Filme da Bruna Surfistinha: agora a picada do escorpião é no seu bolso
O Ministério da Cultura aprovou a captação de R$ 4 milhões para o filme O Doce Veneno do Escorpião, baseado no livro de Rachel Pacheco, a Bruna Surfistinha. O dinheiro será obtido, portanto, por renúncia fiscal através de leis de incentivo à cultura - imagino que a Rouanet e a do Audiovisual.
Não entrarei no mérito artístico da questão. Nem li o tal livro. Não é isso. Por mim, o filme pode ser até o novo Cidadão Kane - o que, sem demérito, obviamente não será.
Antes de continuar essa história, eu preciso deixar algumas coisas bem claras.
Se você não entendeu ainda o que é uma lei de incentivo à cultura, eu explico.
Por exemplo: o produtor de um artista desconhecido - artistas como o Caetano Veloso, a Daniela Mercury, a Ana Carolina, a Xuxa, o Chitãozinho e Xororó ou os do Cirque du Soleil - precisa de um dinheirinho para conseguir fazer um show ou um filme.
Ele procura então as leis de incentivo à cultura - municipais, estaduais ou federais.
Elas foram criadas para que a iniciativa privada possa ajudar desinteressadamente a esses produtos que ainda não despontaram nas gôndolas de nossos supermercados culturais.
O produtor prepara um projeto cultural bem bonitinho, que será aprovado ou não pelo Ministério da Cultura ou pelo órgão equivalente da esfera estadual ou municipal.
Aprovado o projeto, o produtor agora vai captar o valor estipulado - com cortes ou não - junto a empresas totalmente desinteressadas em finalidades que não sejam a de ajudar a cultura nacional.
Essa ajuda, afinal custa: nada.
O dinheiro transferido para o projeto cultural - seja um show, um filme ou uma panela de barro - é descontado do imposto de renda da empresa. Ou de outros impostos, de acordo com a lei usada.
E, como contrapartida, a empresa pode estampar sua logomarca no projeto, no papel de incentivadora cultural e posar como entidade de alta responsabilidade social.
Antes de continuar a falar sobre o filme baseado no livro da Bruna Surfistinha, gostaria de citar a produtora cultural Yannick Bourguignon:
A Lei do Audiovisual estipula uma alíquota de dedução de 125%. Patrocinar um projeto cultural nestes termos tornou-se algo muito convidativo, por ser um ótimo negócio. Principalmente para as empresas, que com a política de responsabilidade social, vêem na cultura um campo de “atuação”, ou melhor, investimento gratuito e com grande retorno de imagem e marca.
Isto é gritante no caso específico do cinema brasileiro, onde é possível deduzir 100% do valor de patrocínio do imposto e ainda 25% como despesa operacional. Pesquisas realizadas revelam que, por exemplo, para conseguir R$ 60 destinados ao caixa do filme, são gastos R$ 125,00 de dinheiro público, sem qualquer contrapartida privada.
Não sei se eu entendi bem. Eu repassei R$ 1 milhão para um filme e posso descontar R$ R$ 1,25 milhão do imposto de renda? Eu ainda vou ganhar espaço publicitário na tela e no cartaz? Eu devo ter entendido errado. Alguém me explique. Tem certeza de que vocês não estão querendo me enganar?
De fato, eu ia continuar a falar aqui sobre o filme da Bruna Surfistinha - que será dirigido pelo mesmo diretor do indecifrável filme Madame Satã.
Mas prefiro ser breve, dizendo o seguinte: quando você estiver comendo sua pipoca antes de O Doce Veneno do Escorpião começar e as logomarcas das empresas aparecerem, lembre-se, você pagou para que elas estivessem ali. As logomarcas e as pipocas.
E pagou, de novo, na bilheteria.
Mas fique grato a elas: sem as tais, esta e outras realizações cinematográficas brasileiras não seriam possíveis.
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January 3rd, 2008 at 01:01
Pois é! Não me surpreendi ao ler isso. O Brasil tem uma moda de Deja Vu na hora de querer nos cobrar. Pagamos para o filme acontecer, pagamos de novo para ver e não duvido que se o filme for um fracasso (que será) pagaremos denovo.
Existe uma super valorização das empresas Grandes, algo como se fosse um favor delas ao estado por existirem, nada fica como troca e sim como o Estado ajudando a Empresa que pode muito bem caminhar com as próprias pernas. Já as de pequeno porte pagam essa diferença junto com o povo.
January 3rd, 2008 at 01:01
É, meu caro… isto é Brasil. E por mais que a gente não concorde, se não houvesse a tal lei de incentivo à cultura, não iria ter cinema nacional, nem espetáculos no teatro pra gente assistir…
E, como sempre, o povo brasileiro, ingenuamente, pagando por tudo sem saber… E pagando 2 vezes!!!
Parabéns pelo texto!
January 3rd, 2008 at 08:01
éhhh, muuuuito bem lembrado. segundo dados do ibge, menos d 10% dos brasileiros vão ao cinema…
January 3rd, 2008 at 08:01
[...] Leia meu artigo sobre as leis de incentivo à cultura e o filme baseado no livro de Bruna Surfistinh… [...]
January 4th, 2008 at 01:01
Pior foi a cena protagonizada pelo “brasileiro” Hector Babenco em seu traidor filme El Pasado… Com esse texto fiquei calculando o tamanho da “pocavérgonha”.
…
Mas em espaço pós ódio quero expressar admiração pela abordagem dinâmica aqui.
Nossa palavra vai ganhando dimensões que desconhecemos até um tanto grande de gente boicotar o filme,,, Já é uma glória!
Abraços e cinematográficas invenções!
January 10th, 2008 at 08:01
[...] Você deve - ou deveria - lembrar de Guilherme Fontes cuja produção de um filme sobre Assis Chateaubriand empacou depois de ele ter gasto R$ 10 milhões graças à ajuda da Lei Rouanet e da Lei do Audiovisual. [...]
January 10th, 2008 at 08:01
[...] Você deve - ou deveria - lembrar de Guilherme Fontes cuja produção de um filme sobre Assis Chateaubriand empacou depois de ele ter gasto R$ 10 milhões graças à ajuda da Lei Rouanet e da Lei do Audiovisual. [...]
March 5th, 2008 at 05:03
Realmente,
é vergonhosa a política cultural no Brasil. E ainda mais com as leis de incentivo, em que o críterio para a captação recai nas mãos dos diretores de marketing das empresas que apenas visam a publicidade gratuita que ganham com o produto de cultura, (e todos os valores agregados a essa “ajuda”). O critério de selação na maioria das vezes negligencia a qualidade artística do produto, dando preferencias a produtos de maior visibilidade mercadológica. Eu como produtora cultural e atriz no Brasil me revolto com tal situação em que estamos submetidos.
Parabens pelo texto e pela revolta!!!