Poetas de rua
Confesso que minha reação aos poetas de rua nunca foi das melhores. Você sabe, aqueles sujeitos que param você na rua e perguntam se você gosta de poesia. É uma questão difícil, admito.
Difícil porque, para responder não, você terá de superar o medo de passar por tosco na frente de um ser lapidado. Ou, melhor, por ignorante bruto na frente de outro ignorante, porém mais delicado. E, se responder sim, vai abrir caminho para que o tal poeta lhe ofereça fotocópias grampeadas de seus originais ao módico preço de cinco reais ou tanto quanto ele ache que elas valham.
Saiu para comprar cigarros
O pai foi comprar cigarros e nunca mais voltou. A mãe morreu no parto. Se estivessem em um livro, essas frases seriam lugar comum, mas trata-se da vida de Isabel Cristina Milano, que aos cinco anos se viu só. Na paisagem urbana, ela chama a atenção, encostada em seus pertences na esquina das ruas Mariano Torres e 15 de Novembro. À sua frente, uma máquina de escrever. Atrás dela, um cartaz improvisado explica que vende poesias a R$ 1,50 e a R$ 3. Não aborda ninguém. Espera que seus clientes se aproximem. Educadamente, incomoda com sua poesia, sem incomodar ninguém, em silêncio, catando milho no pequeno e surrado teclado.
Técnicas de guerrilha para dispersão de poetas de rua
Uma das maneiras de se livrar de um poeta de rua que lhe aborda com voz maviosa e lhe dirige a famosa pergunta “Com licença, você gosta de poesia?” é ser sincero.
- Gosto sim! De poesia. Drummond, Bandeira, Adélia Prado, Carpinejar, Herberto Helder, Jacques Prevért…
Mas essa resposta não é eficiente. Ele ainda se vê na esperança de figurar entre esses ou até superá-los uma vez que sua poesia já transcendeu a técnica simplesmente lírica desses nomes. Então ele vê a oportunidade de estender o seu livrinho para que você o leia ali mesmo no meio da calçada e faça você mesmo o julgamento.
Sem-teto
Isabel dorme nos fundos de um supermercado ali perto com mais cinco moradores de rua. Ao acordar, toma seu posto. Faz alguns meses que todo dia ela senta no mesmo lugar e passa os poemas de seus cadernos para as folhas sulfites. Para algumas pessoas, mesmo com seu aparato literário, ela é invisível. Para outras, poucas, ela desperta curiosidade. Menos pessoas ainda resolvem comprar. Quando consegue R$ 30 por mês é muito.
Mas ela diz que se satisfaz ao saber que uma pessoa comprou e vai ler o seu trabalho. Entende que suas palavras chegam a ter até propriedades terapêuticas para aqueles que estão mais estressados. No fundo, é mais ou menos o sentimento que move os autores que têm seus livros expostos na livraria a poucos passos dali. Cada um deles ganha R$ 2 por edição vendida. Como eles, ela quer mesmo é ser lida.
Mais técnicas
Bem. Então você abriu uma brecha e deu uma deixa para que o poeta de rua lhe colocasse o livreto infecto e xerocado em suas mãos. Uma falha que não mais acontecerá. Já que é inevitável, abra uma página a esmo. Comece a ler. Não mais que dois segundos. Faça cara de paisagem: um misto de contentamento inefável, compreensão e acidente vascular cerebral. Mantendo esse semblante, estenda o livro de volta para ele.
- Mas você nem leu direito…
- Eu faço leitura dinâmica…
- Sim, mas estava de ponta-cabeça…
- É um método novo…
Máquina de escrever
Começou a escrever aos 13 anos, dentro do que a pouco escolaridade permitia. Usava folhas usadas de fotocópias. Mas vendia artesanato, sempre ameaçada pela fiscalização da prefeitura. Então uma mulher da qual não lembra o nome nem sabe o paradeiro lhe disse que usasse seu dom. Todo mundo tem um dom, pensou. E pensou por mais meia hora para concluir o que deveria fazer.
Primeiro vendia as poesias nos sinaleiros, escritas a mão mesmo. Dava resultado. Pouco, mas dava. Certa vez, passou em frente a uma loja de máquinas de escrever usadas. A mais em conta custava R$ 130. Durante três meses sua única refeição diária foi pão com manteiga e café pela manhã. Para economizar, chegou a pesar 36 quilos.
