O modo como você lê está mudando. Já mudou.
O astrônomo Carl Sagan destaca a importância dos livros de capa mole para o desenvolvimento do conhecimento no século XX, as brochuras - aqui no Brasil - ou os paperbacks - nos Estados Unidos.
Uma mudança tão simples - que barateou substancialmente o custo das publicações - teve participação fundamental em um período da história humana no planeta que, segundo o cientista, será lembrado pelo surgimento de:
- meios sem precedentes de salvar, prolongar e intensificar a vida;
- meios sem precedentes de destruir a vida, inclusive pondo a nossa civilização global pela primeira vez em perigo;
- percepções sem precedentes da natureza de nós mesmos e do universo.
Estas observações estão todas em seu livro Bilhões e Bilhões, que pode ser encontrado - em capa mole - em qualquer boa livraria.
Note que edições mais baratas trouxeram para a vida de pessoas comuns como eu ou você a possibilidade de conviver com o pensamento das mentes mais brilhantes da história da humanidade.
Esse processo se dá desde o surgimento da imprensa, quando Gutenberg - e outros - possibilitaram a propagação mais veloz do que os monges beneditinos conseguiriam.
Claro que, naquele tempo, o livro ainda era um objeto um tanto inacessível. Aliás, pouca gente sabia ler. Embora hoje em dia no máximo 10% da população mundial realmente o saiba - sendo otimista -, o livro tornou-se um dos objetos mais populares de nossa época.
Observe que as mídias musicais já passaram por diversas transformações e as da escrita - salvo modificações de material e manufatura - não se alteraram.
Até hoje.
Li um artigo da Samantha Shiraishi, sobre literatura nos blogs, que me fez pensar sobre esse assunto.
De fato, com a popularidade dos blogs e demais leituras online, a forma como as pessoas que gostam de ter o contato com a palavra escrita vai passar certamente por uma nova transformação.
O primeiro passo para tentar detectar para onde isso vai nos levar é tentar não se apegar a bons ou maus valores. Não ver a mudança como absolutamente má ou absolutamente boa.
O professor Cristóvão Tezza, por exemplo, costuma dizer que a internet veio para salvar a palavra escrita. Até meados da década de 90, a cultura pop era ágrafa, sobretudo por conta da televisão, predominantemente visual e auditiva. E até o momento, é impossível se relacionar com o conteúdo da internet sem o uso da leitura e da escrita.
Mais e mais escritores - e nessa categoria incluo qualquer um que escreva algo de qualquer gênero buscando um público de dez ou dez mil leitores -, encontram a internet como forma popular e barata de manifestar suas idéias e ser ouvido de maneira efetiva. Por dez ou dez mil leitores.
É natural que, aos poucos, o formato livro, sempre caro e inacessível a muitos desses escritores, seja deixado de lado. Não por não ter valor. Ao contrário: justamente por ter valor demais. O verdadeiro escritor não quer publicar um livro, ele quer ser ouvido. O livro é apenas o meio, escreva-se histórias de detetive, escreva-se sobre temas técnicos, como resistência dos materiais.
A verdade é que a mudança já está acontecendo. Eu me considero um leitor razoável. E sinceramente acho que minhas leituras online já chegam ao mesmo volume que as leituras chamadas tradicionais. Acredito que, com um meio de leitura mais agradável que a tela de um notebook, esse volume fique ainda mais representativo, principalmente com tanta literatura gratuita na rede.
Mas os pioneiros da literatura online serão aqueles que adaptarem a forma ao meio e também o meio à forma, tirando um o melhor proveito do outro. Por enquanto, os que melhor se aproximam de fazer isso são os blogs, não importando o gênero, com larga vantagem principalmente no que diz respeito ao contato com o leitor.
Eu não sei dizer como será a literatura do futuro, nem sei como serão os leitores e os escritores. Sei porém que, no passado, era aceitável que uma pessoa sentasse de oito a doze horas para ler um livro. Atualmente, com tantas opções de entretenimento, talvez cinco ou seis pessoas no mundo consigam fazer isso, incluindo aquele seu sobrinho que leu todos os Harry Potters em um dia.
