Dona Silvia
Se houve um dia em que os filhos e netos de Dona Silvia tiveram a certeza de que ela sucumbiria à depressão e à tristeza, foi quando ela perdeu seu marido, o coronel Fragoso. O coronel tinha sido dentista e oficial da Polícia Militar do estado do Ceará e era um homem de fé, caráter e temperamento pétreos. Ao morrer, cercado de homenagens marciais, após seis anos de uma cruel e degenerativa moléstia que lhe cobrira de chagas tão bíblicas quanto as do paciente Jó, ganhou ares de santo. Dona Silvia ficara no mundo, mas parecia que o mundo lhe tinha sido tirado. A ex-diretora de grupo escolar era uma espécie de pessoa “coletiva”, como se ela, a “mainha”, só existisse atrelada ao falecido “painho”. Era líquido e certo que ela não duraria muito tempo.Só que o coronel falecido lhe deixou uma pensão razoável. Era muito dinheiro para gastar com morte, talvez tenha pensado Dona Silvia. “Gasta-lo-ei vivendo“. E então a senhora, à época com 66 anos, resolveu viver, intensamente, furiosamente. Começou por adquirir o hábito pouco salutar do fumo, coisa que o Coronel jamais lha permitira. Tentou aprender a dirigir, mas não tinha talento, descobriu depois. Ao invés, contratou o próprio irmão, motorista de praça, como motorista particular. Seu direito de ir e vir estava garantido. Depois, olhou em volta e verificou quem precisava de ajuda. Fez melhoras na casa de praia da família. Por fim, entediada na provinciana Fortaleza, comprou um pacote turístico em uma excursão e danou a viajar.
Foram treze anos percorrendo o mundo, na companhia de filhos ou de amigos feitos nas próprias excursões. Dona Silvia foi vista nos Andes, na Europa, na Oceania, no Japão, em Israel, por todo o Brasil. Era uma viajante infatigável, para quem nada estava ruim, nunca. Pega certa vez por uma nevasca em New York, sem poder voltar ao Brasil, passou um compulsório Natal em Manhattan. Em Fortaleza, os filhos se desesperavam. Do outro lado do telefone, Dona Silvia descrevia os encantos da neve. Houve época em que viajava sem avisar e seu paradeiro era tão desconhecido como o da famosa personagem Carmen Sandiego. Where in the world is Dona Silvia?
Certo dia, contudo, a vida pregou-lhe uma falseta. Prestes a completar 80 anos e possuidora de hábitos de saúde dignos de um caminhoneiro - fumo, comidas pesadas, nenhuma disposição para médicos e exames - Dona Silvia viu-se diante do destino: um agressivo câncer de fígado corroeu-lhe as entranhas em miseráveis três meses. Abençoada pela ausência de dor mas frágil como um fósforo que se apaga, Dona Silvia faleceu em casa, na rede em que costumava dormir, abraçada aos filhos. Todos sofreram muito, mas ninguém praguejou contra os céus. Dona Silvia viveu e morreu como quis: livre. Durante um bom tempo, antes que seu apartamento fosse finalmente vendido, filhos, netos e amigos se reuniram semanalmente em sua casa para rezar um terço em sua memória. Tive a oportunidade de participar de um deles, pouco depois de sua morte. Pelo menos isso. Por uma triste coincidência, eu fui o único de seus dezesseis netos que não conseguiu se despedir, nem dela, nem do Coronel, meu avô.
Hoje não é nenhum dia especial relacionado à memória de Dona Francisca Silvia Nogueira de Vasconcelos. Este texto, um tantinho romanceado e talvez um pouco inexato, pelo tempo e pela distância, é para louvar a vida e a liberdade, dons que minha avó incutiu em mim pelo exemplo. Este texto também serve como uma pequena e humilde oração em prol dos que não acreditam que o mundo é grande e cheio de possibilidades; dos que se apegam a objetos e pessoas e morrem a cada dia, esperando a separação que, com efeito, sempre acontece; dos que fazem de suas casas mausoléus habitados por sombras, fantasmas e programas de TV dominicais; dos que se martirizam porque não deixam que a vida tome seu rumo; dos que acham que sabem tudo e esquecem que viver é aprender; dos que se entregam à doença e à depressão; dos que só tem o próprio orgulho como riqueza e não aceitam ajuda ou carinho; dos que simplesmente desistem de viver antes mesmo de tentar. Torço para que essas pessoas, algum dia na vida, encontrem o mesmo fogo que impeliu minha avó à vida, uma vida inesquecível, para ela mesma e para todos os que tiveram a sorte de conviver com ela.