Naum comprendo, sinhô
Ficar nas mesas ao ar livre é praticamente pedir para ser assediado por poetas de rua. Numa dessas ocasiões usei uma metodologia que se mostrou educada e a um só tempo eficiente:
- Olha. Tenho que ser sincero com você. Eu já tentei. Já li de tudo. Drummond, Bandeira, Adélia Prado, Herberto Helder, Jacques Prevért… mas a grande verdade é que eu não entendo poesia…
Com um olhar que misturava decepção e admiração, ele respondeu:
- Nossa… obrigado pela sinceridade. E não só deixou de me importunar como não importunou ninguém naquela mesa.
O presente
Sempre no mesmo semáforo, Isabel era conhecida. E alguns motoristas até já sabiam de sua maior ambição, a máquina. Um dia, um sujeito parou o carro e começou a brigar com ela. Dizia que não agüentava mais vê-la no mesmo cruzamento a vender os seus escritos. Quando ela começava a ficar irritada, o cara tirou do porta malas exatamente a máquina que ela esperava.
Na bolsa, ela tem um livro de poesias de Helena Kolody e outro de Manuel Bandeira, que ela diz servirem de inspiração e modelos. São os únicos que tem, tratados como preciosidade. Quando cansa de ler os dois, lê os próprios poemas, satisfeita.
Filiações
A grande parte dos poetas de rua, não digo todos, se acha meio filhote de Paulo Leminski, aparentada com os irmãos Campos. Todos eles ao menos uma vez já babaram coca-cola, inspirados por Décio Pignatari. Em seus poemas usam coisas como (pre) ocupação, (sub) mundo e outras separações de sílabas que, acreditam, dão novos significados às palavras, mas apenas demonstra que aprenderam isso mesmo: a separar sílabas. Continuam a cavar no poço do concretismo para ver se encontram água, mas não viram que ele é justamente isso, um poço que só tem os tijolos em volta e o oco por dentro. Nada mais vai jorrar dali.
Amor
O tema preferido de Isabel é o amor. Não o amor romântico. “O amor universal”, diz ela, cercada por outros que como ela não têm casa e a rodeiam enquanto escreve. Isabel Cristina Milano, de fato, não tem um lar. Mas possui uma máquina de escrever e uma ou duas palavras para dar ou vender. Nenhum crítico é digno para julgá-las. Ela não estende seus livrinhos para eles. Se eles quiserem, podem procurá-la em seu escritório: 15 de Novembro com Mariano Torres, sob a marquise.
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maio 29th, 2008 at 11:05
Tem certas situações que são difíceis de serem resolvidas e confesso que não tenho toda esta estratégia de comportamento bolada por você. Na maioria das vezes me saio mal. Coisas da vida. . Mas a saída mais rápida é afirmar que não entende poesia e ainda citar os poetas lidos. Rs!
Gostei.
maio 29th, 2008 at 11:05
Ale, que texto genial, desde a descrição desta personagem (Isabel) até a “cara de paisagem” e os filhotes de Paulo Leminski, aparentada com os irmãos Campos. Você não imagina como esta imagem, do poeta de rua com xerox nas mesinhas de bar/café é curitibana para mim! Aqui só fui abordada por eles poucas vezes, na Paulista, pertinho da Casa das Rosas.
P.S. Sabe que me deu vontade de mandar mil livros para sua personagem, né?
maio 29th, 2008 at 12:05
[...] falar na cidade, o Ale escreveu hoje um texto genial sobre uma figura característica de lá: os Poetas de rua. Desde a descrição da personagem (Isabel) até a “cara de paisagem” e os “filhotes de [...]
maio 29th, 2008 at 12:05
[...] read more | digg story [...]
setembro 22nd, 2008 at 05:09
Só uma correção: o nome da Izabel, se escreve com Z . Sim, Izabel Cristina Milano. Ela agora mora em uma pensão na Visconde de Guarapuava e trabalha na esquina da XV de Novembro com a Dr. Faivre, na esquina da Reitoria.
Para quem se interesso com a história desta poeta de rua uma novidade… logo logo poderão ve-la no cinema!