O Radiohead e a Pirataria
Alex Pinheiro para o Via Aberta:
Porém, enquanto estouravam o veneno da pirataria fonográfica, tinha gente pensando. O caos pipocou no oceano da indústria mantenedora de camarins descabidos, quantidade infinda de toalhas, drogas e, nem sempre, rock’roll. Mas tinha um grupo pequeno de pessoas que continuavam pensando em vez de usar a grande mídia pra fomentar a ignorância.
Foram feitas algumas poucas reuniões e decidiram uma estratégia arriscada, porém extremamente possível. Estava firmado que todas as músicas do próximo álbum do Radiohead seriam “vendidas” na internet. Assim, entre aspas, porque você escolhia quanto pagar, de 0 a 100 libras. Uma ousadia que chocou as gravadoras e seus lobbies contraditórios.
“In Rainbows” era o álbum em questão e já figura na lista dos mais vendidos no mundo há algumas semanas, além do topo na parada britânica. Vem bombardeado da mesma originalidade que os fizeram conhecido em meio à multidão mundial com “OK Computer”, em 1997. Uma musica estratégica com batucadas desconexas, falsetes geniais, inconstância e alguns pequenos riffs de guitarra desafinando que o deixa com água na boca, querendo mais, mas é só aquilo. Acaba!
Você ouve, ouve, ouve e tem a sensação de que deve haver alguma exaltação artística sublime que não compreendeu completamente. Não, você não é um completo estúpido! Radiohead é assim mesmo. Não tem mais nada! É só isso! Mas atrás deles, em videoclipes criativos, apresentações surpreendentes e melodias agradáveis, vieram uma quantidade popular de bandas gemendo nas rádios.
Nem venha, imerso em demagogia, dizer que eles pensaram na quantidade gigante de humanos, abaixo da linha da pobreza, que gostam de música. Pensaram em marketing. Pensaram em usar inteligência, só isso! E deram aula pra muitos produtores conservadores e gravadoras arrogantes por aí.
Pensaram, por exemplo, em dar um presente de reveillon para os fãs num show via internet, grátis! Depois prometeram apresentação íntima numa loja de discos em Londres, mas a balburdia foi tamanha que, por questões de segurança, transferiram para uma casa noturna próxima, grátis!. E pra quem não respira o ar londrino eles reproduziram no site www.radiohead.tv a apresentação, ao vivo e grátis!
Agora já invadem as lojas todos aqueles produtos que jazeriam no esquecimento não fosse o marketing arrojado. Tem CD, DVD, CD bônus das sessões de gravação, edição dupla em vinil, livro de capa dura, musiquinha pra celular, camisetas negras com SilkScreen de quinta, entre tantos. E o vínculo criado com a honestidade da banda é tão grande que o fâ tem vergonha de comprar esses produtos todos, pirateados.
Embora alavanque vendagem de antigos trabalhos esse estardalhaço todo deixa a mascar panos, a gravadora de contrato rompido e ódio mordido com a banda, EMI. Isso tudo pelo simples fato de que com essas e outras, deveras inteligentes, o
Radiohead driblou a pirataria provando aos letárgicos artistas mundiais que o oceano é imenso.
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janeiro 23rd, 2008 at 11:01
O Radiohead e a Pirataria
A pirataria divide caminho tênue com a demagogia. Acredito que a supervalorização de produtos está diretamente relacionada com o status social. Sendo assim, quem não dispõe desse status recorre ao caminho mais curto para a igualdade cultural: a pirataria.