Talvez isso me leve a dizer que a leitura será mais fragmentada e ao mesmo tempo textos de diversos autores se interligarão de acordo com a preferência do leitor, de acordo com a maneira com que ele busca seus interesses, busca aos outros e se busca no que lê. O mundo - formado pela leitura - será tanto melhor definido quanto mais se puder encaixar as arestas desse mosaico.
Se o livro de capa mole foi de papel fundamental para o século XX, trazendo o pensamento ainda vivo de gênios de nossa História para mim e para você, a leitura na internet - na tela do computador ou coisa melhor - pode ser a chance que temos de travar conhecimento com esses, de antes, e com aqueles que surgem agora de um modo totalmente único, novo e seu.
E você pode, ainda por cima, pode fazer parte desse momento e deixar alguns comentários para todos eles.
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abril 17th, 2008 at 09:04
Muito bom texto Alessandro.
Realmente… eu conheço muitas pessoas que lêem “somente” no computador!
Eu, particularmente, ainda prefiro os livros e a “pretensa” unidade que eles apresentam…. enquanto adoro a internet exatamente pela possibilidade de discussão e troca.
Enquanto obra de arte, a não ser que seja a proposta explicita do escritor, a fragmentação da leitura online ainda me incomoda um pouco.
Mas talvez isso seja somente um medo “retrógrado” meu… uma ânsia por querer “sacralizar” algo…. ou seja, completamente dispensável!
abril 18th, 2008 at 09:04
O modo como você lê está mudando….
Ops.
Já mudou……
abril 18th, 2008 at 02:04
Ale,
já trocamos idéias em outros comentários sobre este livro - Bilhões e Bilhões - do Carl Sagan. Quando o li foi um divisor de águas em algumas concepções que eu tinha como recém-formada e recém-chegada no Primeiro Mundo.
Acredito no prognóstico (diagnóstico) do nosso professor de faculdade, o blogueiro de papel Tezza: a internet, mesmo com internetês, está salvando esta nova geração e remendando gerações passadas. Graças a ela não corremos mais o risco de sermos agráfos, ela permite que meu filho leia os e-books antes de ver o filme e que ele blogue sobre o que pesquisa na escola. E, melhor, ele pode ter uma troca com os autores que lhe interessam que não tem precedentes na história pregressa das gerações de leitores da sua família! Como não louvar o instrumento que nos traz tudo isso?
Como sempre, gostei muito do teu enfoque.
Abraços
Sam
abril 18th, 2008 at 03:04
Não sei, viu. Adoro ler livros, seja de capas moles ou duras. Sei que a tendência do e-book vai virar moda logo, logo (aqui no Brasil sempre demora um pouquinho pra chegar). Adoro ver uma estante repleta de livros, aquele emaranhado de cores enfeitando a sala dá um toque a mais de conhecimento.
abril 19th, 2008 at 06:04
Alexandrre:
Gostei muito do seu texto. É isto mesmo. Adoro ler livros. Não importava o formato e o tamanho. Agora estou preferindo os de capa mole. São mais bataratos e mais fáceis de levar para todo canto.
Sou uma boa leitora. Não tão boa quanto você, e leio demais na internet. Quando ficar mais cômodo será muito melhor.
Ah, você escreveu tudo…
abril 21st, 2008 at 12:04
[...] O modo como você lê está mudando. Já mudou. Assim Alessandro Martins tratou no Nossa Via sobre as mudanças no formato de leitura, num texto muito agradável. Ale e eu já trocamos idéias em outros comentários sobre este livro - Bilhões e Bilhões (de Carl Sagan, editora Companhia das Letras, com resenha interessante aqui). Quando o li foi um divisor de águas em algumas concepções que eu tinha como recém-formada e recém-chegada no Primeiro Mundo. [...]