Não desamarre o meu bode
Não sei se acontece só comigo, mas basta eu expor uma foto qualquer minha em que eu não esteja sorrindo de orelha a orelha, que se forma um certo climão ao meu redor. Lembro que eu escrevi um dia sobre o incômodo que causa nas outras, uma pessoa quieta em um canto, mas sem dúvida uma pessoa triste ou simplesmente meditabunda, causa mais espécie, muito mais. Hoje em dia, ninguém parece suportar ver alguém amuado sem ter instintos irrefreáveis de sacudir o pobre sujeito gritando: “vamos lá, qué qué isso? levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!“.Pois querem saber? isso é um negócio insuportável.Acontece que eu já fui uma pessoa muito mais melancólica do que sou hoje. Mas eu confesso que, se antigamente eu evitava demonstrar minhas tristezas por medo de incomodar demais as pessoas, hoje eu o faço por medo de que as pessoas me incomodem. Sim, é claro que eu tenho amigos de verdade que estão sempre dispostos a me escutar se eu tenho problemas. Mas são só esses. O resto do mundo, ainda que inocentemente e ainda que com as melhores intenções (tenho plena consciência disso), está disposto mesmo é a tentar me animar. E nada mais enjoado que esse espirito de micareta que paira sobre tudo. O imperativo categórico do mundo contemporâneo, nas rádios, televisões, empresas, clubes e academias, escolas e templos é: “pare de sofrer”. A qualquer custo, se necessário.
Só que isso é impossível. A vida é dura, duríssima e bons momentos são raros, ainda que a lembrança desses seja o que, via de regra, nos sustente o ânimo por toda uma vida. Essa alegria artificial e efusiva, essa tentativa de fazer com que tudo e todos ao redor estejam sempre sorrindo e de bom humor é um truque de comunicação e marketing, com vistas à manutenção do consumo, sempre. Pessoas tristes em casa, quietas no canto, interiorizadas e pensantes não são adequadas ao modus vivendi e operandi do mundo capitalista. Mas basta pensar cinco minutos para perceber que esse estilo de vida, essa busca obsessiva por evitar o sofrimento, apenas serve para causar mais sofrimento ainda às pessoas.
Eu tenho 37 anos e confesso que não acredito em rigorosamente nenhuma técnica motivacional. Mas tenho amigos que acreditam e que se motivam e eu não tenho nada com isso. Só que eu canso de ver como justamente as pessoas mais alegres e ativas são as que primeiro e mais ruidosamente desabam diante de alguma eventual tristeza. E como têm dificuldade em se reerguer. E o pior: quando se erguem, normalmente é às custas da mesma fuga da realidade que as deixa indefesas e sem alicerces diante dessas dificuldade. Porque elas só conhecem essa ilusão de alegria. A tristeza, quando acontece, não é como coisa normal da vida, como deveria ser. Ninguém diz a elas que essas coisas ocorrem e então essas pessoas, além de tristes, sentem-se traídas. Sem falar que é apavorante buscar uma interiorização e perceber que não há nada por dentro, a não ser um fundo e desértico silêncio.
E mais: quem vive sob a ilusão da animação, quando precisa ajudar alguém, só consegue fazer isso impondo mais animação aos outros. O que se ouve dizer hoje, por exemplo, quando uma pessoa querida morre? “bola pra frente”, “vida que segue”, essas coisas. Não existe mais a instituição solene e necessária do luto. A ninguém mais é permitido um tempo para se recompor, para chorar suas dores, para fechar suas feridas, para recolher seus pedaços, para recomeçar, enfim. Dia desses, eu estava em uma missa, com minha mãe, irmã e filha e para espanto da audiência, o padre disse uma frase que surpreendeu a todos, inclusive a mim: “todo mundo quer chegar ao paraíso, mas ninguém quer passar nem dois minutos ao pé da cruz”. E foi o melhor sermão que eu escutei nos últimos 10 anos, de longe.
