afinal, não só de grandes protagonistas se faz o teatro e nem só de spallas virtuosos vive uma orquestra. Para cada gênio como Paulo Autran existem muitos esforçados e úteis Marcos Winter, Breda ou Palmeira, só para citar alguns xarás. Para cada Portinari, muitos e muitos Romero Britto. E assim vai. Por sorte, a crítica atual é mais condescendente e sensata com os artistas que vivem na zona média. Artur Dapieve, por exemplo, já teceu (justas) loas a Claudinho e Buchecha e Kelly Key em sua coluna no jornal O Globo. E semana passada, depois de vários anos de injustiçadas críticas e muito preconceito, o novo CD de Jorge Vercillo ganhou uma bela resenha no mesmo jornal.
Não é de hoje que eu gosto e defendo o trabalho deste carioca (que agora incorporou mais um “l” ao seu sobrenome). Alcunhado “o homem que sabia djavanês” pelo genial Ruy Goiaba nesta ótima crônica de dois capítulos, há anos Vercillo se sobressai entre seus pares na música brasileira. Comparado a artistas contemporâneos como os músicos da Trama (Jair de Oliveira, Simoninha, Pedro Mariano e Max de Castro), Jorge Vercillo consegue ser, em todos os aspectos, mais consistente e maduro. Cantor e violonista de grande qualidade, Jorge lançou seu primeiro CD, “Encontro das Águas” em 1993, mas só em 1999, em seu terceiro álbum, “Leve”, alcançou o sucesso, principalmente por conta do hit “Final feliz”, onde ele canta em parceira com Djavan, o que, em uma produção independente, não era pouca coisa. E então, de modo até inesperado para quem era visto em alguns meios como uma boa promessa da MPB, começaram a chover as críticas.
As primeiras falavam de sua semelhança com Djavan, tanto em timbre de voz - coisa que, convenhamos, é impossível mudar, já que é coisa com o qual se nasce - como nas harmonias e composições. Se em parte algumas colocações tem fundamento, por outro lado é difícil dissociar um estilo de uma criação musical semelhante. Afinal, tanto Djavan quanto Jorge, com umas duas décadas de diferença, tiveram as mesmas influências: sons regionais nordestinos (como baião e ijexá), samba e música negra. Depois, quando ficou claro que esse tipo de comparação só ajudava a Vercillo a se tornar mais conhecido e a se aproximar do público, optou-se pela desqualificação. “Ah, é mais um clonezinho, um artista menor”.
Jorge, contudo, não se importou com isso e trabalhou, trabalhou duro. Lançou, em 2002, seu melhor álbum até então: “Elo”, um disco recheado de hits instantâneos, como “Homem Aranha” e “Que nem maré”, e canções sofisticadas como “Celacanto” e “Suave”. Depois vieram os medianos “Livre”, “Signo de Ar” e “Jorge Vercilo ao vivo”, em que Jorge manteve, com algumas poucas escorregadelas, seu padrão. Seu novo lançamento, “Todos nós somos um” - ainda que este nome seja bem pouco criativo, se pensarmos que Jimmy Cliff já fez seu “We all are one” - chega as lojas finalmente incensado pelos críticos. Legitimado por parcerias com Fátima Guedes, Marcos Valle, Jorge Aragão, Leila Pinheiro, Ana Carolina e Danilo Caymmi e gravado por mitos como Maria Bethânia, sem falar em várias músicas mas mais diversas trilhas sonoras de programas de televisão, Jorge Vercillo chega ao melhor momento de sua carreira tendo convencido a crítica e o público. Como disse o crítico Antônio Carlos Miguel em seu texto sobre o mais recente CD de Jorge, “feliz o país que pode ter tocando em suas rádios músicas com a riqueza harmônica e melódica daquelas escritas por Jorge Vercillo. (…) Como o título de um velho disco de George Michael, ouça sem preconceito“.
Luz (Djavan, 1982) - Que Djavan é uma das maiores influências de Jorge Vercillo, isso é óbvio. E me parece óbvio também é que esse gosto deve ter começado pelo mesmo disco que a maioria dos brasileiros teve como a prova definitiva de que Djavan era um dos grandes: Luz, de 1982, que trazia a pedra de toque do músico alagoano, “Samurai”, música eternizada pela gaita de Stevie Wonder. Mas Luz não é só essa música. “Pétala”, “Açaí” e “Sina” também tocaram bastante nas rádios e ajudaram a Djavan alicerçar seu lugar na MPB.
Uns (Caetano Veloso, 1983) - Caetano Veloso nunca foi roqueiro - como ele quer dizer que é agora, quase na quarta idade - mas se deu muito bem nos anos 80, isso é verdade. Seus discos daquela década são quase todos bons e Jorge Vercillo, pelo que produz, certamente os teve em sua vitrolinha. “Uns”, de 1983, é um exemplo da boa produção de Caetano na década do Rock Brasil. Do pop “Eclipse Oculto”, ao samba-enredo “ÿ Hoje”, passando por “Você é linda”, possivelmente a mais bela balada perpetrada pelo músico baiano, “Uns” é um bom disco. Ao lado de outros da mesma época, como “Velô”, “Cores, Nomes”,”Outras Palavras” e “Totalmente Demais ao vivo”, formam uma bela coleção.
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December 12th, 2007 at 02:12
Quando o Vercilo surgiu, eu também tinha esse preconceito com ele, pelo simples fato de achar que ele seria um clone do Djavan, pelos motivos que você evidenciou no texto.
Mas foi só prestar mais atenção em suas composições para perceber que, sim, a música brasileira revelava mais um grande talento.
A música brasileira é a melhor do mundo justamente por causa dessa diversidade - pena que alguns críticos só descubram isso depois que algum colega internacional canta a pedra.
Interessante as dicas: embora eu seja fã do Djavan e do Veloso {e tenha estes discos, entre outros da dupla} nunca cheguei a associar esse ponto da influência deles sobre Vercilo - muito bem sacado, Marcos.
Agora…embora seja coisa rara, meu “preconceito musical” está pousado sobre a filha de Elis - ainda não consegui decifrar o que ela é…
abraços
December 12th, 2007 at 10:12
[...] Esta você não sabia! Guitarrista do Queen vira reitor de universidade em Liverpool - por acaso As armas de Jorge ; Os custos da educação financeira ; Que padrão de beleza é este?- Nossa Via 50ª edição do [...]
December 12th, 2007 at 03:12
Bruno, obrigado pelo comentário. Quanto a Maria Rita, bem, eu de vez em quando eu escrevo sobre ela. Eu, particularmente, gosto da filha de Elis - incluindo aí a questão estética da coisa. O que não quer dizer que ela acerte tudo. Mas, quem tem talento e sorte, acaba acertando até quando erra. Veja este último disco dela, “Samba Meu”. ÿ oportunista até a raiz dos cabelos. Entretanto, é seu melhor trabalho solo, disparado. O mais coerente, o mais coeso, o mais bem arranjado. E olha que eu nem gosto de samba. Abraço.