Infernito particular
O conceito de inferno ? ou o hades, ou a geena ou como mais queiram chamá-lo - como lugar de suplícios e horrores existe em praticamente todas as religiões e faz parte do dia-a-dia de milhões de pessoas. Na literatura, o inferno foi descrito por inúmeros autores. Dante Alighieri viajou até ele em “A Divina Comédia”; James Joyce descreveu-o sob uma apavorante eternidade em “Retrato do Artista Quando Jovem”; Sartre criou um simples porém enlouquecedor inferno em “Entre Quatro Paredes”, livro de onde veio a famosa frase “o inferno são os outros”. O inferno de Joseph Conrad era o Congo de Kurtz em “O Coração das Trevas”. Até eu mesmo já escrevi sobre o inferno e há até quem ache que o Inferno não passa de um night club na Rua Augusta. Mas minha idéia de inferno é outra.Na verdade, eu imagino que cada pessoa tenha seu próprio inferno particular, construído dia-a-dia sobre suas próprias frustrações, medos, traumas e conflitos, para não falar dessas pequenas neuras ? também conhecidas como raivinhas ? que as pessoas tratam como elefantes ? enormes e incômodos - quando aparecem. Sendo assim, é fácil montar o quebra-cabeça de nosso inferno pessoal, que pode até acontecer depois da morte ? não a dos meus leitores que são pessoas super elevadas, espiritualizadas e de bom coração ? mas que costuma acontecer de vez em quando na vida de cada um, nem que seja por algumas daquelas horas que transformam um dia ordinário em um daqueles dias.
Flanelinhas, por exemplo, são personagens contumazes de meu infernito particular. E pessoas mal educadas, vendedores invasivos (oi-bom-dia-fique-a-vontade- se-precisar-de-alguma-coisa-meu-nome-é-Craudirene), chefes esquizofrênicos, gente que maltrata crianças, gente que maltrata animais, pichadores, lavadores de para-brisa e fanáticos de toda natureza, todos esses também. Para falar a verdade, tem dias em que me invade uma misantropia tão violenta que até me olhar no espelho é incômodo. Por sorte ainda tenho minha mulher, filhos e familiares para me reestabelecer a esperança.
Mas não são apenas as pessoas que me incomodam. Máquinas e aparelhos conseguem me tirar do sério quando, apesar de todo o cuidado que eu costumo ter com sua manutenção, resolvem prevaricar de suas funções exatamente quando mais preciso delas. Eu sou apaixonado por automóveis e computadores, mas justamente eles têm a capacidade de me deixar absolutamente furioso quando escangalham. Outra coisa que eu aturo apenas por educação é o desconforto, toda espécie dele, desde as vicissitudes climáticas - dias de calor extremo, freqüentes no verão carioca, me deixam de péssimo humor - até incômodos de menor monta, como os gustativos. Em meu inferno pessoal, toda pizza e toda massa sempre vem com uma insuportável abundância de cebola. E todo queijo está velho, toda cerveja está quente, toda comida está insossa. Sem falar que sempre haverá alguém para lhe convencer da sublimidade dos soufléés de chuchu. Argh! Camas duras, banho frio, poeira no ambiente, barulho em excesso, tudo isso também me deixa realmente pilhado.
Por sorte, todas essas coisas raramente se encontram ao mesmo tempo em minha vida cotidiana. Ajuda-me o fato de eu ter hábitos simples, gostos frugais e uma monástica disposição de evitar problemas a todo custo. Paradoxalmente, entretanto, eu vivo entre o porto seguro de minha rotina e a ansiedade de experimentar coisas novas. De qualquer modo, não sofro com isso. Cada coisa em sua hora. O que eu espero realmente, já que meu inferno particular diário até que é tolerável, é que ele não me venha de uma vez só quando eu bater a cachuleta. Minha verdadeira impressão é a de que se eu fosse parar na terra onde habita o cramulhão, o capiroto, o pé-preto, o sete-pele, o canho, enfim, o larazento, toda a minha eternidade se daria no meio de algo semelhante a uma micareta baiana.
De qualquer modo, a literatura mesmo nos dá alguma esperança. Não à toa, meu trecho favorito sobre infernos é do livro “Cidades Invisíveis”, de Ítalo Calvino e diz assim: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço“. Como eu disse antes, a coisa boa do inferno é que somos nós mesmos quem os construímos. Sendo assim, também está em nossas mãos desmantelá-los.
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December 1st, 2007 at 10:12
hehehhe… concordo com você! Meu inferno particular também passa por algumas das coisas que você citou, mas está completamente materializado n’O Processo” de Kafka. Eu costumo dizer que, se o inferno existe, ele deve ser um monte de papéis e burocracia e eu, é claro, terei a responsabilidade de arrumar tudo!
December 2nd, 2007 at 10:12
Concordo com a tua teoria e acrescento que vamos nos enredando nele e não percebemos que já não tem mais saída. O inferno é aqui.
December 3rd, 2007 at 05:12
Marcos, adoro Cidades Invisíveis - aliás, vários livros do Calvino- e gostei de ver a citação aqui. Em termos literários, Retrato de um artista quando jovem foi um dos meus inferninos, um dos raros livros que não consegui ler até o fim.
December 3rd, 2007 at 05:12
Esse livro do Calvino é top 10 pra mim! Sensacional tudo: idéia, linguagem, tudo. Eu lembro bem desse “abrir espaço” que ele fala. Marcou para mim.
ÿtimo post!!!!
December 3rd, 2007 at 10:12
[...] Flanelinhas, por exemplo, são personagens contumazes de meu infernito particular. (more…) [...]
December 4th, 2007 at 07:12
[...] O dia em que não conheci Bia Kunze - Futilidade Pública Prestígio e Ilusão - Apoio Fraterno Infernito particular - Nossa Via Fim de ano é o que há - de salto [...]
November 17th, 2008 at 07:11
De quem mesmo é a frase “O inferno é aqui” ?