Blindness - Ensaio sobre a Cegueira
Se pode olhar, veja. Se pode ver, repara [José Saramago, na epígrafe do livro homônimo]
Acabo de chegar da sessão de lançamento, em SP, do filme Ensaio sobre a cegueira, adaptado do livro homônimo do premiado escritor português José Saramago e cuja adaptação para as telas deu origem ao inebriante longa que teve co-produção brasileira, canadense e japonesa.
Dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles, as cenas de estúdio foram filmadas no Canadá - a parte do confinamento num presídio desativado - enquanto as externas foram feitas em São Paulo e Montevidéu.
Não sou crítico de cinema - aqueles que me conhecem sabem que posto aqui neste blog na categoria Empreendedorismo na Web - mas tomo pra mim o chapéu de blogueiro, cuja liberdade de escrever sobre o que queira me permite narrar neste post um pouco do impacto que o recém-lançado filme do meu diretor brasileiro predileto me causou. Aproveito para transcrever, ainda, alguns dados da sua ficha técnica que reforçam minha recomendação para que você, que me lê, não deixe de assisti-lo. Será uma experiência ímpar, aposto!
Ensaio sobre a cegueira, segundo Meirelles, “é um texto que gera muitas perguntas, mas nenhuma resposta, levanta questões sobre a evolução do homem, nos faz refletir criticamente mas não aponta direções”. Cada um terá que descobrir o caminho por si só. ÿ uma história pós-moderna.
Creio que por ser assim tão aberto, permite que cada um “o leia” projetando suas próprias questões e todas as leituras podem fazer sentido. “Não é à toa que tanta gente diz ser este o seu livro favorito”, afirma Meirelles no bolg do filme, onde o próprio diretor posta sua experiência no antes, durente e depois das filmagens.
A história do filme reproduz um universo onde todos sofrem de uma espécie inexplicável de “cegueira branca” e passam a viver, em quarentena, trancafiados pelo governo num sanatório abandonado. Não obstante, a personagem vivida pela atriz Julianne Moore continua enxergando e se torna guia do marido médico (Mark Ruffalo) e de toda uma horda de cegos lá confinados.
A falta desse sentido parece desumanizar as pessoas e aos poucos as remete a um estágio de loucura primitiva. Entre os confinados estão um velho (Danny Glover, vivendo o que parece ser uma espécie de alter-ego do autor da obra, José Saramago) e uma garota de programa (a brasileira Alice Braga, estupenda no papel), o médico e sua mulher.
No confinamento a tensão se instaura com o correr da trama. Num belo dia, alguém se proclama “o Rei da Ala 3″ (Gael García Bernal), e “coloca abaixo qualquer idéia de democracia possível”. Passa a comandar a distribuição dos alimentos e começa a fazer exigências terríveis aos demais em troca de comida.
Gradativamente o público testemunha a decadência dos personagens em cenas de grande densidade emocional, que passam por estupros e assassinatos, por exemplo. Despidos da possibilidade de ver que o outro representa, cada um dos personagens acaba deixando aflorar, alternadamente, o que há de melhor ou pior dentro de si.
O filme é narrado em 3 atos, por “personagens”diversos. No primeiro ato, narrado pelo próprio diretor, a história avança agilmente de forma tradicional. No segundo ato, a Mulher do Médico, narra as ações; “o filme viaja mais, é menos objetivo e divaga como uma mulher”, segundo a descrição do próprio diretor. “(Sim. As mulheres são melhores em divagações do que os homens)”. Finalmente, quando entra a narração do Velho da Venda Preta o filme volta a ter uma trama mais linear. Essas três maneiras de contar a história dão a cara ao filme.
Ensaio sobre a cegueira é um drama com imagens soberbas e alucinatórias de colapso urbano. Tem uma linha de horror em seu centro, mas se torna mais leve pelo humor e gentileza. Peter Bradshaw - crítico do jornal britânico The Times.
O filme é extremamente denso, mesmo tendo passado por sessões de cortes e edições com o propósito de torná-lo mais leve. Alguns poderão sair deprimidos da sessão, ao assistí-lo, mas certamente todos os que forem capazes de entendê-lo (seja lá sob que ótica for), sairão tocados pelo seu enredo.
Ensaio sobre a cegueira não vai obter fãs, mas muitos admiradores entrincheirados - escreveu James Christopher, do jornal britânico The Times.
Uma curiosidade que acho que vale a pena mencionar: Apesar de ter assistido a uma sessão comercial, ao final, várias pessoas, curiosamente, começaram a aplaudir. Vários dos presentes permaneceram sentados mesmo após o acender das luzes, como que a rumirar tudo o que viram. Confesso que fui um deles, tocado pela emoção, que insiste em me acompanhar até o momento em que escrevo este post…
Sandra Oh (Sideways, Grey’s Anatomy), Don McKellar (Clean), Maury Chakin, Yusuke Yseya,Yoshino Kimura, Mark Ruffalo (Zodíaco), Julianne Moore (As Horas), Danny Glover (série Máquina Mortífera), Gael García Bernal (Diários de Motocicleta) e Alice Braga (Cidade Baixa) estão no elenco.
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September 14th, 2008 at 10:09
Otimo Wagner, até fiquei animada para ver e olhe que não gosto muito do Saramago (apesar de ter lido li dois livros dele e gostar de suas entrevistas, não me identifico com suas idéias) e acho os filmes do Meireles, do Gael e da Julianne obscuros demais. Eles não me dão aquela sensação de lazer que gosto no cinema, mas geralmente acabo assistindo no DVD porque são bons filmes.
September 15th, 2008 at 02:09
Acabei de assistir e, sua descrição é idêntica ao modo comome sinto diante do filme. Fantástico!
Tb fiquei sentada por um bom tempo olhando os créditos, paralisada.
September 15th, 2008 at 12:09
Pronto… e agora eu fico morrendo de inveja!!!!!
ÿdio do Senhor, seu Wagner! Muito ódio!