Os custos que as leis de incentivo à cultura criaram: Capitão Nascimento é um fanfarrão

O cantor Zé Rodrix deixou a direção de um espetáculo no ano passado ao saber que ele era patrocinado por uma das diversas leis de incentivo que ora empesteiam a produção cultural brasileira.
O argumento: o dinheiro de todos - afinal, a grana vem de impostos - não deve financiar a aventura de poucos.
Você deve - ou deveria - lembrar de Guilherme Fontes cuja produção de um filme sobre Assis Chateaubriand empacou depois de ele ter gasto R$ 10 milhões graças à ajuda da Lei Rouanet e da Lei do Audiovisual.
Isso foi na década de 1990. O filme não saiu e, pelo jeito, nem vai sair. E o dinheiro sumiu.
Se não me engano, faltou pouco na época para que a coisa ocupasse as páginas policiais. Foi mais uma questão de critério editorial que falta de motivo pra isso.
O fato é que pouco tempo depois ele inaugurou sua própria produtora. Coisa de uns R$ 2 milhões. Você sabe de onde veio esse dinheiro? Eu não.
Mas não é preciso ir nessa linha de raciocínio, em direção ao ilícito, para continuar.
Se você se mantiver dentro de tudo que as leis proporcionam, vai encontrar pelo menos mais um ou dois custos que, antes, não havia.
O primeiro deles vem da distorção dos orçamentos.
Todo mundo que trabalha nessa área sabe que nunca um projeto é aprovado para ser captado em seu valor integral. Então, toca jogar o orçamento lá para cima para se chegar a números razoáveis.
Sem falar no fato de que esses números não poucas vezes incluem a porcentagem que não poderia ser patrocinada pela lei. Ah! Então é por isso que eu vejo algumas pessoas que usam a lei de incentivo pegando nota fiscal até de padaria? Para cobrir as diferenças na hora de prestar contas? Para ajudar os estados na arrecadação do ICMS é que não é.
Bem, com o projeto aprovado em valores mais ou menos próximos do necessário, é preciso que o artista vá até as empresas.
Sim, as empresas ajudam esses projetos desviando uma parte do dinheiro que iria para impostos.
Assim, elas têm a oportunidade de posar de responsáveis sociais - colocando suas marcas em diversos bens culturais importantes - com o dinheiro que, de qualquer forma, iria para governo.
Ou seja: de graça.
De graça não, tolinho.
Você pagou.
Mas nesse caminho existem alguns problemas. É preciso conhecer os canais. As maneiras certas de se fazer e encaminhar um projeto para a aprovação das leis. O jeito correto de fazer um orçamento - que inclua os custos reais.
E os irreais, em alguns casos.
E os custos de se fazer um orçamento inclusive.
E, depois, os custos que existem na captação desses custos: sim, uma porcentagem fica com o captador. Pois o artista não tem tempo de ir até as empresas. Alguém tem que fazer o trabalho chato.
E, além disso, o captador - essa ocupação criada pelas Leis de Incentivo - já conhece os canais das empresas, gente interessadíssima da iniciativa privada, que viu nessa história uma forma de alavancar a fachada de responsabilidade social de alguma multinacional.
E, por isso, quando eu vejo fundações ou associações culturais de bancos e quetais quase dou risada.
Então, só para recapitular, os custos a mais que há em um projeto financiado por uma lei de incentivo:
- a porcentagem que inclui o valor que, imagina-se, não será aprovado integralmente
- a porcentagem que deveria - observe o verbo no futuro do pretérito - ser patrocinada diretamente, sem apoio da lei: e eu me pergunto, quantas empresas estariam interessadas em patrocínio direto com leis tão boas à disposição no mercado? Duas? Três?
- o custo da empresa ou profissional especializado em captação, em geral fixado como uma porcentagem não muito clara do valor do projeto
- o custo do captador que, obviamente, pode ser a mesma empresa ou profissional do item anterior
Agora vem Tropa de Elite dizendo que aceita doações para o Instituto Nacional do Câncer (Inca) de quem assistiu o DVD pirata? Mesmo depois dos milhões que deve ter recebido desta ou daquela lei? Mesmo depois do que você pagou - ou não - para assistir?
Se eu fizer uma doação ao Inca, será uma doação direta. Não quero ver mais gente posando de responsável social às minhas custas.
Nem o Capitão Nascimento. Aliás, ele é o verdadeiro fanfarrão.
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janeiro 10th, 2008 at 04:01
Os custos que as leis de incentivo à cultura criaram…
E a produção de Tropa de Elite, depois disso, ainda passa o chapéu para ajudar o Instituto Nacional do Câncer….
janeiro 14th, 2008 at 01:01
Quando penso Brasil, penso humanidade… Estamos nus numa reflexão constante sobre existir.
Acompanho algumas “fundações ou associações culturais de bancos” que realizam projetos formidáveis, inteligentes e necessários,,, mas nunca sustentei a pecha de ignorante.
Acredito em nossas “crianças derrubando reis, fazer comédia no cinema com a suas leis”…
Bom artigo pra se propagar o realismo. Também gosto de promover o oculto!
Abraços e sociais invenções!
janeiro 19th, 2008 at 01:01
[...] Saiba mais: leia o texto sobre as Leis de Incentivo à Cultura no NossaVia. [...]
janeiro 19th, 2008 at 10:01
A maioria das empresas, com raras exceções, posam de responsáveis sociais desviando verba que era destinada aos impostos.
Só quem acredita em papai-noel acha que as empresas são boazinhas e que tiram de seu lucro para a beneficiência…
janeiro 21st, 2008 at 11:01
Nunca tinha lido seu blog.
Pra falar a verdade nem sei quem é você, vou ler seu perfil ou googlear seu nome daqui a pouco, Mas nossa você escreve bem, direto na ferida e sem rodeios
Mto bom vai ser favoritado.