Que ninguém quer sofrer, é aceitável. Mas aceitar o sofrimento e respeitá-lo não é questão de se entregar a martírios ou culpas. É uma questão de sobrevivência do espírito ter um tempo para se recolher, para o silêncio, para o pensamento, para o interior, para as lágrimas, se necessário. E por isso me irrita quem quer me tirar esse precioso tempo, quem quer desamarrar meu bode preto, quem quer colocar axé music no lugar de meu jazz, quem quer me encher de cerveja quando eu preciso é de um conhaque. Porque cada um desses momentos infelizes são parte tão verdadeira de mim quanto meus momentos de alegria. Principalmente porque são eles que, ao final das contas, me darão a medida exata de quão valiosa é essa alegria.
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dezembro 8th, 2007 at 04:12
Marcos,
Com relação ao seu último parágrafo, lembro que está chegando a pior época do ano, o reveillon, quando, qualquer que seja o nosso estado de espírito, somo levados a nos unir a um bando de pessoas e explodir de alegria.
dezembro 8th, 2007 at 04:12
Marcos:
Olá! Li seu comentário, no meu post, e quero agradecer a sua gentileza, de se dar ao trabalho de comentar. Porque, não sei se você já percebeu, mas as pessoas têm uma preguiça enorme de fazer isso. Muitas vezes encontro pessoas que leram meus textos, no meu blog, e elas me dizem que gostaram, coisa e tal… E eu pergunto: mas por que não deixou um comentário, só pra eu saber que você passou por lá? Preguiça pura.
Mas, então, em vez de agradecer lá, vim dar uma olhada no seu post. E adorei, Marcos! Você demonstra uma sensibilidade não muito comum entre homens. Tudo o que você disse é a mais absoluta verdade. Essa alegria permanente é realmente algo superficial e irritante. E é fórmula garantida para que as pessoas deixem de se conhecer, se afastem de sua própria alma. Eu não vou ficar me estendendo muito aqui, mas se você quiser ter noção do quanto eu concordo com você, leia esse post, do meu blog, que é, justamente, um trabalho para que as mulheres façam contato com sua própria alma - http://reencontrandosuaalma.blogspot.com/2007/11/como-recolher-ossos-ou-algumas-formas.html
Nele, eu falo sobre o poder até terapêutico do choro.
Muitas coisas que falo pras mulheres, lá, servem perfeitamente para os homens, também. Me dê o prazer da sua visita, e, se possível, do seu comentário!
Abraço!
Analú
dezembro 8th, 2007 at 02:12
oi Marcos, tive a sorte d ter um amigo, amigo seu também, q já havia te elogiado com muito carinho, e recomendado, meio q naquela d sine qua non, rs, d ir ler sempre vc. eu, q não sou boba, acatei o conselho na hora, claro. ;0)
sabe, qdo era mais nova, não concordava muito com essa máxima d que a gente só sabe pesar a felicidade através da tristeza. achava isso meio maluco e acreditava que uma agia independente da outra.
isso foi nos tempos da adolescência. não entrava na minha cabeça q, para eu ser feliz, teria que ter sido triste antes. só que aí, um tanto de tempo depois, percebi q havia entendido a coisa errado, a relação nunca foi e nem nunca vai ser direta assim, como antes pensava. não é uma balança q, a cada hora, um prato pesa mais q o outro. e a gente tem q ser um equilibrista.
hoje entendo q uma das coisas q mais dignifica o ser humano é o sofrimento - mas o sofrimento vivido como vc bem descreve aqui. o sofrimento sentido, q vai grudando, paulatino, na pele.
esse sofrimento dá o tom da medida de tudo o mais. sim, é através dele que a gente entende que um dia tudo vai acabar e, já q estamos todos aqui, melhor mesmo é se misturar a tudo, do jeito q escolhermos - e não perceber os dias passarem, sem deixar q nada nos viole, nos adentre, como se estivéssemos todos sempre suspensos a meio metro do chão.
esse seu texto foi um dos melhores q já li aqui. parabéns, moço! ;0)))
dezembro 8th, 2007 at 02:12
Porra, MUITO bom, Marcos! Eu concordo com TUDO o que disse.
Abração!
janeiro 9th, 2008 at 11:01
Belo artigo cara. Tem dia que tem que fechar pra balanço mesmo.
abril 12th, 2008 at 03:04
[...] dias o pessoal estranha. Vem um monte de gente perguntar o que aconteceu, um monte de gente tenta desamarrar o meu bode. Não que eu goste disso. Eu só quero ficar em paz. [...]