Literatura jesuíta

Continuando a série de artigos sobre literatura no Brasil iniciada com o Quinhentismo, eis aqui o “Diálogo da Conversão de Gentio” e parte da missão de Pe. Manuel da Nóbrega com suas “As Cartas do Brasil”.

Tão logo chegaram, os Jesuítas que eram integrantes da companhia de Jesus (uma ordem cristã que não media esforços para expandir fé cristã - fosse na Europa ou em terras além mar) passaram a empenhar-se na conversão religiosa do índios que aparentemente achavam suas atitudes curiosas. A esse movimento, deu-se o nome de Literatura Jesuíta (como ficou conhecida). A catequização dos índios ocorreu por meio do teatro popular com aspecto moral e religioso, sermões, poemas, crônicas e hinos religiosos.

Pe. Manuel da Nobrega foi ordenado pela Companhia de Jesus em 1554. Embarcou na armada de Tomé de Sousa em 1549. Foi amigo e conselheiro deste, como também o foi de Mem de Sá, a serviço da Coroa. Ele recebera de Mem de Sá a missão de dedicar-se à catequese dos indígenas na colonização do Brasil. Com ele vieram também os Padres jesuítas Leonardo Nunes, João Aspilcueta Navarro, Antônio Pires e os irmãos jesuítas Vicente Rodrigues e Diogo Jácome.

Assim que aportou deu início ao trabalho de catequese dos indígenas - desenvolvendo uma intensa campanha contra a antropofagia existente entre os nativos e ao mesmo tempo combatendo a sua exploração pelo homem branco. Participou da fundação das cidades do Salvador e do Rio de Janeiro e atuou na luta contra os Franceses como conselheiro de Mem de Sá.

Seu maior mérito, além de constantes viagens por toda a costa, de São Vicente a Pernambuco, foi estimular a conquista do interior, ultrapassando e penetrando além da Serra do Mar. Foi o primeiro a subir ao planalto de Piratininga, para fundar a vila de São Paulo.

Foi Nóbrega quem solicitou ao rei de Portugal, Dom João III, a criação da primeira diocese no Brasil, em conseqüência desse pedido, Dom Pero Fernandes Sardinha, primeiro bispo do Brasil, foi enviado para Salvador. Em 1558, convenceu o governador Mem de Sá a baixar “leis de proteção aos índios”, impedindo a sua escravização.

Foi nomeado provincial da Companhia de Jesus, no Brasil.

Pe. Manuel da Nóbrega deixou duas obras: “As Cartas do Brasil”, conjunto de cartas em que descreve a terra, os índios e dá conselhos sobre como o colonizador deveria trabalhar na nova terra. Um rico material histórico que permite a qualquer interessado, conhecer um pouco da “longiqua” história da “terra nova”.

Em “Diálogo da Conversão do Gentio” é onde se consegue verificar pretensões literárias. Escrita na forma de um diálogo (forma literária valorizada na Idade Média e por Platão) no texto encontram-se dois interlocutores: Gonçalo Álvares, curador dos índios, e Mateus Nogueira, religioso.

Os dois personagens eram vivos à época de Nóbrega, mas a obra não é apenas uma transposição da conversa de dois homens vivos. Antes, tudo no texto, parece criação de Nóbrega, inclusive o estilo de cada interlocutor.

Esse recurso de se basear em personagens verdadeiros era comum no teatro medieval, o que corrobora as pretensões literárias na obra de Pe. Manoel da Nóbrega.

Trecho de “Diálogo da Conversão de Gentio”:

Gonçalo Álvares – Estes têm alma como nós?

Mateus Nogueira – Isso é claro, pois a alma tem três potências, entendimento, memória, vontade, que todos têm. Eu cuidei que vós éreis mestre já em Israel, e vós não sabeis isso! Bem parece que as teologias, que me dizíeis arriba, eram postiças do P. Brás Lourenço, e não vossas. Quero-vos dar um desengano, meu Irmão Gonçalo Álvares; que tão ruim entendimento tendes vós para entender o que vos queira dizer, como este gentio para entender as coisas de nossa fé.

Gonçalo Álvares – Tendes muita razoa, e não é muito, porque eu ando na água aos peixes-bois e trato no mato com brasil. Não é muito ser frio! E vós andais sempre no fogo, razão é que vos aquentais. Mas não deixeis de prosseguir adiante, pois uma das obras de misericórdia é ensinar aos ignorantes.

Mateus Nogueira – Pois estai atento. Depois que nosso pai Adão pecou, como diz o salmista, não conhecendo a honra que tinha, foi tornado semelhante à besta, de maneira que todos, assim portugueses, como castelhanos, como tamoios, como aimorés, ficamos semelhantes a bestas por natureza corrupta, e nisto todos somos iguais, nem dispensou a natureza mais com uma geração que com outra, posto que em particular dá melhor entendimento a um que a outro. Façamos logo do ferro todo um, frio e sem virtude, sem se poder volver a nada, porém metido na forja, o fogo o torna que mais parece fogo que ferro; assim todas as almas, sem graça e caridade de Deus, são ferro frio sem proveito, mas quanto mais se aquenta no fogo, tanto mais fazeis dele o que quereis. E bem se vê em um, que está pecado mortal, fora da graça de Deus, que para nada presta das coisas que tocam a Deus, não pode rezar, não pode estar na igreja, a toda a coisa espiritual tem fastio, não tem vontade para fazer coisa boa nenhuma; e se por medo ou por obediência, ou por vergonha a faz, é tão tristemente e tão preguiçosamente, que não vale nada, porque está escrito que ao dador com alegria recebe Deus.”

( O quadro que ilustra o post é Partida de Estácio de Sá, de Benedito Calixto, e mostra Pe. Manuel da Nóbrega benzendo a esquadra que vai combater os franceses.)

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Comentários



3 Comentários

  1. Sam via Rec6 em 20/04/2008 04:04

    Literatura jesuíta | Nossa Via: O conteúdo passa por aqui!…

    Lunna Guedes continua a série de artigos sobre literatura no Brasil iniciada com o Quinhentismo, com o Íiálogo da Conversão de Gentio%D e parte da missão de Pe. Manuel da Nóbrega com suas Ês Cartas do Brasil%D….

  2. Literatura… « Acqua em 02/05/2008 06:05

    [...] A Chegada das Letras ao Brasil - Literatura Jesuíta - Padre [...]

  3. denise em 02/05/2008 11:05

    Estou adorando esta série.
    beijo, menina

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