Últimos posts de Marcos VP
Popularity: 12% [?]
Posts Releacionados
-
No related posts
























November 24th, 2007 at 07:11
E viva Dona Silvia!!!… bom domingo… []’s
November 24th, 2007 at 12:11
A minha avó só reclama de dor aqui, dor ali….
November 24th, 2007 at 08:11
Muito Bom!!! Que bom seria se todas nós seguíssemos o seu exemplo. Gostaria muito que minha mãe e minhas irmãs a tivessem conhecido…
November 24th, 2007 at 10:11
[...] Tá, eu boto o link amanhã hoje se eu tiver tempo. (UPDATE: Pronto, ei-lo) [...]
November 24th, 2007 at 11:11
Nossa adoreiiiiiiii!! E ela era mesmo tudo isso e muito mais, era uma pessoa especial .
Marcos li esse texto com muita emoção parabéns tá demais e viva a LIBERDADE e a TIA SILVIA.
BJS.
November 25th, 2007 at 05:11
Marcos, que bom que você não se despediu de sua avó antes que ela partisse para a Eternidade. Assim, você a tem sempre viva em seu coração. Obrigada por nos fazer compartilhar dessa dádiva: - saudade de um neto agradecido e envaidecido pela avó, D. Silvia, que em sua trajetória de vida deixou tantos exemplos e lindas recordações para toda a família. Abraços Laura
November 26th, 2007 at 03:11
Não tive como não dar star e share quando terminei de ler no google reader… Assim como não pude deixar de vir aqui deixar meu comentário, pois Dona Silvia muito me lembrou minha avó - recém falecida em 29 de junho último, mas que passou os últimos anos também viajando bastante (inclusive umas 3 idas à europa com uma de suas irmãs). Até onde soube, houve apenas uma ocasião de lembranças à ela, em que estavam pessoas que realmente a conheceram. Em uma adega, tomando um bom vinho, conversando, rindo e se lembrando de como Dona Ana, Tia Ana, vó e mãe tocou cada um - mesmo eu sendo o único parente consangüíneo presente.
Abraços!
November 26th, 2007 at 09:11
Marcos:
Quando meu pai morreu, minha família toda, assim como a sua, pensou que minha mãe iria em seguida. Porque tinham mais de cinqüenta anos de convívio, e um enorme apego, com o agravante de minha mãe ter problemas sérios de saúde. Puro engano! Depois do período de depressão, normal nessa situação, ela deu a volta por cima e passamos a percebê-la mais tranqüila, mais relaxada, seguindo seus próprios ritmos. Essa situação, como a da sua esperta avó, é recorrente em viúvas. Apesar do grande desgosto da perda, a impressão que tenho é a de que, junto com os maridos, se vai a rigidez, o excesso de disciplina, a cobrança, e tantas outras coisas que os homens fazem, muitas vezes sem perceber.
É muito mais freqüente encontrarmos viúvas do que viúvos “alegres”. Da mesma forma, vejo que muitas mulheres separadas dizem que não querem mais um homem dentro de casa; namorar sim, mas sem morar junto. Isso é pra se pensar. Por que a figura masculina vem junto com a idéia de cobrança, rigidez, excesso de disciplina, falta de leveza? Fica a pergunta, quem sabe outros internautas possam respondê-la…
Beijo!
Analú
June 17th, 2008 at 10:06
[...] Alma e Espirito E o casamento, como fica - Lino Resende A finitude da vida - A Grande Abobora Dona Silvia ; O monstro e a cartilha do amor - Nossa Via E você, tem uma Mulher ou Labrador? - Papo de [...]