Os caminhos da escrita…
Encerrando o tema Quinhentismo - começo salientando que os primeiros passos da escrita no Brasil são contestados por muitos que afirmam que os documentos históricos (carta de Pero Vaz - escritos do Padre Anchieta) em nada acrescentam a literatura brasileira. Ao lançar vôo sobre a história do Brasil e os caminhos das escritas brasileira formei uma opinião bem pessoal quanto a isto - uma vez que acredito que não haveria literatura sem tais documentos.
É obvio que os primeiros passos da escrita em solo brasileiro contribuíram para o futuro da literatura no Brasil e para isso, basta dar um salto no tempo e verificar que os escritos produzidos no século XVI serviram de referência para a literatura brasileira como um todo.
As descrições da natureza exuberante e dos hábitos dos nativos podem ser vistas como embrião do Nativismo, decisivo para as manifestações literárias do Barroco e do Arcadismo (que irei abordar nos próximos posts).
A imagem do índio como símbolo nacional, empregada por autores do Romantismo - também remonta às produções desse período. Até a primeira geração modernista, no intuito de apresentar novos padrões para o nacionalismo literário, apropriou-se da obra de autores do século XVI. É o que podemos verificar em Macunaíma, livro em que Mário de Andrade ironiza a carta de Caminha no capítulo Carta prás Icamiabas, e em diversos poemas de Oswald de Andrade.
Estávamos ainda abatidos por termos perdido a nossa muiraquitã, em forma de sáurio, quando talvez por algum influxo metapsíquico, ou, qui lo sá, provocado por algum libido saudoso, como explica o sábio tudesco, doutor Sigmundo Freud (lede Fróide), se nos deparou em sonho um arcanjo maravilhoso. Por ele soubemos que o talismã perdido estava nas diletas mãos do doutor Venceslau Pietro Pietra, súbdito do Vice-Reinado de Peru, e de origem francamente florentina, como os Cavalcantis de Pernambuco. E como o doutor demorasse na ilustre cidade anchietana, sem demora nos partimos para cá, em busca do velocino roubado. As nossas relações actuais com o doutor Venceslau são as mais lisonjeiras possíveis; e sem dúvida mui para breve recebereis a grata nova de que hemos reavido o talismã: e por ela vos pediremos alvíçaras.
(Trecho da “Carta pras Icamiabas” , Mário de Andrade - Macunaíma. São Paulo: Livraria Martins, 1976)
A crônica histórica e os textos de informação produzidos nas primeiras décadas da colonização brasileira talvez não apresentem realmente alguma relevância estética e tão pouco definam a expressão literária de uma época, contudo, é preciso salientar que tal produção é realmente fundamental para os escritores de momentos posteriores interessados em reavaliar o conceito da escrita brasileira e definí-la diante da invasão européia.
Em Piratininga, futura São Paulo, entre 1567 e 1570, Anchieta encenou o auto bilíngüe Pregação Universal, considerado o primeiro trabalho dramático escrito no Brasil. Assim como o dramaturgo português Gil Vicente, Anchieta criou autos religiosos em que convivem diabos e santos, anjos e personificações alegóricas, Cristo e a Virgem, soldados e mercadores, índios e padres jesuítas. Os diabos têm nomes tupis (Saraiúva, Aimbirê, Guaixará) e surgem em cena pintados de vermelho, emplumados e tatuados, falam tupi, fumam e se embriagam, declaram-se antropófagos e assassinos, adúlteros e luteranos.
Anos mais tarde, Mário de Andrade cria um herói brasileiro, “Macunaíma” é um dos livros mais importantes da literatura brasileira: causou rupturas nas narrativas de tempo, espaço e composição de personagem - houve ainda uma ruptura lingüística, misturando o culto e o popular, o urbano e o regional, o escrito e o oral, contribuindo para o estabelecimento de uma “fala brasileira”. O texto ainda permite uma reflexão crítica sobre a personalidade do homem brasileiro.
O fato é que Macunaíma se inscreveu como parte de nossa cultura, incitando polêmicas, desdobramentos em todas as gerações e segue sendo uma literatura atual que embora tenha sido lançada em 1928 - sua história tem inicio juntamente com os primeiros passos da escrita em terras brasileiras.
É fato, portanto, que em mais de um momento a escrita brasileira, procurou nas raízes da terra e do nativo uma forma de reação contra os estilos e tendências que aqui chegavam. Foi através dessa “literatura” tida como brasileira que os cronistas voltaram a ser lidos, e até glosados, tanto por um José de Alencar romântico e saudosista como por um Mario ou um Oswald de Andrade modernistas. Por isso, é totalmente inadequado dizer que não existe valor nessa literatura de informação.
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maio 30th, 2008 at 09:05
Engraçado, eu nunca olhei para a literatura como algo assim em continuidade. Sempre achei que fosse coisa do momento, entende? O contemporâneo existe por causa da epoca, do hoje, não porque alguém escreveu uma carta em 1500.
Como diz aquela propaganda “Acho que preciso rever os meus conceitos” mas isso é legal. Gostei do seu artigo.
Eu não gosto de Macunaíma, achei o livro meio chato, a história do personagem é esquisita.
junho 1st, 2008 at 01:06
Olá Lunna, o primeiro momento literário do Brasil então foi a “ponta do iceberg”… E o sutil toque de romantismo nunca se perdeu entre os escritos futuros. Gostei da relação que fez com o modernismo. Beijos - parabéns pelo texto! Coloquei um link no meu último post, para que meus leitores queridos também passem por aqui - esse assunto faz bem ao coração da literatura brasileira.